Internação Siberiana: o drama dos 575 mil japoneses enviados a campos de trabalho na União Soviética

Siberiana - o drama dos japoneses enviados a campos de trabalho na União Soviética

Entenda a Internação Siberiana, quando milhares de japoneses foram enviados a campos de trabalho na União Soviética após a Segunda Guerra Mundial.

Ao final da Segunda Guerra Mundial, milhares de soldados japoneses acreditavam que finalmente voltariam para casa. Em 9 de agosto de 1945, a União Soviética violou o Pacto de Neutralidade Japão-União Soviética, que garantia a preservação e a não agressão de seu território, e invadiu a Manchúria.

Cerca de 575 mil militares e civis foram capturados pelo Exército Vermelho e enviados para campos de trabalho forçado na Sibéria e em outras regiões da então União Soviética.

O episódio ficou conhecido no Japão como Internação Siberiana (Shiberia Yokuryū/シベリア抑留), um dos capítulos mais dolorosos e menos discutidos do pós-guerra.

O contexto histórico

Em agosto de 1945, poucos dias antes da rendição oficial do Japão, a União Soviética declarou guerra ao país e lançou uma ofensiva contra as forças japonesas estacionadas na Manchúria, então sob controle do estado fantoche de Manchukuo.

A operação soviética foi rápida e devastadora. Centenas de milhares de soldados japoneses foram feitos prisioneiros. Muitos acreditavam que seriam repatriados rapidamente após o fim do conflito — mas isso não aconteceu.

Sob a liderança de Joseph Stalin, o governo soviético decidiu utilizar os prisioneiros japoneses como mão de obra para reconstrução do país, profundamente devastado pela guerra.

Para onde foram levados?

Os prisioneiros foram distribuídos por mais de 2.000 campos em diversas áreas da União Soviética, incluindo:

● Sibéria
● Extremo Oriente Russo
● Cazaquistão
● Uzbequistão

Enfrentando condições extremas, os prisioneiros foram utilizados como mão de obra escrava para reconstruir a infraestrutura soviética pós-guerra, trabalhando em minas de carvão, corte de madeira e construção de ferrovias e edifícios (como o Teatro Navoi em Tashkent).

Vida nos campos

Internação Siberiana - o drama dos japoneses enviados a campos de trabalho na União Soviética 1Soldados japoneses segurando uma bandeira branca de rendição

Os relatos de sobreviventes descrevem:

● Frio intenso, com temperaturas abaixo de −30 °C
● Trabalho pesado em minas, florestas e construção civil
● Alimentação insuficiente
● Doenças e falta de atendimento médico adequado

Estima-se que entre 55.000 e 60.000 prisioneiros morreram devido ao frio extremo (chegando a -40°C), subnutrição, exaustão e doenças como o tifo.

Apesar disso, testemunhos também relatam momentos de solidariedade entre prisioneiros e até gestos de humanidade por parte de alguns civis soviéticos.

Quanto tempo durou a internação?

Soldados que retornam do internamento desembarcam no porto de Maizuru (1946)Soldados que retornam do internamento desembarcam no porto de Maizuru (1946)

Diferente de prisioneiros nos EUA ou Reino Unido, os detidos pela URSS demoraram anos para voltar. A maioria retornou entre 1947 e 1950, mas alguns grupos só foram libertados após a morte de Stalin, em 1956.

O processo foi lento e politicamente sensível, ocorrendo em meio às tensões iniciais da Guerra Fria.

Impacto psicológico e social

Ao retornarem ao Japão, muitos ex-prisioneiros encontraram um país profundamente transformado.

Além do trauma físico e psicológico, enfrentaram:

● Dificuldade de reintegração
● Problemas de saúde crônicos
● Estigma social

Durante o cativeiro, muitos foram submetidos a intensos programas de propaganda comunista. Ao retornarem ao Japão, foram inicialmente vistos com desconfiança pelo governo e pela sociedade, temendo-se que fossem “agentes vermelhos”.

Durante décadas, o tema permaneceu relativamente marginal no debate público japonês.

Depoimento de um ex-prisioneiro

Taura Yoshihiro de 98 anos conta como foi sua vida como prisioneiro na Sibéria

Taura Yoshihiro (田浦良弘) tem 98 anos e é natural da cidade de Wajima. Atualmente, vive em um lar de idosos na cidade de Hakusan.

Há 84 anos, em 1941, aos 14 anos, Taura se alistou como voluntário no Corpo de Voluntários da Juventude da Manchúria-Mongólia, cuja missão era desenvolver e proteger a Manchúria, e atravessou o oceano.

Em 9 de agosto, pouco antes do fim da guerra, quando a União Soviética invadiu a Manchúria, Taura foi forçado a embarcar em um trem de carga sob a mira de armas por tropas soviéticas.

