Por que os trabalhadores japoneses estão cada vez mais recorrendo às agências de demissão

No Japão, cada vez mais trabalhadores recorrem a agências de demissão para sair do emprego sem confronto. Entenda os motivos por trás desse fenômeno.
Durante décadas, o Japão foi conhecido por uma cultura de trabalho marcada pela lealdade extrema às empresas, empregos vitalícios e pela dificuldade quase impensável de pedir demissão. No entanto, esse paradigma está mudando rapidamente.
Nos últimos anos, um número crescente de trabalhadores japoneses tem recorrido às chamadas agências de demissão, chamados no Japão de Taishoku Daikō (退職代行), serviços especializados em pedir desligamento em nome do funcionário.
O fenômeno revela profundas transformações no mercado de trabalho japonês, na mentalidade das novas gerações e nas relações entre empresas e empregados.
O que são as agências de demissão
As agências de demissão são empresas que, mediante pagamento, entram em contato com o empregador para comunicar oficialmente a saída do funcionário.
Normalmente esses serviços são oferecidos por empresas privadas, sindicatos e escritórios de advocacia. Elas cuidam de toda a comunicação formal, negociação de prazos, férias remuneradas, devolução de equipamentos e até de eventuais conflitos legais.
Para muitos japoneses, esse serviço representa uma forma de escapar de situações emocionalmente desgastantes sem enfrentar diretamente superiores hierárquicos.
A cultura do trabalho que dificulta dizer “eu me demito”
No Japão, pedir demissão nunca foi um ato simples. A cultura corporativa valoriza:
● Harmonia coletiva (wa)
● Lealdade à empresa
● Respeito absoluto à hierarquia
● Evitar confrontos diretos
Muitos trabalhadores relatam sentir culpa, vergonha ou medo ao considerar deixar o emprego, especialmente quando a equipe está sobrecarregada ou quando o chefe exerce forte autoridade.
Em alguns casos, gestores recusam verbalmente a demissão, pressionam o funcionário a ficar ou utilizam discursos emocionais, tornando o processo extremamente estressante.
Por exemplo, um homem de quase trinta anos relatou que ao longo de um ano precisou conciliar a jornada de trabalho com horas de estudo nas horas vagas, e com isso desenvolveu distúrbio do sono, entrou em depressão e começou a faltar mais ao trabalho.
Embora o ambiente de trabalho fosse positivo ele sentia que não estava conseguindo se esforçar suficiente e que estava atrapalhando a equipe. Porém ele não conseguia admitir que havia chegado ao limite e nem conseguia expressar isso ao seu supervisor.
Neste caso, para funcionários cuja dedicação ao trabalho leva à depressão, o ato de comunicar a um superior que desejam se demitir pode ser extremamente estressante.
Assédio moral, horas excessivas e esgotamento
Outro fator central para o crescimento dessas agências é o aumento da conscientização sobre:
● Assédio moral (power harassment)
● Jornadas excessivas
● Falta de equilíbrio entre vida pessoal e trabalho
● Casos de karōshi (morte por excesso de trabalho)
Para trabalhadores emocionalmente exaustos, a simples ideia de enfrentar o superior para pedir desligamento se torna insuportável. As agências surgem como uma válvula de escape psicológica, oferecendo uma saída rápida e menos traumática.
Uma mulher por exemplo relata que seu supervisor a chamava repetidamente de “gorda demais” na frente dos colegas de trabalho e gritava com ela sem motivo aparente.
Por ser recém-contratada, confrontar o supervisor poderia ser arriscado e apresentar uma queixa à diretoria ou RH da empresa não seria garantia de que o problema seria resolvido. Tudo isso a levou a buscar ajuda de uma agência de demissão.
Em outra situação, uma mulher que havia recentemente mudado de emprego foi abordada por seu novo superior, que confessou interesse romântico por ela.
Ela rejeitou suas investidas, mas tornou-se alvo de seus constantes ataques verbais. Apesar de ser uma profissional experiente, com um histórico sólido e já ter passado por mudanças de emprego anteriormente, ela ainda se sentia incapaz de confrontar seu assediador.
No fim, ela queria sair do emprego, mas seu empregador não colaborou com os procedimentos de demissão. “Nunca imaginei que um dia precisaria de uma agência de demissão”, refletiu ela.
