Nihon Shoki: a crônica que moldou a narrativa oficial do Japão antigo

Conheça o Nihon Shoki, a crônica japonesa de 720 que mistura mitologia e história e consolidou a narrativa oficial do Japão imperial.
No início do século VIII, a corte imperial japonesa deu um passo decisivo para consolidar sua autoridade política e espiritual: a compilação de uma história oficial do país. O resultado foi o Nihon Shoki, também conhecido como Nihongi, concluído no ano 720.
Considerado uma das obras mais importantes da historiografia japonesa, o texto combina mitologia, genealogia imperial e registros históricos, tornando-se peça-chave para compreender como o Japão construiu sua identidade nacional.
Uma obra de Estado

Também conhecido como Crônicas do Japão, Nihon Shoki (日本書紀) é o segundo livro mais antigo da história japonesa e uma das fontes fundamentais para a mitologia e a genealogia imperial do país.
O Nihon Shoki foi compilado sob encomenda da corte imperial durante o período Nara. A coordenação do projeto é atribuída ao príncipe e estadista Príncipe Toneri, filho do imperador Tenmu, com a ajuda de historiadores da corte, por ordem da Imperatriz Gensho.
O objetivo era claro: legitimar a linhagem imperial e apresentar o Japão como uma nação organizada, com raízes divinas e continuidade histórica.
Escrito em chinês clássico — língua diplomática da época — o texto também tinha função estratégica nas relações com a China e a Península Coreana.
Conteúdo e Estrutura
O livro é dividido em 30 volumes que cobrem desde o “Período dos Deuses” até o reinado da Imperatriz Jito (697 d.C.):
Gênese Mitológica: Narra a criação do mundo por Izanagi e Izanami e a descendência da deusa do sol, Amaterasu.
Linhagem Imperial: Estabelece a sucessão ininterrupta dos imperadores, começando pelo lendário Imperador Jimmu (660 a.C.).
Registros Históricos: A partir do século VI, os relatos tornam-se muito mais precisos e baseados em documentos reais, descrevendo a introdução do budismo e reformas políticas Britannica – Nihon Shoki.
Importância Política e Religiosa
Legitimação: O texto serviu para consolidar o poder da família imperial, provando que seu direito de governar era divino.
Base do Xintoísmo: É um dos textos sagrados centrais do Xintoísmo, detalhando rituais e a hierarquia dos Kami (divindades).
Mitologia e história entrelaçadas

O Nihon Shoki começa com a criação do mundo segundo a tradição xintoísta. Divindades como Izanagi e Izanami aparecem na narrativa que descreve a formação do arquipélago japonês.
O texto também reforça a origem divina da família imperial ao afirmar que seus descendentes vêm da deusa do sol Amaterasu.
A partir desses relatos míticos, a obra avança para eventos históricos, incluindo:
● Formação do Estado Yamato
● Relações diplomáticas com a China e a Coreia
● Conflitos internos e sucessões imperiais
● Historiadores apontam que, embora contenha dados históricos valiosos, o conteúdo inicial mistura mito e política.
Diferença em relação ao Kojiki
O Nihon Shoki é frequentemente comparado ao Kojiki, compilado oito anos antes, em 712.
Enquanto o Kojiki foi escrito em japonês arcaico com forte foco mitológico e religioso, o Nihon Shoki apresenta estrutura mais formal e cronológica, inspirada nos modelos historiográficos chineses.
Ou seja, o Kojiki é focado em mitos, canções e tradições orais, enquanto Nihon Shoki é muito mais detalhado, seguindo um modelo de crônica histórica chinesa e foi criado para apresentar a história do Japão de forma legítima para as nações estrangeiras.
Essa diferença revela duas intenções complementares: preservar tradições internas e, ao mesmo tempo, apresentar uma narrativa sofisticada ao mundo exterior.
Importância política
Ao estabelecer uma linhagem imperial contínua desde tempos divinos, o Nihon Shoki consolidou a autoridade do trono em um período de centralização do poder.
A obra ajudou a estruturar o sistema ritsuryō — conjunto de códigos legais inspirados na China — fortalecendo o Estado japonês nascente.
Durante séculos, o texto foi referência oficial para a história nacional.
Debate acadêmico
Pesquisadores modernos analisam o Nihon Shoki com olhar crítico. Muitos dos eventos mais antigos são vistos como construções simbólicas destinadas a reforçar legitimidade política.
Ainda assim, a partir do século V, o texto se torna fonte histórica mais consistente, especialmente em registros diplomáticos e cronologias.
Arqueologia e estudos comparativos com fontes chinesas e coreanas ajudam a separar mito e fato.
Legado cultural
Manuscritos antigos e tesouros relacionados ao Nihon Shoki são frequentemente exibidos no Museu Nacional de Nara e no Museu Nacional de Tóquio.
Pesquisadores continuam utilizando o texto para arqueologia forense, tentando localizar tumbas imperiais (Kofun) mencionadas nas crônicas.
Mesmo após mais de 1.300 anos, o Nihon Shoki continua influente:
● Base para estudos de xintoísmo
● Referência em pesquisas históricas
● Fonte para literatura e cultura popular
Ele moldou a percepção da origem divina do imperador, conceito que permaneceu central até o século XX.
Conclusão
O Nihon Shoki não é apenas um livro antigo — é um documento político, religioso e cultural que ajudou a definir a identidade do Japão.
Ao unir mito e história, a obra construiu uma narrativa que sustentou o poder imperial por séculos. Hoje, permanece como fonte indispensável para compreender as raízes do Estado japonês e a formação de sua memória histórica.
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