Nattō: a soja fermentada que teve origem acidental e que divide opiniões

Nattō (納豆), um alimento japonês fermentado à base de soja. Conheça sua história, benefícios para a saúde, curiosidades e por que divide opiniões.
Viscoso, aromático e cheio de personalidade, o nattō (納豆) é um dos alimentos mais tradicionais — e controversos — do Japão.
Feito a partir da fermentação da soja, ele é presença constante no café da manhã japonês e carrega séculos de história, além de benefícios nutricionais impressionantes.
Para muitos estrangeiros, é um desafio. Para a maioria dos japoneses, é sinônimo de saúde, longevidade e tradição.
Aqui estão as curiosidades mais fascinantes sobre esses grãos de soja fermentados:
1. A Lenda da Origem Acidental
A origem do nattō remonta a mais de mil anos, durante o período Heian (794–1185). Diz a lenda que o nattō foi descoberto por acaso pelo samurai Minamoto no Yoshiie por volta do ano 1083. Durante uma batalha, soldados teriam sido atacados enquanto cozinhavam soja.
Eles guardaram a soja quente em palha de arroz e, dias depois, ao abrirem os fardos, a soja havia fermentado e criado os fios pegajosos. O calor e a umidade provocaram a fermentação natural, dando origem ao prato. Eles provaram, gostaram e o nattō nasceu.
Com o tempo, a técnica foi aperfeiçoada, mas o método tradicional — envolvendo palha de arroz — ainda é preservado em algumas regiões.
2. O Segredo está na Palha
Imagem: Depositphotos
O responsável pela fermentação é a bactéria Bacillus subtilis natto. Antigamente, ela vivia naturalmente na palha de arroz (wara), por isso o nattō tradicional era vendido em feixes de palha. Hoje, a bactéria é cultivada em laboratório e aplicada industrialmente, mas você ainda encontra o Wara-nattō como item de luxo.
3. Superpoderes para a Saúde (Vitamina K2)
O nattō é a maior fonte alimentar do mundo de Vitamina K2 (especificamente MK-7) importante para a fixação de cálcio nos ossos e prevenção da osteoporose.
Além disso, contém a enzima Nattokinase, associada à saúde cardiovascular e famosa por ajudar a prevenir coágulos sanguíneos e melhorar a circulação.
Considerado um superalimento no Japão, o nattō também é rico em proteínas vegetais, fibras, ferro, cálcio e probióticos naturais que ajudam na saúde intestinal.
O consumo regular é frequentemente associado à longevidade — especialmente em regiões do Japão onde a ingestão é tradicionalmente alta.
O consumo regular é frequentemente associado à longevidade — especialmente em regiões do Japão onde a ingestão é tradicionalmente alta.
4. A Ciência dos “Fios Pegajosos”
Imagem: Depositphotos
A textura pegajosa é resultado da fermentação e é considerada sinal de qualidade.
Quanto mais você bate o nattō, mais ele cria fios brancos e pegajosos (chamados de neba-neba). Existe até uma “regra de ouro” entre os puristas: deve-se bater o nattō exatamente 424 vezes para obter o máximo de sabor e textura, segundo o artista gastronômico Rosanjin.
5. Dia do Nattō
O Japão leva o alimento tão a sério que existe o Dia do Nattō, celebrado em 10 de julho (7/10). Isso ocorre devido a um trocadilho fonética com números (goroawase): 7 em japonês é “Na” e 10 é “To”.
6. Mito sobre o Cheiro
Muitos estrangeiros comparam o cheiro ao de queijo, chulé ou meias sujas. Curiosamente, muitas empresas japonesas produzem versões “Nio-wanai” (sem cheiro) para atrair jovens e turistas que querem os benefícios de saúde sem o odor característico.
Dica de Preparo: A forma clássica de comer é misturá-lo com mostarda japonesa (karashi), molho à base de soja (tare) e cebolinha fresca, servido sobre uma tigela de arroz quente.
