Kamekobaka: Os “túmulos de casco de tartaruga” de Okinawa

Kamekobaka, os túmulos caso de tartaruga de Okinawa

Conheça os túmulos Kamekobaka de Okinawa, famosos pelo formato de casco de tartaruga. Descubra sua história e o simbolismo com o útero materno.

Espalhados pelas ilhas de Okinawa, no sul do Japão, os túmulos Kamekobaka (亀甲墓) chamam atenção por sua forma incomum. Com estrutura arqueada que lembra o casco de uma tartaruga, esses túmulos tradicionais refletem uma visão particular sobre a morte, a ancestralidade e o ciclo da vida na antiga cultura do Reino de Ryukyu.

Esses monumentos continuam a ser o pilar da identidade espiritual do povo de Ryukyu, representando uma conexão única entre a vida, a morte e o retorno à origem.

O que é um Túmulo Kamekobaka?

O termo kamekobaka (亀甲墓) pode ser traduzido como “túmulo em forma de casco de tartaruga”. A arquitetura curva e robusta simboliza o útero materno, representando a ideia de retorno à origem após a morte. Para os okinawanos, morrer não significava um fim definitivo, mas um retorno ao seio da natureza e aos antepassados.

Diferentemente dos túmulos verticais comuns no Japão continental, os kamekobaka são amplos e horizontais. Muitos funcionam como túmulos familiares, capazes de abrigar os restos mortais de várias gerações. O ritual reforçava a ligação entre vivos e mortos, um aspecto central da espiritualidade ryukyuana.

No interior, os ossos eram tradicionalmente colocados após um processo funerário conhecido como senkotsu, no qual os restos eram lavados e reorganizados após a decomposição inicial.

O Simbolismo do Útero Materno

Kamekobaka Imagem: photo-ac

Para os nativos de Okinawa, o design do Kamekobaka representa o útero materno. A parte central arredondada simboliza a barriga de uma mãe, e a entrada estreita representa o canal de nascimento. A filosofia por trás dessa arquitetura é poética e circular: “O homem nasce do útero e, ao morrer, deve retornar para o útero para encontrar o descanso eterno”.

Origem e História: Da China para Ryukyu

Esses túmulos surgiram por volta do século XVII por influência da província de Fujian, na China e se tornaram comuns entre famílias influentes durante o período do Reino de Ryukyu, antes da incorporação definitiva de Okinawa ao Japão no século XIX.

Exclusividade Nobre: Durante o período do Reino de Ryukyu, a construção de Kamekobakas era um privilégio exclusivo da aristocracia e da família real.

Democratização: Foi apenas após a abolição do sistema de castas no final do século XIX que os cidadãos comuns começaram a erguer essas estruturas para seus clãs (monchu).

Escudos de Guerra: Durante a Batalha de Okinawa em 1945, muitos desses túmulos — construídos para durar séculos — serviram como abrigos antiaéreos improvisados para civis, salvando milhares de vidas.

Rituais Milenares: O Senkotsu e o Festival Shiimii

Senkotsu 洗骨 (Lavagem de Ossos): Antigamente, os corpos eram depositados no túmulo e, após alguns anos, os familiares realizavam o Senkotsu, lavando os ossos com saquê antes de colocá-los em urnas definitivas (zushigame), que diferente das urnas cilíndricas simples ocidentais, é projetada para parecer uma residência miniatura (ou um palácio) para a alma.

Hoje, como a cremação tornou-se uma prática quase universal no Japão, Senkotsu vem se tornando obsoleta sendo realizada em Yoronjima (Kagoshima) e algumas ilhas de Okinawa.

Festival Shiimii 清明祭 (Abril): Semelhante ao feriado de finados, mas com uma atmosfera de celebração. As famílias se reúnem em frente aos enormes túmulos para realizar banquetes, beber e conversar, “compartilhando” a refeição com os ancestrais.

Onde ver os Túmulos Kamekobaka?

Kamekobaka, os túmulos caso de tartaruga de Okinawa Imagem: photo-ac

Ainda hoje, muitos kamekobaka podem ser vistos em áreas rurais, encostas e próximos a vilarejos. No entanto, sua manutenção enfrenta desafios, como a urbanização, a falta de espaço e as mudanças nos costumes funerários das gerações mais jovens.

Apesar disso, os túmulos são reconhecidos como importantes patrimônios culturais, despertando interesse de pesquisadores, arquitetos e visitantes interessados na história única de Okinawa. Se você estiver visitando Okinawa, estes são os locais mais impressionantes:

Tamaudun (Naha): O mausoléu real da Dinastia Sho, patrimônio da UNESCO. Embora seja um estilo de palácio, ele influenciou toda a arquitetura funerária da ilha.

Cemitério Urano em Yonaguni: Localizado nos arredores nordeste da comuna de Sonai (祖納), encontram-se inúmeras tumbas escavadas na rocha.

Acantilados de Ie-jima: A ilha oferece vistas espetaculares de túmulos esculpidos diretamente na rocha coralínea.

Zonas Rurais de Itoman: Onde os grandes clãs familiares mantêm túmulos ativos que podem abrigar dezenas de gerações.

Tumba de Gosamaru na vila de Nakagusuku: Túmulo do lorde do Castelo de Nakagusuku, considerado o mais antigo do tipo Kamekobaka de Okinawa.

Um retrato da identidade de Okinawa

Os túmulos kamekobaka não são apenas estruturas funerárias, mas manifestações materiais de uma visão de mundo distinta do Japão continental.

Eles são a prova da resiliência da cultura okinawana frente à modernização e revelam como Okinawa desenvolveu tradições próprias, moldadas por influências chinesas, do Sudeste Asiático e por sua história como reino independente.

Em silêncio, esses túmulos continuam a contar a história de um povo que enxerga a morte não como ruptura, mas como continuidade.

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Sou apaixonada pelo Japão e sua cultura. Resolvi criar esse blog com o intuito de fazer com que mais e mais pessoas conheçam essa cultura tão rica, incrível e fascinante!

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