Irusu: A palavra japonesa que descreve o ato de de “fingir não estar em casa”

Entenda o significado de irusu (居留守), a expressão japonesa que descreve o ato de “fingir não estar em casa” quando alguém bate à porta ou toca a campainha.
Quem nunca deixou de atender uma campainha ou um telefonema que atire a primeira pedra. Mas no Japão existe uma palavra específica para descrever isso: Irusu (居留守).
Irusu é uma expressão japonesa única que descreve o ato de “fingir que não está em casa” quando alguém bate à porta ou toca a campainha.
O termo é composto pelos kanjis:
居 (I): Estar presente.
留守 (Rusu): Estar ausente / Não estar em casa.
Seria como “estar em casa e não estar em casa”. Ou seja: estar, mas fingir que não está.
É um exemplo clássico da distinção entre Honne (sentimento real: “estou em casa mas não quero atender”) e Tatemae (fachada pública: “a casa parece vazia”).
Por que os japoneses praticam o irusu?
Longe de ser visto apenas como descortesia, o irusu é, em muitos contextos, uma estratégia socialmente aceita para preservar o equilíbrio entre o espaço pessoal e as expectativas sociais.
No uso cotidiano, irusu significa não atender propositalmente, geralmente para evitar constrangimentos, interrupções ou obrigações sociais indesejadas. O irusu está diretamente ligado a valores centrais da sociedade japonesa:
● Respeito ao espaço pessoal (privacidade)
● Evitar confronto direto
● Manter a harmonia social (wa)
● Polidez indireta
Dizer “não quero atender” de forma explícita pode ser considerado rude. O irusu surge, então, como uma forma silenciosa e socialmente compreendida de recusa.
Alguns exemplos de Irusu

● Vendedores porta a porta
● Visitas inesperadas
● Telefonemas fora de hora
● Interações sociais que exijam formalidade
Historicamente, o irusu é usado para evitar cobradores da NHK (taxa de TV), vendedores persistentes ou recrutadores religiosos.
Além disso, muitos japoneses valorizam seu tempo de descanso e evitam interações sociais inesperadas que exijam o uso de linguagem formal (keigo) ou etiquetas sociais cansativas.
Em muitos casos, o visitante percebe que tem alguém na casa mas entende o silêncio como um sinal claro de irusu e se retira sem ressentimentos.
Irusu nos tempos atuais

A tecnologia mudou a forma como as pessoas fingem que não estão em casa:
● Não atender chamadas mesmo vendo quem ligou
● Visualizar mensagens e não responder imediatamente
● Usar interfones com câmera e optar pelo silêncio
Quase todos os apartamentos modernos possuem interfones com câmera onde o morador pode ver quem está na porta sem fazer barulho. Se não for uma entrega esperada (como da Amazon ou Kuroneko Yamato), muitas pessoas simplesmente ignoram.
Apesar que desde a pandemia o serviço de oki-ben (deixar a encomenda na porta) tornou-se o padrão. Isso permite que as pessoas pratiquem o irusu mesmo quando estão esperando uma encomenda, retirando o pacote apenas quando o entregador vai embora.
Apesar das mudanças tecnológicas, a lógica permanece a mesma: gerenciar interações sem confronto direto.
Irusu não é visto como falta de educação no Japão
Do ponto de vista ocidental, fingir não estar em casa pode parecer evasivo ou até grosseiro. No Japão, porém, o irusu pode ser visto como:
● Uma forma de não constranger o visitante
● Um meio de evitar explicações desnecessárias
● Uma estratégia para preservar relações futuras
Em vez de rejeição direta, o irusu oferece uma saída neutra, sem palavras.
Comparações culturais
Embora o termo irusu seja particularmente japonês, práticas semelhantes existem em outras culturas. A diferença está no grau de aceitação social.
No Japão, o irusu é amplamente compreendido e raramente questionado, enquanto em outros países pode ser interpretado como indiferença ou má educação.
Conclusão
O irusu (居留守) é mais do que “fingir não estar em casa”. Ele é um mecanismo cultural sofisticado, criado para equilibrar polidez, privacidade e harmonia social.
Entender o irusu é compreender uma faceta sutil da mentalidade japonesa, onde o silêncio, muitas vezes, fala mais alto do que as palavras.
Deixe um comentário