Mais de 17.000 pessoas aguardam transplantes de órgãos no Japão

Como funciona a doação e Transplante de órgãos no Japão

Apesar do Japão ter registrado um recorde de 662 transplantes de órgãos em 2024, mais de 17 mil pacientes ainda aguardam por uma cirurgia.

O transplante de órgãos é considerado uma das maiores conquistas da medicina moderna.

Para pacientes que sofrem de insuficiência cardíaca, hepática, pulmonar ou renal em estágio avançado, a cirurgia muitas vezes representa a única oportunidade de sobreviver e recuperar a qualidade de vida.

No Japão, essa área médica alcançou um marco importante recentemente. Dados divulgados pela Rede Japonesa de Transplantes de Órgãos (Japan Organ Transplant Network) mostram que o número de transplantes realizados no ano fiscal de 2024 chegou a 662 procedimentos, ultrapassando pela primeira vez a marca de 600 transplantes em um único ano.

Embora o número represente um avanço significativo para o sistema de saúde japonês, especialistas alertam que ainda existe uma enorme diferença entre a quantidade de órgãos disponíveis e o número de pacientes que aguardam por uma cirurgia salvadora.

Como funciona a doação de órgãos no Japão?

O sistema de transplantes japonês possui uma história relativamente recente quando comparado a países ocidentais.

Durante muitos anos, questões éticas, culturais e jurídicas dificultaram a expansão dos transplantes realizados a partir de doadores com morte encefálica.

Somente em 1997 foi promulgada a chamada Lei de Transplante de Órgãos, que passou a permitir oficialmente a doação de órgãos de pessoas diagnosticadas com morte encefálica.

A legislação, porém, era bastante restritiva.

Na época, a doação só poderia ocorrer se a pessoa tivesse registrado formalmente sua vontade em vida por meio de um documento específico, como o chamado “cartão de doador de órgãos”.

Essa exigência limitava drasticamente o número de doações.

Mesmo nos anos mais favoráveis, apenas cerca de uma dúzia de doadores com morte encefálica era registrada anualmente em todo o país.

A mudança que transformou os transplantes no Japão

Uma importante virada ocorreu em 2010, quando a legislação foi revisada.

A nova lei passou a permitir a doação de órgãos mediante autorização da família, mesmo que o falecido não tivesse deixado uma declaração formal expressando seu desejo de ser doador.

A alteração teve um impacto imediato.

Desde então, o número de doações aumentou gradualmente, permitindo a expansão de transplantes de órgãos vitais como:

● Coração;
● Pulmões;
● Fígado;
● Pâncreas;
● Rins;
● Intestino delgado.

A mudança também possibilitou a doação de órgãos de crianças, algo que anteriormente era extremamente limitado pela legislação.

Diferença entre morte encefálica e parada cardíaca

Um aspecto importante do sistema japonês é a distinção entre os tipos de doação.

Quando ocorre uma parada cardíaca irreversível, alguns órgãos podem ser aproveitados para transplante, incluindo rins, pâncreas e córneas.

Já nos casos de morte encefálica — quando há perda completa e irreversível das funções cerebrais — torna-se possível preservar e transplantar outros órgãos essenciais, como coração, pulmões, fígado e intestino delgado.

Por isso, os doadores diagnosticados com morte encefálica desempenham um papel fundamental para pacientes que dependem desses órgãos para sobreviver.

Recorde histórico em 2024

Números de transplantes realizados no Japão de 1995 a 2024Imagem: jotnw.or.jp

O total de 662 transplantes realizados no ano fiscal de 2024 representa um novo recorde nacional.

O aumento reflete diversos fatores:

● Maior conscientização da população sobre a importância da doação;
● Aprimoramento dos sistemas hospitalares;
● Melhor coordenação entre centros de transplante;
● Crescimento do número de famílias que autorizam a doação.

Além disso, os avanços tecnológicos e cirúrgicos elevaram significativamente as taxas de sucesso dos transplantes realizados no país.

Hoje, muitos pacientes conseguem viver décadas após receber um novo órgão.

A longa fila de espera continua sendo um desafio

Apesar do recorde alcançado, a realidade para milhares de pacientes japoneses ainda é dura.

Até 31 de março de 2026, mais de 17 mil pessoas estavam registradas na fila nacional aguardando um transplante. A esmagadora maioria aguarda por um rim (15.018 pacientes), seguida por coração (786) e pulmão (623).

Entretanto, menos de 4% dos pacientes cadastrados conseguem efetivamente receber um órgão.

