Takasago: os indígenas taiwaneses que lutaram pelo Japão na Segunda Guerra Mundial

Conheça a história dos voluntários Takasago, indígenas taiwaneses recrutados pelo Exército Imperial Japonês durante a Segunda Guerra Mundial.
Durante a expansão militar do Japão na Ásia e no Pacífico, um grupo pouco conhecido foi incorporado às forças imperiais: os chamados Voluntários Takasago (高砂義勇隊), nome utilizado pelos japoneses para se referir aos povos indígenas de Taiwan recrutados para atuar como soldados e auxiliares militares durante a Segunda Guerra Mundial.
Frequentemente retratados como ferozes guerreiros das montanhas, a história desses homens revela uma camada complexa do imperialismo japonês e levanta debates que ecoam até hoje em Taiwan.
Quem eram os Takasago?
O termo “Takasago” era usado pelo Império Japonês para designar os povos indígenas de Taiwan — especialmente grupos como os Atayal, Bunun, Paiwan e Amis — após a ilha se tornar colônia japonesa em 1895, depois da Primeira Guerra Sino-Japonesa.
“Takasago” significa “bela paisagem” em japonês, e o termo era usado em textos japoneses antigos para se referir a Taiwan. Em 1923, o então Príncipe Herdeiro Hirohito (mais tarde Imperador do Japão) visitou Taiwan para uma inspeção.
Como as áreas habitadas pelos povos indígenas taiwaneses possuíam belas paisagens, ele se referiu a eles como “Takasago”. Em 1936, o Gabinete do Governador-Geral de Taiwan anunciou a mudança do termo para os povos indígenas taiwaneses de “selvagens” para “povo Takasago”.
O objetivo era fortalecer a assimilação e agradar ao Imperador japonês. Mais tarde, os militares japoneses recrutaram um grande número de jovens “Takasago” para o exército, chamando-os de “Voluntários Takasago”.
Durante a ocupação em Taiwan, o Japão aplicou uma política rígida de controle, visando explorar recursos (madeira, cânfora) nas áreas indígenas.
Taiwan permaneceu sob domínio japonês até 1945. Ao longo dessas cinco décadas, o governo colonial promoveu políticas de assimilação cultural e militarização gradual da população local.
O Movimento Kominka (1930-1945)
O Movimento Kominka buscou a aculturação forçada, forçando a assimilação cultural e linguística. O movimento visava transformar os indígenas taiwaneses em “súditos imperiais” leais ao Japão antes e durante a Segunda Guerra Mundial.
Significado: Movimento Kominka (皇民化運動 significa “transformar em súdito imperial”. Foi uma política de assimilação acelerada.
Ações: O movimento proibiu línguas nativas, impôs o uso da língua japonesa, forçou a troca de nomes por nomes japoneses e incentivou o culto ao Imperador.
Impacto: Muitos indígenas foram forçados a abandonar práticas culturais tradicionais para se integrarem na sociedade colonial como súditos de segunda classe, servindo ao império japonês durante a guerra.
“O Sino de Sayon” (1943)
“O Sino de Sayon” (Sayon no Kane), lançado em 1943 e dirigido por Hiroshi Shimizu, é um filme de propaganda japonesa ambientado em Taiwan sob domínio colonial.
O filme foi destinado aos indígenas de Taiwan, que frequentemente se alistavam no Exército Imperial Japonês após assistirem à exibição.
A trama era simples, porém eficaz, sobre patriotismo e sacrifício, com a personagem de Li, Sayon, uma jovem indígena Atayal, morrendo heroicamente em uma enchente repentina enquanto se despedia de seu professor japonês, que partia para a guerra.
O recrutamento para a guerra
Com o avanço da Segunda Guerra Mundial, especialmente após 1942, os Takasago foram intensamente recrutados para o Exército Imperial Japonês, servindo em unidades especiais (unidades de “Takasago Giyutai”) em áreas do Pacífico.
Eles eram considerados aptos para:
● Operações em selvas tropicais
● Missões de reconhecimento
● Guerrilha e rastreamento
● Sobrevivência em ambientes hostis
Em 1942, foram oficialmente criadas unidades conhecidas como Voluntários Takasago, integradas ao Exército Imperial Japonês. Acredita-se que mais de 10.000 indígenas taiwaneses participaram das operações japonesas durante a Guerra do Pacífico.
Muitos atuaram em frentes como Filipinas, Indonésia e Nova Guiné.
Habilidade na selva e propaganda imperial
Os Takasago ganharam reputação por sua habilidade em terrenos difíceis. A propaganda japonesa explorava essa imagem, retratando-os como guerreiros naturais leais ao imperador.
No entanto, essa narrativa mascarava uma realidade mais complexa: muitos indígenas se alistaram por pressão social, necessidade econômica ou expectativa de reconhecimento dentro do sistema colonial.
O Takasago que ficou 30 anos escondido na selva
Teruo Nakamura, o último soldado imperial japonês a se render
Nascido em Taiwan como Attun Palalin, Teruo Nakamura (1919–1979) pertencia à etnia indígena Amis. Devido às políticas de colonização da época, adotou o nome Teruo Nakamura ao se alistar nas Unidades de Voluntários de Takasago em 1943.
Ele foi enviado para a Ilha de Morotai, na atual Indonésia, em 1944. Após a ilha ser tomada pelos Aliados, Nakamura fugiu para o interior e viveu isolado na selva por cerca de 30 anos, sem saber que a guerra havia terminado.
Foi localizado por uma patrulha da Força Aérea Indonésia e se rendeu em 18 de dezembro de 1974, tornando-se o último soldado do Exército Imperial Japonês a se render.
Porém, diferente de Hiroo Onoda, que se rendeu meses antes e foi recebido com grande honraria, Nakamura teve uma recepção mais complexa devido à sua origem taiwanesa e ao fato de Taiwan não ser mais território japonês na época.
Ele retornou a Taiwan em 1975, onde recebeu o nome chinês Lee Kuang-hui. Ele faleceu de câncer de pulmão, cinco anos depois, em 1979.
Abandono após a guerra
Com a derrota do Japão em 1945, Taiwan passou ao controle da República da China. Os ex-soldados Takasago enfrentaram um dilema:
● Não foram plenamente reconhecidos como veteranos pelo Japão
● Tampouco receberam valorização imediata do novo governo chinês
Durante décadas, muitos lutaram por compensações e reconhecimento oficial. Algumas ações judiciais contra o governo japonês foram movidas no fim do século XX, pedindo indenizações semelhantes às concedidas a veteranos japoneses.
Identidade e memória histórica
Hoje, a história dos Takasago é tema de pesquisa acadêmica e documentários em Taiwan e no Japão. Ela revela:
● As ambiguidades do colonialismo japonês
● O papel das minorias étnicas nos conflitos imperiais
● A complexidade da identidade taiwanesa contemporânea
Para muitos descendentes, o passado militar de seus antepassados é lembrado com mistura de orgulho, dor e questionamento.
Um capítulo pouco conhecido da guerra no Pacífico
A participação dos Takasago amplia a compreensão da Segunda Guerra Mundial na Ásia. Mostra que o conflito não envolveu apenas nações, mas também povos colonizados cujas lealdades foram moldadas por circunstâncias históricas complexas.
Entre a lealdade imposta, o pragmatismo e o desejo de sobrevivência, esses indígenas taiwaneses deixaram uma marca silenciosa na história militar japonesa.
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