Watanabe no Tsuna: o samurai lendário que enfrentou os oni do Japão antigo

Watanabe no Tsuna - o samurai lendário que enfrentou os oni do Japão antigo

Quem foi Watanabe no Tsuna? Conheça a lenda do samurai que enfrentou os oni do Japão antigo e sua ligação com o folclore e o Setsubun.

Todos os anos, no início de fevereiro, o Japão revive um de seus rituais mais antigos: o Setsubun (節分), a cerimônia que marca a transição simbólica entre as estações e tem como principal ritual o mamemaki (豆撒き), que se caracteriza no lançamento de grãos de soja para expulsar os oni (demônios) e atrair boa sorte.

Por trás desse costume popular, há uma longa tradição mitológica — e nela surge a figura de Watanabe no Tsuna, o samurai lendário que personifica a luta direta contra essas forças malignas.

O que é o Setsubun

O Setsubun (節分) significa literalmente “separação das estações”. Embora hoje esteja associado principalmente à chegada da primavera, sua origem remonta ao período Heian (794–1185), quando rituais xintoístas e influências do pensamento chinês eram usados para afastar infortúnios e doenças.

Durante o ritual mais conhecido, os participantes gritam “Oni wa soto! Fuku wa uchi!” (“Demônios para fora! Sorte para dentro!”) enquanto lançam feijões torrados, símbolo de purificação e proteção espiritual.

Quem foi Watanabe no Tsuna

Watanabe no Tsuna (渡辺綱) foi um guerreiro histórico do século X, vassalo de Minamoto no Yorimitsu (Raikō) e membro do grupo conhecido como os Quatro Reis Celestiais.

Embora sua existência seja confirmada por registros históricos, foi por meio das lendas que Tsuna se tornou imortal.

Ele ficou famoso por enfrentar oni que aterrorizavam Kyoto, consolidando sua imagem como defensor da capital e exterminador de forças malignas.

O confronto com o oni do Portão Rashōmon

Watanabe no Tsuna - o samurai lendário que enfrentou os oni do Japão antigo

A história mais célebre envolvendo Tsuna é o episódio do Portão Rashōmon, local que simbolizava decadência, perigo e presença sobrenatural.

Segundo a lenda, Tsuna enfrentou um oni que atacava viajantes à noite. Durante o combate, o samurai cortou o braço do demônio, forçando-o a fugir. O membro decepado foi guardado como prova da vitória — um gesto simbólico de domínio sobre o mal.

Essa narrativa se tornou uma das imagens mais poderosas da mitologia japonesa: o mal não apenas expulso, mas confrontado diretamente.

Tsuna como símbolo do espírito do Setsubun

Enquanto o Setsubun utiliza rituais domésticos e comunitários para afastar os oni, Watanabe no Tsuna representa a personificação humana desse mesmo princípio.

Se o mamemaki expulsa os demônios simbolicamente, Tsuna os enfrenta fisicamente nas lendas. Ambos compartilham a mesma lógica espiritual:

● expulsar a má sorte,
● proteger a comunidade,
● restaurar a ordem.

Por isso, Tsuna é frequentemente lembrado em festivais, artes tradicionais e narrativas ligadas à purificação espiritual, especialmente em contextos associados ao Setsubun.

Sobrenome Watanabe: o “DNA de guerreiro”

A lenda diz que pessoas com o sobrenome Watanabe não precisam jogar feijões no Setsubun porque os demônios (oni) têm pavor desse nome desde a era Heian.

Ou seja, após a derrota humilhante, os demônios passaram a acreditar que qualquer pessoa chamada Watanabe é perigosa demais para ser enfrentada.

Por causa desse “DNA de guerreiro”, acredita-se que os demônios evitam as casas dos Watanabe por conta própria. Enquanto outras famílias gritam “Oni wa soto!” (Demônios para fora!), os Watanabe podem apenas relaxar, pois os demônios nem sequer ousam se aproximar.

Essa tradição é levada tão a sério que, em alguns locais como o Santuário Senso-ji em Asakusa, as celebrações de Setsubun podem variar para famílias com linhagem de samurais famosos.

Watanabe é o quinto sobrenome mais usado no Japão, sendo usado por mais de 1 milhão de pessoas. Graças à Watanabe no Tsuna, essas pessoas receberam isenção vitalícia de demônios.

Oni: demônios ou metáforas sociais?

No Japão antigo, os oni não eram vistos apenas como monstros fantásticos. Eles representavam:

● doenças,
● fome,
● conflitos sociais,
● forças externas que ameaçavam a ordem imperial.

Figuras como Watanabe no Tsuna ajudavam a transformar o medo coletivo em histórias de superação, assim como o Setsubun transforma o receio do futuro em um ritual de esperança.

A presença de Tsuna no Setsubun contemporâneo

Em alguns templos e festivais regionais, o Setsubun inclui encenações teatrais em que guerreiros expulsam oni, muitas vezes inspirados visualmente em heróis como Tsuna.

Espadas, armaduras e máscaras reforçam o elo entre o ritual popular e as antigas lendas samurais.

Mesmo quando seu nome não é citado diretamente, o arquétipo do samurai que derrota o oni está presente no imaginário coletivo japonês durante o Setsubun.

Entre ritual e lenda

O Setsubun não é apenas um costume doméstico; é a continuidade de uma visão de mundo em que o mal pode ser afastado por meio de ação, fé e coragem.

Nesse sentido, Watanabe no Tsuna encarna o Setsubun em sua forma mais extrema — a luta direta contra o caos.

Ao unir mito, história e ritual, o Japão mantém viva uma tradição que atravessa séculos, lembrando que, mesmo diante do desconhecido, o mal pode ser enfrentado e superado.

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Sou apaixonada pelo Japão e sua cultura. Resolvi criar esse blog com o intuito de fazer com que mais e mais pessoas conheçam essa cultura tão rica, incrível e fascinante!

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