Megumi Yokota: o sequestro que abalou o Japão e expôs um drama internacional

Megumi Yokota: a história da adolescente japonesa sequestrada pela Coreia do Norte em 1977 e o impacto do caso nas relações diplomáticas.
Em 15 de novembro de 1977, uma estudante de 13 anos desapareceu ao voltar da escola na cidade costeira de Niigata. O nome dela era Megumi Yokota.
Décadas depois, sua história se tornaria símbolo de um dos capítulos mais sensíveis e dolorosos das relações entre Japão e Coreia do Norte.
O caso de Megumi não é apenas o relato de um desaparecimento: é um drama humano que mobilizou famílias, governos e órgãos internacionais.
O desaparecimento
No dia 15 de novembro de 1977, Megumi Yokota, que tinha 13 anos, sumiu ao caminhar para casa após um treino de badminton em sua escola, em Niigata. Não havia sinais de luta nem pistas concretas. Durante anos, a família viveu entre esperança e incerteza.
Somente décadas depois surgiria a revelação que chocaria o país: Megumi teria sido sequestrada por agentes norte-coreanos a poucos metros da costa, jogada em um barco e trancada em um porão escuro, onde, segundo relatos, gritou e arranhou as paredes até suas unhas sangrarem durante a viagem.
A revelação oficial
Em 2002, durante uma cúpula histórica entre Japão e Coreia do Norte, o então líder norte-coreano Kim Jong-il admitiu que agentes do regime haviam sequestrado cidadãos japoneses nas décadas de 1970 e 1980.
Entre os nomes confirmados estava o de Megumi Yokota.
Uma espiã norte-coreana que desertou para o Sul em 1993 contou em detalhes a Seul sobre uma mulher japonesa sequestrada que correspondia à sua descrição. “Lembro-me dela muito claramente”, disse Ahn Myong-jin. “Eu era jovem e ela era linda.”
Ele disse que um dos sequestradores dela – um alto funcionário da espionagem – havia lhe contado a história dela em 1988: O sequestro foi um erro não planejado, disse ele. Ninguém tinha a intenção de levar uma criança.
Dois agentes que finalizavam uma missão de espionagem em Niigata estavam esperando na praia por um barco de resgate quando perceberam que haviam sido vistos da estrada.
Temendo serem descobertos, agarraram a menina. Megumi era alta para a idade e, na escuridão, eles não conseguiram perceber que era uma criança.
A vida de Megumi no Cativeiro
Há 48 anos, Megumi era sequestrada e levada para a Coreia do Norte
Ela chegou à Coreia do Norte depois de 40 horas trancada em um depósito completamente escuro, disse Ahn, com as unhas arrancadas e ensanguentadas de tanto tentar escapar.
Os agentes que a levaram foram repreendidos por sua falta de bom senso. Ela era muito jovem; que utilidade teria uma menina daquela idade?
Megumi chorou pela mãe e se recusou a comer, deixando seus cuidadores apreensivos. Para acalmá-la, prometeram que, se ela se esforçasse e aprendesse coreano fluentemente, teria permissão para voltar para casa.
Era uma mentira para enganar uma criança devastada. Seus captores não tinham essa intenção. Em vez disso, a Coreia do Norte forçaria Megumi a ensinar a língua, os costumes e a cultura japonesa para espiões norte-coreanos que seriam infiltrados no Japão.
Ela se casou em 1986 com um sul-coreano também sequestrado, Kim Young-nam, com quem teve uma filha chamada Kim Eun-gyong (conhecida como Hye-gyong).
A Controvérsia das “Cinzas Falsas”
Autoridades norte-coreanas afirmaram que Megumi teria cometido suicídio em 13 de abril de 1994, aos 29 anos devido a problemas de saúde mental.
Em 2004, ano que marcava o 27º aniversário de seu sequestro, a Coreia do Norte entregou ao Japão o que dizia serem os restos mortais cremados de Megumi.
Seus pais haviam guardado o cordão umbilical da filha ao nascer — uma tradição japonesa — e testes de DNA foram realizados no Japão.
No entanto, os testes de DNA revelaram que as cinzas pertenciam a duas pessoas diferentes, nenhuma delas era Megumi.
Megumi Yokota com sua família. Fotos de arquivo da família Yokota
O cientista que analisou as cinzas diria mais tarde que as cinzas poderiam ter sido contaminadas, tornando o resultado inconclusivo.
No entanto, o certificado de óbito fornecido por Pyongyang continha erros de idade e outras inconsistências grosseiras, reforçando a crença de que ela ainda possa estar viva. O episódio aprofundou a desconfiança e ampliou o impasse diplomático.
Outra japonesa sequestrada, Fukie Chimura, afirmou posteriormente que Megumi havia se mudado para a casa ao lado da dela e do marido na Coreia do Norte em junho de 1994, dois meses após a sua suposta morte, e vivido lá por vários meses.
