Depoimento de um sobrevivente de Hiroshima

Takashi Morita

Depoimento de um sobrevivente de Hiroshima
Takashi Morita é um hibakusha – nome pelo qual são conhecidos os sobreviventes das explosões atômicas em Hiroshima e Nagasaki. Ele conta o horror que passou durante a explosão da bomba atômica em Hiroshima e fala também sobre os problemas nucleares que o Japão vêm sofrendo após Terremoto e Tsunami que atingiu a costa japonesa em 11 de março de 2011.

Aos 21 anos, Takashi Morita presenciou o início da era atômica. Hoje, com 89, é dono de uma mercearia no bairro do Jabaquara, em São Paulo, e preside a Associação dos Hibakushas no Brasil.

Para o comerciante Takashi Morita, as imagens do Japão arrasado pelo terremoto, pelo tsunami e agora sob o temor do risco nuclear são um “pesadelo”. Aos 87 anos, ele é uma pessoa lúcida e bem humorado e mora em São Paulo desde 1956.

Ele conta como sobreviveu, em 6 de agosto de 1945, à bomba nuclear jogada sobre a cidade japonesa de Hiroshima durante a Segunda Guerra Mundial. A bomba explodiu a cerca de 1,3 km de onde Morita estava. Na época, ele era soldado da polícia japonesa e tinha 21 anos.

A bomba explodiu bem no centro de Hiroshima, a 580 metros de altura, numa bola de fogo que atingiu cerca de 230 metros de raio. Calcula-se que no hipocentro – o ponto em terra exatamente abaixo da explosão –, a temperatura atingiu de 3.000 a 4.000 graus centígrados. É mais do que o dobro da temperatura necessária para fundir o ferro, em torno de 1.500 graus. Os dados são do livro The legacy of Hiroshima, do físico japonês Naomi Shohno, citado numa reportagem que Roberto Pompeu de Toledo publicou em 1995 – cinqüentenário da explosão – na revista Veja. “Foi como sofrer um esbarrão do sol”, definiu Pompeu de Toledo. Um esbarrão que tirou a vida de dezenas de milhares de seres humanos.

“Lembro-me como se fosse hoje. Eu estava caminhando nas ruas da cidade quando a bomba caiu. Primeiro foi um clarão, depois uma escuridão. Então começou uma chuva preta, e as pessoas que estavam queimadas abriam a boca para tomar aquela água contaminada. Eu via pessoas queimadas, dilaceradas, andando com as tripas arrastando pelo chão, a pele pendurada, pedindo água e implorando por socorro.” diz Morita, relembrando o inferno que viveu.

Morita foi diagnosticado com leucemia duas vezes enquanto ainda morava no Japão, onde fez tratamentos. Desde que se mudou para o Brasil, apesar de problemas de coração e diabetes, nunca mais teve leucemia. Ele veio para São Paulo justamente para melhorar a saúde.

“Me falaram que São Paulo era uma cidade alta, com um bom ar. Aqui no país é bem melhor. Essa é a verdade. Quando saí do Japão estava doente da bomba atômica. Quando cheguei no Brasil acabou. A terra e o clima são muito bons, as pessoas, tudo. É o paraíso mesmo, aqui no Brasil”

Para o japonês, o cenário de destruição das cidades do Japão após a passagem do tsunami lembra a situação da cidade de Hiroshima após a bomba.

Takashi Morita

“Isso que está acontecendo no meu país me faz sofrer muito, é muito triste. Nós, os sobreviventes das bombas nucleares, lutamos pela paz e contra a energia nuclear. A radiação é a pior arma que existe. Não tem cheiro, não podemos vê-la, não tem barulho, não deixa rastro. As pessoas vão sentir seus efeitos ao longo do tempo”, diz o comerciante. Hoje, ele é presidente da Associação das Vítimas da Bomba Atômica no Brasil, que integra 120 sobreviventes da tragédia e seus descendentes.

Quando a bomba atômica atingiu Hiroshima, o soldado vestia uniforme militar e acredita que por isso foi protegido. Como usava boné, também não teve problemas no rosto, mas sofreu uma queimadura grave na nuca, o que o impediu de continuar ajudando no resgate das vítimas por muito tempo.

“Depois da bomba, todos os sobreviventes deixaram Hiroshima, porque a radiação se alastrava. Mas eu fiquei durante dois dias, só carregando corpos, ajudando pessoas. Nestes dois dias, não comi nem bebi nada na cidade. Tudo podia estar contaminado e me contaminar por dentro. Se a radiação entra dentro de nós, daí não tem salvação”.

“Eu também estava em missão, trabalhando, não sentia fome. Depois, no terceiro dia, meu comandante me mandou ir para um hospital fora da cidade cuidar da queimadura, que estava ficando ruim”.

Parentes no Japão

Morita tem um neto, que mora em Tóquio. O jovem trabalha e constituiu família no Japão e não pretende retornar ao Brasil. “Temos parentes na capital e amigos na região próxima à usina nuclear de Fukushima (que apresentou acidentes e explosões), alguns que não conseguimos contato. Eles tiraram todas as pessoas das cidades próximas”.

