O Fim de uma Era: A Crise da “Diplomacia dos Pandas” Deixa o Japão sem Ursos após 5 décadas

A Diplomacia dos Pandas - Um símbolo de amizade entre China e Japão (pakutaso)

Descubra a história por trás da diplomacia dos pandas no Japão, desde o primeiro presente em 1972 até a partida de Xiao Xiao e Lei Lei em janeiro de 2026.

Poucos animais despertam tanta comoção pública e, ao mesmo tempo, carregam tanto peso geopolítico quanto o panda-gigante. Símbolo nacional da China, o animal tornou-se, ao longo do século 20, uma ferramenta singular de política externa — estratégia que ficou conhecida como “diplomacia dos pandas”. No Japão, essa diplomacia deixou marcas profundas na cultura popular, no turismo e até nas relações diplomáticas com Pequim.

O nascimento da diplomacia dos pandas

A diplomacia dos pandas começou oficialmente na década de 1950, quando a recém-fundada República Popular da China passou a oferecer pandas como presentes diplomáticos a países considerados aliados. O gesto simbolizava amizade, confiança e boa vontade.

O ponto de virada ocorreu em 1972, após a normalização das relações diplomáticas entre Japão e China pelo primeiro ministro Kakuei Tanaka, encerrando décadas de distanciamento desde a Segunda Guerra Mundial. Como símbolo desse novo capítulo, Pequim enviou ao Japão um casal de pandas-gigantes, marcando o início de uma relação afetiva que atravessaria gerações.

Kang Kang e Lan Lan: os primeiros pandas do Japão

A história dos pandas no JapãoKang Kang e Lan Lan, Ueno Zoo. Imagem: © Jiji

Em outubro de 1972, os pandas Kang Kang (康康) e Lan Lan (蘭蘭) chegaram ao Zoológico de Ueno, em Tóquio. A recepção foi histórica. Milhões de pessoas visitaram o zoológico, filas quilométricas se formaram, e o país mergulhou em uma verdadeira “febre dos pandas”.

A chegada coincidiu com um período de reaproximação política e econômica entre Tóquio e Pequim, reforçando a imagem dos pandas como embaixadores vivos da diplomacia chinesa.

Apesar do entusiasmo popular, o casal nunca teve filhotes, e suas mortes nos anos seguintes geraram grande comoção nacional.

Da doação ao empréstimo: mudança nas regras

Após Kang Kang e Lan Lan, Fei Fei e Huan Huan chegaram no início dos anos 1980, gerando descendentes importantes no zoológico, como Tong Tong (1986) e You You (1988).

Até os anos 1980, pandas eram doados como presentes.

A partir da década de 1990, a China passou a adotar uma nova política: todos os pandas enviados ao exterior seriam emprestados, geralmente por contratos de 10 anos, com taxas anuais milionárias destinadas à conservação da espécie.

Ling Ling chegou a Tóquio em 1992 e foi o único panda gigante no Japão diretamente de propriedade do país. Ele faleceu em 30 de abril de 2008, aos 22 anos, sendo o panda mais velho do Japão na época.

Após a morte de Ling Ling, o zoológico de Ueno ficou sem pandas por três anos até a chegada de Ri Ri e Shin Shin em 2011.

Wakayama e o sucesso da reprodução

Rauhin, mãe dos muitos pandas do Wakayama Adventure World, e seus gêmeos em maio de 2015Rauhin e seus gêmeos em Wakayama Adventure World (maio de 2015). Imagem: © Jiji

Enquanto o Zoológico de Ueno enfrentava dificuldades na reprodução, o Adventure World, em Shirahama, Wakayama, tornou-se um caso de sucesso internacional.

Desde a chegada do panda Eimei e Ying Mei em 1994, o parque conseguiu múltiplos nascimentos bem-sucedidos, transformando Wakayama em um dos centros de criação de pandas mais importantes fora da China. Filhotes como Rauhin, Yuihin, Saihin e Fuhin atraíram milhões de visitantes e impulsionaram a economia local.

O panda Eimei gerou 16 filhotes no Japão antes de retornar à China em 2023. Cada retorno de pandas à China, no entanto, foi marcado por despedidas emocionadas, cartas de fãs, produtos comemorativos e ampla cobertura da mídia japonesa.

Depois de Eimei e Ying Mei, Tan Tan e Kou Kou chegam ao Zoológico de Oji (Kobe) em 2000 para alegrar a cidade após o terremoto de 1995.

O fenômeno Shan Shan e a nova geração

Em 2017, o nascimento da panda Shan Shan (香香) no Zoológico de Ueno marcou uma nova era. Filha de Shin Shin e Ri Ri, ela se tornou um fenômeno nacional, com sorteios para visitas, transmissões ao vivo e produtos licenciados esgotados.

Quando Shan Shan retornou à China em 2023, milhares de pessoas compareceram ao zoológico para se despedir. O episódio evidenciou como os pandas haviam deixado de ser apenas símbolos diplomáticos para se tornarem parte do afeto coletivo japonês.

Pandas, opinião pública e tensões diplomáticas

Panda Gigante em Oji zoo, Kobe, Japão (<a href=Panda Gigante Tantan em Oji zoo, Kobe, Japão (pelican by flickr)

Apesar da imagem amigável, a diplomacia dos pandas não está dissociada das tensões entre Japão e China. Disputas territoriais, como as envolvendo as ilhas Senkaku/Diaoyu, e questões históricas da guerra frequentemente afetam o clima político bilateral.