Há informações ainda que sugerem que ela era responsável por ensinar japonês aos filhos do líder norte-coreano Kim Jong Il, que morreu em 2011.
Se isso for verdade, é possível que Pyongyang não queira revelar o paradeiro e a existência de Megumi porque ela sabe demais sobre os assuntos internos “ultrassecretos” da família Kim.
A família Yokota considera os detalhes da história de Pyongyang arrepiantes, porém nunca acreditou que Megumi tenha se suicidado.
A luta da família
Os pais de Megumi, especialmente sua mãe, tornaram-se vozes centrais na campanha por justiça e esclarecimento. Eles viajaram pelo mundo, reuniram-se com líderes políticos e mantiveram o caso na agenda internacional.
Megumi não era um caso isolado: havia mais pessoas como os Yokota, sofrendo pela perda de suas filhas, filhos, irmãs, irmãos e mães.
Sete dessas famílias formaram um grupo de apoio para exigir o resgate de seus entes queridos: a Associação de Famílias de Vítimas Sequestradas pela Coreia do Norte.
O encontro com a neta e bisneta
A família Yokota se encontra com neta e bisneta. Imagem: Jiji Press
Em 2014, os pais de Megumi conseguiram conhecer sua neta Kim Eun Gyong (filha de Megumi) e sua bisneta de 10 meses, em um encontro emocionante na Mongólia. Embora Megumi não estivesse presente, a família puderam passar cinco dias juntos.
O pai de Megumi faleceu em junho de 2020, aos 87 anos. A mãe de Megumi completou 90 anos em 4 de fevereiro de 2026. Ela é agora a única progenitora sobrevivente de todos os 12 sequestrados reconhecidos pelo governo que permanecem desaparecidos.
A história de Megumi passou a representar não apenas uma tragédia individual, mas a causa de todos os cidadãos japoneses sequestrados.
Em novembro de 2025, durante o aniversário de 48 anos do desaparecimento de Megumi Yokota, Sakie admitiu sentir-se exausta, dizendo: “Esgotei minhas energias e minha força de vontade. Às vezes penso que talvez nunca mais a veja.”
No entanto, ela afirmou ter “expectativas muito altas” quanto à capacidade de Takaichi de fazer progressos. Dois dias após assumir o cargo, em 21 de outubro, Takaichi se reuniu com as famílias das vítimas do sequestro e afirmou ter proposto uma reunião de cúpula com o líder norte-coreano Kim Jong Un.
Impacto diplomático
O caso tornou-se um dos principais entraves nas negociações entre Tóquio e Pyongyang.
Cinco pessoas sequestradas foram repatriadas em 2002, após o então primeiro-ministro japonês, Junichiro Koizumi, se encontrar com o norte-coreano Kim Jong Il em Pyongyang, em 17 de setembro daquele ano, na primeira cúpula entre os dois países.
A Coreia do Norte declarou que outros oito haviam falecido e que os demais nunca entraram no país, explicações que o Japão considera inaceitáveis por falta de evidências confiáveis. Até hoje, o tema permanece sensível nas relações bilaterais.
O Japão continua buscando cooperação internacional, especialmente dos Estados Unidos, para pressionar por um retorno imediato de todos os sequestrados ainda retidos.
Símbolo nacional
Megumi Yokota tornou-se símbolo da luta contra os sequestros internacionais. Seu rosto aparece em cartazes, campanhas governamentais e documentários.
O caso também impulsionou mudanças na política externa japonesa e reforçou o debate sobre segurança nacional.
Contexto mais amplo
Durante as décadas de 1970 e 1980, agentes norte-coreanos sequestraram cidadãos estrangeiros — principalmente japoneses — com o objetivo de obter treinamento cultural e linguístico para operações de espionagem.
O futuro líder do país, Kim Jong-il, então chefe dos serviços de inteligência, queria expandir seu programa de espionagem.
Estrangeiros sequestrados não eram úteis apenas como professores. Eles poderiam ser espiões, ou Pyongyang poderia roubar suas identidades para obter passaportes falsos.
Eles poderiam se casar com outros estrangeiros (algo proibido aos norte-coreanos), e seus filhos também poderiam servir ao regime.
O governo japonês reconhece oficialmente 17 casos, mas slguns analistas acreditam que o número real possa ser superior a 100.
Um caso ainda em aberto
Apesar das declarações norte-coreanas, muitos japoneses não consideram o caso encerrado. A família de Megumi continua defendendo que ela possa estar viva.
Quase cinco décadas após o desaparecimento, a história de Megumi Yokota permanece como uma ferida aberta — um lembrete doloroso de como conflitos geopolíticos podem atingir vidas comuns de maneira devastadora
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