A discrepância evidencia um dos maiores desafios enfrentados pelo sistema japonês: a escassez de doadores.

Em muitos casos, pacientes aguardam anos por uma oportunidade.

Infelizmente, alguns não conseguem sobreviver até que um órgão compatível esteja disponível.

Quais órgãos possuem maior demanda?

A necessidade varia de acordo com cada tipo de órgão.

Os rins representam a maior demanda do sistema japonês, devido ao elevado número de pacientes com insuficiência renal crônica.

Muitos desses pacientes dependem de sessões frequentes de hemodiálise para permanecer vivos enquanto aguardam um transplante.

Outros órgãos altamente procurados incluem:

● Fígado;
● Coração;
● Pulmões;
● Pâncreas.

Os transplantes cardíacos costumam apresentar uma das maiores disparidades entre oferta e demanda, já que o número de corações disponíveis é extremamente reduzido.

Barreiras culturais ainda influenciam a doação

Tradicionalmente, muitas famílias japonesas demonstram cautela em relação à retirada de órgãos após a morte.

Especialistas apontam que a escassez extrema de doadores falecidos no Japão (apenas cerca de 1 dador por milhão de habitantes, contra 20 por milhão no Brasil) decorre de fatores históricos e culturais enraizados.

No xintoísmo e no budismo japonês, há uma forte convicção espiritual de que o corpo deve ser mantido “puro e intacto” após a morte para a transição espiritual. Retirar órgãos é visto por muitas famílias tradicionais como uma profanação ou violação do falecido.

Além disso, o conceito de morte encefálica ainda gera debates em alguns segmentos da sociedade, em parte decorrente do “Incidente Wada” (1968).

Em 1968, o cirurgião Juro Wada realizou o primeiro transplante de coração do Japão. O paciente receptor faleceu pouco depois, e o médico foi acusado de acelerar o diagnóstico de morte cerebral do doador para colher o órgão.

Embora inocentado, o caso gerou uma desconfiança nacional massiva na comunidade médica que paralisou as doações de órgãos de cadáveres por 30 anos.

Essas características ajudam a explicar por que o Japão apresenta taxas de doação inferiores às observadas em diversos países ocidentais.

Nos últimos anos, campanhas educativas têm buscado aumentar a conscientização pública sobre a importância da doação de órgãos e seu potencial para salvar vidas.

Transplantes Inter Vivos

Como consequência direta da falta de doadores mortos, a medicina japonesa especializou-se e tornou-se a melhor do mundo em transplantes com doadores vivos (Living-Donor Transplants).

No caso de transplantes de fígado e pulmão, mais de 90% dos procedimentos no Japão são feitos retirando partes de órgãos de parentes vivos (pais doando para filhos ou vice-versa).

Essa necessidade gerou técnicas cirúrgicas de fragmentação hepática e pulmonar extraordinariamente avançadas nos hospitais universitários de Tóquio e Quioto.

Avanços médicos ampliam as perspectivas

O futuro dos transplantes no Japão pode ser transformado por novas tecnologias.

Pesquisadores japoneses estão na vanguarda de estudos envolvendo:

● Órgãos artificiais;
● Impressão biológica em 3D;
● Terapias com células-tronco;
● Xenotransplantes (uso de órgãos de animais geneticamente modificados).

Embora muitas dessas tecnologias ainda estejam em fase experimental, elas podem ajudar a reduzir a dependência exclusiva de doadores humanos nas próximas décadas.

Uma decisão que pode salvar vidas

A marca histórica de 662 transplantes demonstra que o Japão está avançando na área da medicina de transplantes.

No entanto, os mais de 17 mil pacientes que permanecem na fila de espera mostram que o desafio está longe de ser resolvido.

Cada doação representa a possibilidade de oferecer uma nova oportunidade a pessoas que enfrentam doenças graves e potencialmente fatais.

Por trás dos números estão histórias de famílias, pacientes e profissionais de saúde unidos por um objetivo comum: transformar a perda de uma vida na esperança de muitas outras.

Enquanto a medicina continua evoluindo, a conscientização sobre a doação de órgãos permanece uma das ferramentas mais importantes para ampliar as chances de sobrevivência de milhares de japoneses que aguardam por um transplante.

Fontes: jotnw.or.jp, irodat.org, www-william–russell-com
Imagem do topo: Depositphotos

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Sou apaixonada pelo Japão e sua cultura. Resolvi criar esse blog com o intuito de fazer com que mais e mais pessoas conheçam essa cultura tão rica, incrível e fascinante!

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