O Assassinato da Família Setagaya: um dos crimes mais misteriosos do Japão

O assassinato da família Setagawa marca 25 anos sem solução

O assassinato da família Setagaya é um dos crimes mais chocantes e misteriosos do Japão. Entenda o caso, as pistas, teorias e por que ele nunca foi resolvido.

Na madrugada de 30 de dezembro de 2000, um dos crimes mais chocantes da história recente do Japão abalou profundamente a sociedade japonesa.

Em um país conhecido por seus baixos índices de criminalidade, o assassinato da família Setagaya tornou-se um símbolo perturbador de violência inexplicável — e, mais de duas décadas depois, segue sem solução.

O episódio que completa 25 anos sem solução ficou conhecido como Setagaya ikka satsugai jiken (世田谷一家殺害事件) intriga investigadores, jornalistas e a população até hoje.

A noite que mudou Setagaya para sempre

O assassinato da família Setagawa marca 25 anos sem soluçãoImagem: Youtube Reprodução

As vítimas eram Mikio Miyazawa (44), Yasuko Miyazawa (41) e seus dois filhos pequenos: Niina (8) e Rei (6). A família vivia em uma casa de dois andares próxima ao Parque Soshigaya, em uma área tranquila e familiar.

Na manhã seguinte ao crime, a mãe de Yasuko, preocupada por não conseguir contato, foi até a residência e encontrou uma cena chocante: todos haviam sido assassinados.

O crime ocorreu enquanto a família dormia, usando facas e objetos contundentes. A violência foi extrema, especialmente contra as crianças, o que chocou investigadores e a opinião pública.

Um crime brutal e incomum

O assassinato da família Setagawa marca 25 anos sem soluçãoImagens: yomiuri.co.jp / tokyo-np.co.jp

A investigação revelou detalhes perturbadores:

● As vítimas foram mortas com facas diferentes, sugerindo improviso ou múltiplas armas.
● O assassino entrou pela janela do segundo andar.
● Não havia sinais claros de roubo.
● O ataque começou com o pai, Mikio, e depois se voltou contra o restante da família.
● As crianças foram mortas por último, o que causou comoção nacional.

O mais desconcertante: o criminoso permaneceu na casa por horas após os assassinatos.

O assassino que não tinha pressa

Um dos aspectos mais perturbadores do caso é que o assassino não fugiu imediatamente. Evidências indicam que ele permaneceu na casa por várias horas após o crime:

● Usou o banheiro da casa
● Comeu sorvetes da geladeira
● Navegou no computador da família
● Deixou roupas, uma faca e lixo para trás
● Deixou sangue, impressões digitais e DNA no local

Esse comportamento levou investigadores a acreditar que o criminoso não agiu por impulso, mas também não demonstrou medo de ser capturado imediatamente. Apesar disso, nenhuma correspondência foi encontrada em bancos de dados japoneses ou internacionais.

Pistas abundantes, respostas inexistentes

O assassinato da família Setagawa marca 25 anos sem soluçãoImagem: sankei.com

Ao longo dos anos, a polícia japonesa reuniu milhares de evidências:

● Mais de 1.000 itens físicos analisados
● DNA parcial indicando um homem jovem
● Vestígios sugerindo possível origem estrangeira (roupas e itens não comuns no Japão)
● Pegadas e impressões digitais incompletas

Cerca de 290.000 investigadores foram mobilizados ao longo desses anos para realizar entrevistas e outras investigações, e cerca de 60 milhões de impressões digitais foram comparadas.

Análises genéticas indicaram que o suspeito tinha 1.70 de altura, possuía origem mista, com possíveis traços europeus e asiáticos, algo relativamente raro no Japão na época.

Apesar disso, nenhuma correspondência definitiva foi encontrada em bancos de dados nacionais ou internacionais.

Teorias que cercam o caso

Ao longo dos anos, diversas teorias surgiram:

🔍 Crime aleatório

Alguns acreditam que o assassino entrou na casa sem alvo específico, aproveitando-se da vulnerabilidade da residência.

🔍 Ato impulsivo

Alguns sugerem que o crime pode ter sido feito por alguém com distúrbios psicológicos

🔍 Vingança pessoal

Outra linha sugere que Mikio Miyazawa poderia ter sido o alvo principal, talvez por conflitos profissionais ou pessoais.