Hiroshima após bomba

“Se eu pudesse fazer um pedido ao governo japonês, pediria para não construir mais usinas nucleares, não usar mais urânio. A minha missão neste planeta é conscientizar as pessoas, principalmente os jovens, sobre os efeitos da radiação. Ela tem poderes que não se pode conter, nunca mais nem ninguém. Tem gente morrendo até hoje, sofrendo até hoje, pelos efeitos da radiação das bombas atômicas”, diz o comerciante Morita.

Às pessoas que se encontram na região de risco, ele aconselha a “não comer, beber, nem colocar nada para dentro do corpo que esteja naquela região”. “A radiação contamina tudo, a água, os alimentos. Não dá para usar nada dali”. Ele também lembra os primeiros efeitos da radiação das vítimas que ajudou: bolhas de sangue formando-se pelo corpo e sangue saindo da gengiva.

Reconstrução do Japão

O sobrevivente de Hiroshima veio para o Brasil em 1956, com a mulher e dois filhos. Desembarcou no Porto de Santos, após 42 dias de viagem, com destino a São Paulo.

Vítimas de Hiroshima

Questionado sobre se acha que o país que lhe acolheu ajudará o Japão a se reconstruir, Morita não pensa duas vezes. “O brasileiro é um povo de coração muito quente e ajuda a todos. Tenho certeza de que irá ajudar o Japão”, diz.

Ele também acredita que o povo japonês, como ocorreu após a Segunda Guerra Mundial, irá se unir para reverter os estragos da tragédia. “O japonês sofre, mas não chora. Sofre por dentro, mas se une para trabalhar”, acredita ele.

Morita receberá uma homenagem do estado de São Paulo pela sua luta contra a radiação. A Escola Técnica Estadual (Etec) de Santo Amaro, na Zona Sul da capital, pretende mudar o seu nome para se chamar Etec Takashi Morita. Segundo o diretor da unidade, Fernando Antônio de Campos, um projeto de lei que autoriza a alteração no nome da Etec tramita desde fevereiro na Assembleia Legislativa do estado.

marcha para a paz

A Associação das Vítimas de Bomba Atômica no Brasil, da qual Morita faz parte é responsável pela negociação com o governo japonês pela assistência aos 127 sobreviventes da bomba que imigraram para o Brasil – o governo só ofereceu ajuda para quem ficou no Japão. A Associação Hibakusha-Brasil pela Paz é recente e faz ações em parceria com a sociedade civil para disseminar a paz e dizer não à guerra e às armas nucleares.

“Em Hiroshima e Nagasaki as bombas atômicas acabaram com duas cidades e mataram milhares de pessoas. Hoje, uma bomba atômica pode acabar com o mundo inteiro” , afirma Morita. As ações da Associação Hibakusha (palavra que designa mundialmente sobreviventes de Hiroshima e Nagasaki) são uma extensão dos trabalhos de jovens de Nagasaki que trabalham pela mesma causa, ao redor do mundo.

Confira a entrevista de Takashi Morita

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21 Comentários

  1. marcely

    eu queria falar que os japoneses eles sao muito forte e quem sem duvidas deus que nao abencoa so um mas sim todos que esta senpre olhando por eles e que eu vou ter o maior 😆 prazer de fazer uma comunidade para juntar uma doacao de roupas,sapatos,mantimentos,etc mas eu quero que eles saibao que deus vai esta senpre 🙄 por eles boa sorte ai…..

  2. eu queria falar que os japoneses eles sao muito forte e quem sem duvidas deus que nao abencoa so um mas sim todos que esta senpre olhando por eles e que eu vou ter o maior 😆 prazer de fazer uma comunidade para juntar uma doacao de roupas,sapatos,mantimentos,etc mas eu quero que eles saibao que deus vai esta senpre 🙄 por eles boa sorte ai…..pode apostar nos brasileiros vamos consiguir salvar a todos ❗ ❗ ❗

  3. aqui no brasil estamos espantados com tudo que aconteceu no japao e mas espantado ainda com a coragen e a determinacao deles e por eles ser tao unidos como eles sao eles nao ajuda o procimo so por obrigacao mas sim com o coracao 😆 continua assim senpre forte a gente aqui estamos torcendo por vcs 😆 😆 😆

  4. se isso aconteceu é por q eles ñ tem temor a deus por q se tivesse uma pessoa q pedisse perdão pelos seus pecados para deus,deus nunca ia permitir isso acontecer..Mas eu dou os parabens para todos os sobreviventes porq eles foram fortes para aguentar essa luta 😀 😉 😛 🙄 😳 😆

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  6. roberto

    eu tenho certeza que o povo japones vai vencer mais esse obstaculo.tenho carta de caminhao e me coloco a disposicao caso precisar de motorista pra prestar algum servico.terei o maior prazer em contribuir,principalmente por um povo tao gentil e educado.gambare NIPON.

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  8. gloria pereira sabadine

    muit bonito essa historia de superaçao dos japoneses que sobreviveram e vineram para o brasil se abrigar , se refugiar que voces sejam bem vindos aqui .beijos e boa sorte.