Em momentos de deterioração das relações, o envio ou a renovação de contratos de pandas costuma ser observado com atenção por analistas diplomáticos. Para muitos especialistas, os pandas funcionam como um “termômetro silencioso” do estado das relações sino-japonesas.

Ainda assim, mesmo em períodos de tensão, a popularidade dos pandas entre o público japonês raramente diminui — um contraste que revela a diferença entre diplomacia estatal e sentimento popular.

A relação do povo japonês com os pandas

Para os japoneses, o panda transcende a política. Eles são vistos como símbolos de paz, gentileza e cura emocional. Eles inspiram mascotes, campanhas publicitárias, produtos infantis e até estratégias de revitalização regional.

Mais do que atrações zoológicas, tornaram-se figuras quase familiares, acompanhadas desde o nascimento até a despedida. Esse vínculo emocional fortaleceu a percepção dos pandas como pontes culturais, mesmo quando a política se torna mais rígida.

Os pandas são ícones culturais que geram bilhões de ienes em turismo e merchandising. A obsessão nacional reflete-se em filas de até 4 horas apenas para ver um urso por dois minutos.

O afeto do povo é tão profundo que muitos continuam acompanhando os animais através de lives e notícias mesmo após o retorno deles à China.

Muito além da fofura

Panda Gigante no AdventureWorld, cidade de Shirahama, Wakayama, JapãoPanda Gigante no AdventureWorld. Imagem: Wikimedia Commons

A história da diplomacia dos pandas no Japão revela como um animal pode carregar significados que vão além da biologia ou do entretenimento.

Entre gestos diplomáticos, emoções populares e disputas geopolíticas, os pandas continuam desempenhando um papel único nas relações entre Japão e China — silenciosos, observados de perto, e sempre cercados de simbolismo.

A partida dos últimos ursos, os gêmeos Xiao Xiao e Lei Lei foi noticiada com destaque pela NHK News, enfatizando o luto nacional dos “panda-fans” japoneses.

A partida dos ursos marca não apenas a conclusão de um acordo técnico, mas o resfriamento profundo nas relações entre Tóquio e Pequim.

O Japão agora aguarda o resultado de novas negociações diplomáticas, mas, por ora, as gaiolas de Ueno permanecem vazias, simbolizando um período de silêncio entre as duas potências asiáticas.

Linha do tempo da “Diplomacia dos Pandas” no Japão:

Considerando as chegadas de casais fundadores, substituições e nascimentos (que tecnicamente pertencem à China sob o regime de empréstimo), o Japão recebeu ou abrigou um total de 32 pandas-gigantes desde 1972.

Deste total, 11 foram enviados diretamente da China como diplomatas ou em regime de aluguel para conservação, e 21 nasceram em solo japonês (17 em Wakayama, 3 em Tóquio e 1 em Kobe).

Aqui está a linha do tempo completa da “Diplomacia dos Pandas” no Japão:

Era dos Presentes (1972–1982)

1972: Kang Kang e Lan Lan chegam ao Zoológico de Ueno para celebrar a normalização das relações. Foram os primeiros a despertar a “pandamania”.
1980: Huan Huan chega para substituir Lan Lan (falecida em 1979).
1982: Fei Fei chega como companheiro para Huan Huan.

Era dos Nascimentos e Empréstimos (1985–2010)

1985: Nasce Chu Chu (Ueno), o primeiro panda nascido no Japão, mas morre após 43 horas.
1986: Nasce Tong Tong (Ueno), a primeira a sobreviver.
1988: Nasce Yu Yu (Ueno).
1992: Ling Ling chega a Ueno em uma troca com Pequim (foi o último panda “propriedade” do Japão).
1994: Chegam Ei Mei e Ying Mei ao Adventure World (Wakayama). Começa a linhagem de maior sucesso fora da China.
2000: Tan Tan e Kou Kou chegam ao Zoológico de Oji (Kobe) para alegrar a cidade após o terremoto de 1995.
2010: Falece Kou Kou, em Kobe aos 14 anos
2000–2020: O casal de Wakayama (Ei Mei e suas parceiras Rau Hin e Mei Mei) produz 16 filhotes, incluindo nomes famosos como Meihin, Rauhin e Touhin.

A Era Pop e as Tensões (2011–2026)

2011: Shin Shin e Ri Ri chegam a Ueno sob um contrato de aluguel de US$ 950 mil/ano.
2017: Nasce Xiang Xiang (Ueno), tornando-se uma celebridade global.
2021: Nascem os gêmeos Xiao Xiao e Lei Lei (Ueno).
2023: Xiang Xiang, Ei Mei e seus filhotes de Wakayama retornam à China.
2024: Falece Tan Tan em Kobe, aos 28 anos.
2025: Shin Shin e Ri Ri retornam à China devido a problemas de saúde relacionados à idade.
2026 (Janeiro): Xiao Xiao e Lei Lei são os últimos a partir, deixando os recintos de Ueno vazios.

Imagem do topo: Pakutaso

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Sou apaixonada pelo Japão e sua cultura. Resolvi criar esse blog com o intuito de fazer com que mais e mais pessoas conheçam essa cultura tão rica, incrível e fascinante!

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