7. Características principais do Natto
Imagem: photo-ac
O nattō é produzido a partir da fermentação da soja cozida com a bactéria Bacillus subtilis var. natto. O resultado é um alimento de textura pegajosa, fios viscosos e aroma marcante.
● Cor: marrom-claro
● Textura: viscosa e filamentosa
● Sabor: forte, levemente amargo e umami
● Aroma: intenso e fermentado
Ele é normalmente vendido em pequenas porções individuais nos supermercados japoneses.
8. Ibaraki é a “capital do nattō”
A província de Ibaraki é a maior produtora de nattō do Japão. A fama começou no período Meiji (1868-1912). Um empresário local, Sasuma Gihei, percebeu que a soja cultivada em Ibaraki era pequena e perfeita para a fermentação.
Ele começou a vender o nattō na Estação de Mito como um “souvenir” para os passageiros dos novos trens. O produto virou um sucesso absoluto entre os viajantes, espalhando a fama de Mito por todo o arquipélago.
Ao chegar na Estação de Mito (Saída Sul), você é recebido por um monumento gigante em formato de palha de nattō. Lá você também encontrará o Museu do Nattō onde você pode aprender sobre a história e até ver o processo de fabricação.
Ibaraki também é o lugar onde você ainda encontra com facilidade o Wara-nattō (soja fermentada dentro de feixes de palha de arroz). Essa técnica tradicional preserva o aroma e a textura originais, sendo considerada a versão “premium” do alimento atualmente.
9. Popularidade regional
O nattō é significativamente mais consumido no leste do Japão, especialmente nas regiões de Kanto (onde fica Tóquio) e Tohoku. No oeste do país, como em Kansai (Osaka e Quioto), o consumo é historicamente muito menor e a rejeição ao odor e à textura do alimento é mais comum.
10. Como o Nattō é consumido no Japão?
Imagem: photo-ac
O nattō é mais comum no café da manhã japonês tradicional, servido com:
● Arroz branco quente
● Molho de soja (tare)
● Mostarda japonesa (karashi)
● Cebolinha picada
● Ovo cru (em algumas versões)
A mistura é mexida vigorosamente antes de ser colocada sobre o arroz — quanto mais se mistura, mais fios viscosos se formam.
Também pode ser usado em:
● Sushi de nattō
● Udon e soba
● Torradas
● Omeletes
● Molhos e saladas
11. Nattō e cultura japonesa
Sushi Natto Inari. Imagem: photo-ac
Mais do que alimento, o nattō representa:
● Simplicidade da culinária tradicional
● Respeito aos alimentos fermentados
● Cultura do café da manhã japonês
● Valorização da saúde preventiva
Ele também aparece em programas de TV, desafios culinários e conteúdos gastronômicos voltados para turistas curiosos.
O Nattō é seguro?
Sim. Ele passa por rigoroso controle sanitário no Japão. A fermentação é controlada e segura. Pessoas com restrições médicas específicas devem consultar profissionais de saúde antes de consumir regularmente, especialmente devido à alta concentração de vitamina K2.
Por que o Nattō divide opiniões?
Seu aroma forte é comparado por alguns ao de queijo envelhecido, chulé ou meias sujas. Muitos estrangeiros descrevem como “amor ou ódio”.
A combinação de cheiro intenso, textura viscosa e aparência incomum faz com que muitos estrangeiros estranhem à primeira vista. No entanto, para os japoneses, o sabor é reconfortante e associado à infância e à rotina familiar.
Muitos dizem que o gosto é adquirido com o tempo.
Conclusão
O nattō é um dos alimentos mais autênticos do Japão. Pode não conquistar todos os paladares de imediato, mas sua história, valor nutricional e importância cultural o tornam um verdadeiro ícone da gastronomia japonesa.
Se você visitar o Japão e quiser experimentar algo realmente tradicional, talvez seja hora de encarar o desafio — mexer bem, respirar fundo e provar o lendário nattō (納豆).
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