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  10. Bianca

    😀 😛 😆 🙂 “eu acho que os sobreviventes sao muito fortes e corajosos e fico feliz que eles sobreviveram e que alguns ainda estao vivos para contar na real o que ocorreu” ❗ ❗ ❗

  11. Quero parabenizar Sr. Takashi Morita, pelo exemplo de conduta demonstrado nesta amarga experiência – fiz questão de posta em meu facebook (jonas camalhonte) uma homenagem a este grande cidadão que tem meu maior respeito – eu e minha esposa, Mirian Mieko Omae Camalhonte nos emocionamos com sua história – seria huma honra conhece-lo pessoalmente – parabéns – moramos em Marília, mas as vezes nos deslocamos a cidade de São Paulo – um grande abraço

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  13. Marcos Augusto Beato

    Por favor, eu gostaria muito de saber da possibilidade e como entrar em contato com o Sr. Takashi Morita. Hoje assisti sua entrevista no telejornal do SBT, sem duvida alguma não há como não se emocionar com o relato mas com a alegria do Sr. Morita. Sou, professor de geografia do estado do Paraná, e me sentia honrado com a visita dele em nossa escola, para tanto preciso do contato dele. Obrigado

  14. lorival

    eu conheci hiroshima,moro em shizuoka,mas pra mim foi uma covardia infeslimente ,nao tinha bases militar

  15. Yumi Matsumoto

    Meu avó japonês, sempre contava suas histórias…era pra ter a idade do Sr.Takashi.Faleceu a 4 anos sem aposentadoria, sem ser conhecido por ter feito tanto , ouvir Sr.Takashi é como ouvi-lo.saudades!!! Ele ao fugir da guerra veio aos 32 anos e trabalhou na agricultura por toda sua vida, no Brasil.No Japão foi piloto kamikaze, foi para Filipinas , Vietnã etc….em missões..E quando ficam velhos, doentes, Japonês, nem no Japão nem Brasil conseguem ajuda.Minha bachan (avó) já tem 87 anos e não tem aposentadoria. Esperança por dignidade a esses guerreiros.

  16. Alvaro Tadeu de Andrade

    Sou Professor de uma Escola Estadual na Zona sul em São Paulo, gostaria de saber se o Sr. Takashi Morita daria a honra de marcar um dia para ir a escola e contar algumas experiencias que teve durante a segunda guerra, pois ajudaria e muito no desenvolvimento dos nossos alunos, pois sei que são momentos que os livros jamais poderão relatar, pois são momentos unicos na vida de cada um estou a disposição e retifico que ficaria muito grato por sua presença mesmo que seja por um curto espaço de tempo, sei que possui uma vida atarefada. Eu e professores da Escola agradeçemos de ante-mão independente da resposta.

  17. Lázaro F.C.

    – Na verdade os ataques as cidades civis japonesas foi O PIOR ATAQUE TERRORISTA DA HUMANIDADE praticado por um pais que hoje luta contra o terror.
    – Dá pra acreditar?
    O povo japones não pode deixar isto passar impune, tem que acionar a ONU (manipulada pelo USA é dificil) para serem resarcidos financeiramente e este ato ser julgado como crime de GUERRA. A população, em sua maioria, é contra qualquer tipo de guerra, não justifica lançar uma bomba sobre ela.

    Os atentados ao world trade center é fichinha e fizeram um estardalhaços. – é muita hipocrisia! e tem a midia que compra a idéia, não vejo eles (a midia) comentando sobre as bombas em cidades civis japonesas, como se fossem atentados.

  18. Gih Mitxy

    Eu sei que o que vou falar não justifica. Matar inocentes, não justifica. Não gosto dos EUA, mas os próprios japoneses que sobreviveram criaram uma espécie de organização ou grupo e culpam o japão pelas mortes. Se vocês procurarem saber mais, verão que o japão começou a guerra matando americanos e julgando conquistarem o mundo, pois seu imperador na época gostava que comparassem ele a um deus. O estados unidos atacaram na intenção de acabar com a guerra . É claro que eu não sou a favor de matar milhares de pessoas inocentes, mas não vou julgar um só país. Julguemos sim, seus governantes prepotentes e impiedosos.

  19. Nondemiro

    Japão começou a guerra matando americanos?
    Na prática, os americanos já estavam em guerra, pois atacavam navios japonêses que furavam o bloqueio imposto por eles. Portanto, você é mais um que caiu no conto de que o ataque ao Pearl Harbor tenha sido covarde e surpreendente. É claro que o ataque deu a justificativa para declarar guerra contra o eixo.

  20. Nondemiro

    Infelizmente, eles roubaram até a invenção do avião e o vôo do Santos Dumont foi apagado nos livros de história deles…

  21. Willyam

    Penso eu que as potências em luta (Aliados e Eixo Anti-Komintern) usariam a bomba sem nenhuma vergonha. O Japão – que teve conduta bárbara naquela época, principalmente em Manchukuo – usaria tal bomba sem pudor, em Nova York, Londres ou Nanquim.

    Talvez os parisienses tivessem queimaduras radioativas naquela época, mas foram os hibakushas.

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