Niijima Yae: a mulher que rompeu tradições e marcou a história do Japão moderno

Niijima Yae foi uma mulher samurai, combatente da Guerra Boshin e pioneira da enfermagem no Japão moderno, conhecida como a “Joana d’Arc do Japão”.
Poucas figuras femininas simbolizam tão bem a transição do Japão feudal para a era moderna quanto Niijima Yae (1845–1932). Ela é considerada uma das figuras femininas mais icônicas e progressistas da história japonesa, conhecida como a “Joana d’Arc do Japão”.
Enquanto Joana lutou pela França inspirada por visões, Yae lutou pelo clã Aizu movida por um profundo senso de dever e honra (bushido), tornando-se um símbolo de resistência contra as forças imperiais que queriam extinguir o antigo sistema japonês.
Enfermeira, educadora e combatente armada em um dos conflitos mais decisivos do século XIX, Yae desafiou expectativas sociais rígidas e deixou uma marca duradoura na história japonesa — mesmo tendo sido por muito tempo esquecida pelos livros didáticos.
Uma infância moldada pelo conflito
Niijima Yae nasceu em Aizu, atual província de Fukushima, em uma família de samurais do domínio Aizu, conhecido por sua lealdade ao xogunato Tokugawa.
Desde cedo, recebeu uma educação incomum para meninas da época, aprendendo leitura, escrita e, de forma extraordinária, o uso de armas de fogo.
Essa formação seria decisiva durante a Guerra Boshin (1868–1869), conflito que marcou o fim do regime feudal e a ascensão do governo imperial Meiji.
A mulher que pegou em armas
Durante o Cerco ao Castelo de Aizu-Wakamatsu, Yae cortou o cabelo, vestiu-se como homem e lutou ao lado dos defensores do domínio, operando rifles e participando ativamente da resistência.
Em uma sociedade que restringia severamente o papel feminino, sua atuação foi vista como escandalosa por alguns e heroica por outros.
Após a derrota de Aizu, Yae passou a ser associada ao lado “perdedor” da história oficial, o que contribuiu para décadas de marginalização de sua memória.
Educação, cristianismo e novas ideias
Converteu-se ao cristianismo e casou-se com Joseph Hardy Neesima (Niijima Jo), um educador visionário e fundador da Universidade Doshisha, em Kyoto. Juntos, fundaram a Universidade Doshisha em Kyoto, uma das instituições privadas mais prestigiadas do país.
Ao lado do marido, tornou-se uma defensora da educação feminina, da ética cristã e da formação intelectual como base para uma sociedade moderna.
Ela era chamada de “Bad Wife” (Esposa Ruim) pela sociedade conservadora porque exigia ser tratada como igual ao marido, caminhando ao lado dele (e não atrás) e entrando em carruagens primeiro — algo escandaloso para o Japão Meiji.
Mesmo após a morte de Jō, Yae continuou envolvida em atividades educacionais e sociais, consolidando seu papel como pioneira do pensamento progressista no Japão.
Do campo de batalha ao cuidado com os feridos
Com o fim da guerra, Niijima Yae reinventou sua trajetória. Inspirada por ideias ocidentais e cristãs que ganhavam espaço no Japão da Era Meiji, tornou-se enfermeira voluntária, prestando assistência durante conflitos posteriores, incluindo a Guerra Sino-Japonesa (1894–1895) e a Guerra Russo-Japonesa (1904–1905).
Foi a primeira mulher, fora da família imperial, a ser condecorada pelo governo por seu serviço humanitário, tornando-se uma figura central da Cruz Vermelha Japonesa.
Reconhecimento tardio

Durante décadas, Niijima Yae foi uma figura secundária nos relatos históricos, em parte por ter lutado contra o governo imperial e por ter rompido com normas de gênero profundamente enraizadas. Seu reconhecimento só começou a crescer no século XXI.
Sua bravura na Batalha de Aizu é celebrada anualmente no Aizu Matsuri, em Fukushima. Em 2013, sua vida foi retratada no drama histórico da NHK “Yae no Sakura”, o que levou a uma reavaliação pública de sua importância histórica e simbólica.
Símbolo de resistência e transformação
Hoje, Niijima Yae é lembrada como:
● Uma mulher que desafiou papéis de gênero
● Um símbolo da transição entre Japão feudal e moderno
● Uma pioneira na enfermagem de guerra
● Uma defensora da educação e do humanitarismo
Sua história representa não apenas coragem física, mas também a capacidade de adaptação e reconstrução em tempos de profunda mudança.
Niijima Yae, a “Joana d’Arc” do Japão
A analogia de Niijima Yae com a “Joana d’Arc” deve-se à sua coragem excepcional em um campo de batalha dominado por homens e à sua devoção inabalável a uma causa durante um período de guerra civil.
Ela comandou baterias de artilharia e treinou outras mulheres, ocupando uma posição de liderança militar que era virtualmente inexistente para o gênero feminino no Japão do século XIX, mas diferente de Joana d’Arc, Yae sobreviveu à guerra.
Ela viveu o suficiente para transformar seu espírito combativo em uma força para a educação e enfermagem.
Em um Japão que ainda debate o papel das mulheres na sociedade e no mercado de trabalho, Niijima Yae surge como uma figura inspiradora. Sua vida demonstra que, mesmo em contextos restritivos, é possível romper barreiras e influenciar o rumo da história.
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