Disseram-nos para irmos a Tóquio, então entramos no trem. Estávamos tão apertados que mal conseguíamos esticar as pernas e dormir.”

O trem de carga que transportava Taura chegou a um centro de detenção chamado Taishet, no leste da Sibéria.

Na gélida Sibéria, onde dizem que as temperaturas chegam a cair abaixo de -40 graus, Taura foi forçado a realizar trabalhos pesados, como construir estradas, sem receber comida suficiente.

O tipo de estrada que construíram eram passarelas de madeira. Estradas de madeira. Passei todo o meu tempo cortando árvores e as deitando no chão.”

Ele recorda que, após o banho, que só lhe era permitido duas vezes por mês, o médico do acampamento puxava a pele de sua barriga e determinava seu estado de saúde.

Se você não estava saudável, trabalhava menos mas também recebia menos alimento, um pão preto com cerca de 1 cm de espessura e sopa. A comida era escassa e o frio brutal.

Taura disse que foi perdendo gradualmente a capacidade de se mover.

Em dezembro de 1946, um acordo foi assinado entre a União Soviética e os Estados Unidos, referente à repatriação dos internados, e o retorno dos detidos teve início.

Taura também foi notificado para “se preparar, pois retornará ao Japão” e dirigiu-se ao porto de Nakhodka, que servia de base para os internados que retornavam para casa.

Era setembro de 1948, três anos após o internamento de Taura. Ele ainda se lembra vividamente do momento em que viu o navio de boas-vindas hasteando a bandeira japonesa.

Não consegui conter as lágrimas. Naquele momento, eu soube que finalmente poderia voltar para casa“, disse ele.

Em sua cidade natal, Wajima, Taura reencontrou sua família pela primeira vez em sete anos. Taura continuou a compartilhar suas memórias por meio de palestras e outros eventos.

O Japão tem desfrutado de paz nos últimos 80 anos, mas, observando o mundo de hoje, Taura se pergunta em que tipo de mundo viveremos daqui para frente.

Queremos garantir que a guerra nunca mais aconteça. Queremos fazer tudo o que pudermos por meio de nossas atividades.“, disse Taura.

É fácil começar uma guerra, mas é extremamente difícil terminá-la. Às vezes penso que, daqui a 10 anos, não conseguiremos falar sobre essas coisas. Então, acho que agora é nossa última chance de realmente fazer com que todos entendam.

Reconhecimento e memória

Com o passar do tempo, associações de ex-prisioneiros pressionaram o governo japonês por reconhecimento oficial e compensações.

Memoriais foram construídos em diversas regiões do Japão para homenagear os mortos na Sibéria. O episódio também passou a integrar livros de história e documentários.

O Maizuru Repatriation Memorial Museum, inaugurado no ano de 1988 em Kyoto, é dedicado aos que retornaram e preserva documentos incluídos no Registro da Memória do Mundo da UNESCO.

O governo japonês também realiza missões anuais para identificar restos mortais dos ex-prisioneiros e manter cemitérios em solo russo e uzbeque.

A questão das Ilhas Curilas (Territórios do Norte), disputadas entre Japão e Rússia, mantém viva parte da tensão histórica entre os dois países.

Filme Da Sibéria com Amor

O filme japonês “Rāgeri yori ai o komete” ((ラーゲリより愛を込めて) ou Fragments of the Last Will, também traduzido como Da Sibéria com Amor), dirigido por Zeze Takahisa, retrata as dificuldades e o heroísmo de um desses internos, Yamamoto Hatao, e de sua esposa e filhos que aguardavam fielmente seu retorno.

Descrito como uma “verdadeira história de amor”, o filme destaca como Yamamoto se apegou à sua humanidade e inspirou seus companheiros com sua decência e esperança inabalável de repatriação.

Relações diplomáticas e legado

As negociações diplomáticas entre Japão e União Soviética foram formalmente retomadas em 1956, mas um tratado de paz definitivo nunca foi assinado devido à disputa territorial.

Hoje, a Internação Siberiana é vista como um símbolo do sofrimento humano no pós-guerra e da complexidade geopolítica do período.

Conclusão

A Internação Siberiana representa uma das experiências mais traumáticas enfrentadas por soldados japoneses no século XX. Entre o frio extremo, o trabalho forçado e a longa espera pelo retorno, milhares de vidas foram marcadas para sempre.

Relembrar esse episódio é fundamental não apenas para preservar a memória histórica, mas também para compreender as consequências humanas dos conflitos globais.

Imagem do topo: Prisioneiros japoneses aguardando para retornar para casa em um campo em Nakhodka. Foto cedida pelo Museu da História do Gulag em Moscou.

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Sou apaixonada pelo Japão e sua cultura. Resolvi criar esse blog com o intuito de fazer com que mais e mais pessoas conheçam essa cultura tão rica, incrível e fascinante!

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