Mudança geracional e novos valores
As gerações mais jovens, especialmente millennials e geração Z, enxergam o trabalho de forma diferente:
● Não veem o emprego como identidade única
● Valorizam saúde mental e qualidade de vida
● Aceitam trocar de empresa com mais facilidade
● Questionam práticas tradicionais abusivas
Esses trabalhadores estão menos dispostos a “aguentar” ambientes tóxicos por anos, mas ainda enfrentam estruturas corporativas rígidas — o que torna as agências de demissão uma solução intermediária.
No entanto, uma pesquisa recente realizada pela Tokyo Shōkō Research revelou que embora 53,7% dos usuários estivessem na faixa dos 20 anos, 35% tinham entre 30 e 40 anos.
Isso mostra que as agências de demissão agora também estão sendo procuradas por profissionais de meia-carreira, e não apenas por funcionários mais jovens.
O impacto da pandemia e do trabalho remoto
A procura por esse tipo de serviço se intensificou após a pandemia do COVID-19:
● Trabalhadores passaram a refletir mais sobre suas vidas
● O trabalho remoto revelou problemas estruturais das empresas
● A distância física reduziu o apego emocional ao local de trabalho
Ao mesmo tempo, o isolamento aumentou ansiedade e estresse, fazendo com que muitos optassem por demissões rápidas e indiretas, sem confronto presencial.
O custo emocional é maior que o custo financeiro
Um relatório divulgado em outubro de 2024 pela Mynavi, plataforma de busca de emprego, revelou que, entre 800 entrevistados, o principal motivo para recorrer a uma agência de demissão foi pelo fato do “empregador não aceitar a demissão” (40,7%).
O segundo principal motivo foi “não conseguir dizer que queria sair” (32,4%).
Embora os serviços de demissão não sejam baratos, muitos trabalhadores afirmam que:
“Pagar pela demissão é mais barato do que continuar adoecendo.”
Isso revela que, para muitos, o custo emocional de permanecer em um emprego ruim supera o custo financeiro do serviço.
Empresas começam a reagir
Com o aumento de número de pedidos de demissão e com o crescimento dessas agências, as empresas japonesas tem começado a repensar coisas como:
● Estilo de liderança
● Comunicação interna
● Gestão de pessoas
● Retenção de talentos
Algumas companhias já veem o uso de agências como um sinal de alerta sobre ambientes tóxicos e falhas de comunicação na cultura corporativa.
Antigamente, quando o emprego vitalício era a norma e os pedidos de demissão eram raros, deixar os supervisores lidarem com os procedimentos de demissão provavelmente não causava muitos problemas.
Mas agora muitas empresas estão percebendo que há necessidade de ter uma equipe de RH ou terceirizada com conhecimento jurídico para lidar com essa questão, além de estabelecer regras claras para negociações de demissão com base no regulamento interno da empresa.
Deixar que os supervisores cuidem das demissões pode levar a riscos de descumprimento de normas uma vez que estes podem desenvolver sentimentos negativos em relação aos funcionários que pedem demissão.
Um sintoma de mudança estrutural
Segundo o Inquérito à Força de Trabalho do Ministério dos Assuntos Internos e das Comunicações, 3,3 milhões de trabalhadores mudaram de emprego em 2024, enquanto 10 milhões manifestaram o desejo de mudar.
Com isso houve um aumento da demanda por agências de demissão o que acaba sendo um sintoma claro de transformação no Japão. Ele indica:
● Erosão do modelo de emprego vitalício
● Maior valorização da saúde mental
● Questionamento da autoridade hierárquica rígida
● Busca por autonomia individual
O Japão não está abandonando sua ética de trabalho, mas está sendo forçado a redefini-la.
Conclusão: quando sair virou um ato de sobrevivência
Recorrer a uma agência para pedir demissão pode parecer extremo, mas, para muitos trabalhadores japoneses, trata-se de um ato de autoproteção.
Em uma sociedade onde dizer “não” ainda é difícil, terceirizar a saída tornou-se uma forma de recuperar controle sobre a própria vida.
O crescimento dessas agências mostra que, silenciosamente, o Japão está aprendendo que trabalhar não deve significar sofrer por anos e anos dentro de uma empresa.
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