Exército Imperial Japonês na Nova Guiné: fome, selva e colapso em uma das campanhas mais brutais da guerra

Entenda como o Exército Imperial Japonês enfrentou fome extrema, doenças tropicais e colapso logístico na campanha da Nova Guiné (1942–1945).
A campanha do Exército Imperial Japonês na Nova Guiné (1942–1945) é descrita por historiadores como uma das mais atrozes da Segunda Guerra Mundial.
Mais do que confrontos armados contra forças australianas e americanas, a guerra ali foi travada contra a natureza, a fome e o isolamento.
O resultado foi devastador: de cerca de 200 mil soldados enviados para a ilha, estima-se que apenas aproximadamente 13 mil tenham sobrevivido.
O “Inferno Verde” e a logística impossível

O alto comando japonês subestimou profundamente a geografia da Nova Guiné. A ilha era dominada por florestas tropicais densas, pântanos, montanhas escarpadas e ausência quase total de infraestrutura.
Com o avanço aliado no Pacífico e o controle naval e aéreo estabelecido após batalhas como o Mar de Coral e Guadalcanal, as rotas de abastecimento japonesas foram progressivamente interrompidas. Isoladas, muitas unidades ficaram sem comida, medicamentos e munição.
Mortalidade em números
Tropas da Marinha, entre os 250.000 soldados japoneses enviados para a Nova Guiné, em repouso. Imagem: apjjf.org
● Cerca de 200.000 soldados japoneses enviados
● Apenas cerca de 13.000 sobreviveram
● Mais de 90% das mortes atribuídas à fome e doenças como malária e disenteria
A inanição tornou-se a principal causa de morte. Relatos indicam que soldados sobreviviam com raízes, folhas e qualquer animal capturado na selva.
Muitos dos combatentes do Exército Imperial japonês eram “Takasago”, o nome japonês para os povos aborígenes de Taiwan.
O Exército Imperial os recrutou por acreditar que eles possuíam habilidades sobre-humanas de sobrevivência em selvas tropicais, resistência a doenças e agilidade em terrenos montanhosos, superiores às dos soldados japoneses urbanos.
A Trilha Kokoda e a tentativa de tomar Port Moresby
Em 1942, o Japão tentou capturar Port Moresby atravessando as montanhas Owen Stanley a pé, pela chamada Trilha Kokoda.
Os soldados japoneses enfrentaram:
● Trilhas íngremes e escorregadias
● Chuvas constantes
● Transporte manual de suprimentos pesados
● Ataques constantes das forças australianas
Exaustos e sem mantimentos, chegaram a avistar as luzes de Port Moresby, mas foram obrigados a recuar sob forte pressão inimiga.
Para a Austrália, a campanha de Kokoda tornou-se um dos pilares da memória nacional, simbolizando resistência e sacrifício.
Canibalismo: o limite extremo da sobrevivência
O isolamento foi tão severo que surgiram relatos documentados de canibalismo. Testemunhos colhidos após a guerra e investigações conduzidas por tribunais militares aliados indicaram que, em situações extremas, algumas unidades recorreram ao consumo de carne humana.
Historiadores apontam que esses episódios ocorreram principalmente em 1944 e 1945, quando o bloqueio aliado já havia destruído qualquer possibilidade de abastecimento regular.
O Incidente Takenaga (1945)
Entre os raros episódios de rendição coletiva envolvendo tropas japonesas na Nova Guiné está o chamado Incidente Takenaga.
Em março de 1945, o Major Masayuki Takenaga decidiu render sua unidade de 42 homens às forças australianas para evitar que morressem de fome.
A decisão contrariava o rígido código militar japonês da época, que valorizava o suicídio ou a morte em combate em vez da captura.
O episódio simboliza o grau extremo de desespero que dominava as tropas isoladas.
Colapso estratégico no Pacífico
O General Adachi entrega sua espada ao Major General Horace Robertson, do Exército Australiano.
Imagem: Museu Regional de Burnie: Coleção Bert Winter
A derrota japonesa na Nova Guiné teve implicações estratégicas profundas:
● Enfraqueceu a defesa do sudeste asiático
● Isolou guarnições japonesas em outras ilhas
● Contribuiu para o avanço da estratégia aliada de “salto de ilhas”
A campanha evidenciou os limites da expansão japonesa sem uma estrutura logística robusta.
Esforços de repatriação até hoje
Décadas após o fim da guerra, milhares de corpos ainda permanecem na selva da atual Papua-Nova Guiné.
O governo japonês, por meio do Ministério da Saúde, Trabalho e Bem-Estar, financia missões anuais para localizar e repatriar restos mortais de soldados.
Essas operações continuam no século XXI, reforçando o impacto duradouro da campanha na memória nacional japonesa.
Conclusão
A campanha do Exército Japonês na Nova Guiné não foi apenas uma derrota militar — foi uma tragédia humana marcada por fome extrema, doenças e isolamento absoluto.
Mais do que confrontos armados, o que definiu aquele front foi a luta pela sobrevivência em um ambiente implacável.
A Nova Guiné permanece como um dos capítulos mais sombrios da guerra no Pacífico — um lembrete de que, em conflitos de larga escala, a logística pode ser tão decisiva quanto as armas.
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