🔍 Envolvimento estrangeiro

Devido às evidências genéticas e à origem de alguns objetos deixados, especulou-se a possibilidade de um criminoso estrangeiro ou alguém com vivência fora do Japão.

Nenhuma dessas hipóteses, porém, foi comprovada.

O impacto cultural e psicológico no Japão

O caso Setagaya quebrou uma percepção profundamente enraizada: a de que o lar japonês é um espaço absolutamente seguro. O crime:

● Gerou medo coletivo
● Influenciou mudanças em sistemas de segurança residencial
● Abalou a imagem do Japão como um dos países mais seguros do mundo
● Gerou debates sobre falhas investigativas e cooperação internacional
● Tornou-se objeto de livros, documentários e estudos criminológicos
● Continua sendo reaberto simbolicamente a cada ano pela polícia

Mais do que um crime não resolvido, o caso se transformou em uma ferida aberta na memória coletiva do país.

Um caso que nunca foi encerrado

Todos os anos, no fim de dezembro, o Departamento de Polícia Metropolitana de Tóquio renova o apelo por informações, distribui panfletos e relembra o caso na mídia. O crime não prescreveu e segue oficialmente em aberto.

Uma recompensa de até 20 milhões de ienes será oferecida por qualquer informação que leve à solução do caso. As informações devem ser encaminhadas à Sede de Investigações Especiais do Departamento de Polícia de Seijo (03-3482-3829).

A casa da família Miyazawa em Setagaya foi demolida, mas o local ainda carrega um peso simbólico. Para muitos japoneses, o caso representa uma ruptura da sensação de segurança doméstica, algo profundamente valorizado na sociedade japonesa.

Todos os anos, no dia 30 de dezembro, a família das vítimas, amigos e pessoas envolvidas na investigação visitam os túmulos da família na cidade de Niiza, província de Saitama.

Diário de 25 anos escrito por Setsuko Miyazawa

O assassinato da família Setagawa marca 25 anos sem solução Setsuko Miyazawa segura uma foto de seus netos, Nina e Rei, guardada em seu diário Imagem: yomiuri.co.jp

A mãe de Mikio, Setsuko (94), escreve em um pequeno diário todos os dias, aguardando o dia em que poderá escrever: “O culpado foi preso”.

A rotina noturna de Setsuko consiste em abrir seu caderno na cozinha de sua casa, onde mora sozinha, e escrever em letras pequenas com uma caneta esferográfica.

Seu marido, Yoshiyuki, que vinha buscando informações junto com ela, faleceu em 2012 aos 84 anos, e desde então ela vive sozinha. A partir de 2021, ela começou a frequentar um centro de convivência.

Sempre que vejo uma família passeando, um pensamento me vem à mente: “Se Niina e Rei ainda estivessem vivos, talvez tivessem formado suas próprias famílias…” Isso me incomoda, e não consigo evitar desviar o olhar.

Todas as noites, depois de terminar de escrever em seu diário, ela dá “boa noite” aos retratos de sua família antes de ir para a cama. “Quem é o culpado?“, ela quer perguntar, mas desde o incidente, seu filho, nora e dois netos nunca mais apareceram em seus sonhos.

Tenho certeza de que os quatro são os que mais querem saber a resposta. Até o dia em que eu puder lhes dar a resposta, continuarei trabalhando duro todos os dias, sem desistir.

Um mistério que resiste ao tempo

Passados mais de 25 anos, o assassinato da família Setagaya permanece como um dos maiores enigmas criminais do Japão.

É um lembrete inquietante de que, mesmo em sociedades altamente organizadas, o mal pode agir de forma silenciosa, inexplicável e permanecer impune.

Um crime cercado de provas, mas vazio de respostas. Para muitos japoneses, não se trata apenas de um caso não resolvido — mas de uma ferida aberta na memória coletiva do país.

Enquanto não houver justiça, o mistério do assassinato da família de Setagaya continuará ecoando perguntas sem resposta.

Fontes: sankei.com, yomiuri.co.jp, tokyo-np.co.jp

Author photo
Publication date:
Sou apaixonada pelo Japão e sua cultura. Resolvi criar esse blog com o intuito de fazer com que mais e mais pessoas conheçam essa cultura tão rica, incrível e fascinante!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *