A “doença da bomba atômica”: os efeitos da radiação que marcaram Hiroshima e Nagasaki

Entenda o que foi a chamada “doença da bomba atômica”, seus sintomas, efeitos da radiação, câncer, leucemia e consequências para os hibakusha.
Durante décadas, sobreviventes de Hiroshima e Nagasaki usaram a expressão “doença da bomba atômica” (Genbakushō / 原爆症) para descrever um conjunto de sintomas e enfermidades que surgiram depois dos bombardeios de 1945.
O termo não corresponde a uma única doença, mas reúne os efeitos da exposição à radiação ionizante, incluindo a chamada síndrome aguda da radiação e, posteriormente, um aumento do risco de câncer e outras doenças.
O fenômeno foi particularmente assustador porque algumas pessoas que aparentemente haviam escapado ilesas à explosão começaram a adoecer dias ou semanas depois.
Queda de cabelo, sangramentos, febre, infecções, fraqueza extrema e alterações no sangue estavam entre os sinais observados.
A longo prazo, os estudos realizados com os hibakusha — os sobreviventes dos bombardeios atômicos — ajudaram a ciência a compreender melhor os efeitos da radiação sobre o organismo humano.
Quantos hibakusha há atualmente?
Segundo o censo do Ministério da Saúde, Trabalho e Bem-Estar do Japão, há atualmente 91.105 sobreviventes oficiais das bombas atômicas (Hibakushas).
Esse dado aponta uma redução de 8.025 pessoas em relação ao ano anterior, consolidando a tendência de declínio populacional dos sobreviventes históricos.
O governo japonês, por meio do Ministério da Saúde, Trabalho e Bem-Estar, cobre 100% dos custos médicos de quase todas as doenças e condições de saúde desses sobreviventes, incluindo consultas, exames, cirurgias, internações e medicamentos.
O que significa “doença da bomba atômica”?
A expressão japonesa genbaku-shō (原爆症), frequentemente traduzida como “doença da bomba atômica”, não designa uma enfermidade única.
Ela surgiu no contexto dos sintomas e problemas de saúde observados entre pessoas expostas aos bombardeios de Hiroshima e Nagasaki.
Do ponto de vista médico, é importante separar diferentes consequências da exposição:
● efeitos imediatos da explosão;
● queimaduras provocadas pelo calor;
● ferimentos causados pela onda de choque;
● exposição à radiação;
● síndrome aguda da radiação;
● aumento posterior do risco de leucemia;
● aumento do risco de diversos tipos de câncer;
● outros possíveis efeitos tardios.
A expressão histórica, portanto, é mais ampla do que o diagnóstico médico de síndrome aguda da radiação.
O que aconteceu em Hiroshima?
Às 8h15 de 6 de agosto de 1945, uma bomba atômica foi detonada sobre Hiroshima.
A explosão produziu simultaneamente: calor extremo + onda de choque + radiação ionizante.
As pessoas próximas ao hipocentro foram simplesmente pulverizadas ou sofreram queimaduras devastadoras e ferimentos provocados pelo colapso de edifícios.
Mas havia outro perigo que não podia ser percebido pelos sentidos: a radiação. Ela podia danificar profundamente células e tecidos, especialmente aqueles em que as células se multiplicam rapidamente.
E três dias depois, Nagasaki
Em 9 de agosto de 1945, uma segunda bomba atômica foi lançada sobre Nagasaki.
Assim como em Hiroshima, os sobreviventes foram expostos a uma combinação de explosão, calor e radiação. As consequências médicas foram estudadas posteriormente por pesquisadores japoneses e internacionais.
A investigação desses sobreviventes tornou-se uma das mais importantes fontes de conhecimento científico sobre os efeitos da exposição à radiação em seres humanos.
Quando surgiam os primeiros sintomas?
Imagem de Kikuchi Shunkichi
Uma das características mais assustadoras da exposição intensa à radiação era que os sintomas nem sempre apareciam imediatamente.
Uma pessoa podia sobreviver à explosão e inicialmente parecer relativamente bem.
Depois, poderia começar a apresentar náuseas, vômitos, febre, fraqueza, diarreia, perda de apetite, queda de cabelo, sangramentos, infecções e alterações nas células do sangue.
A intensidade dependia principalmente da dose de radiação recebida e de outros fatores, como distância do hipocentro e condições de proteção.
Por que o cabelo caía?
A queda de cabelo, chamada epilação, é um dos sinais historicamente associados à exposição significativa à radiação. Os folículos capilares possuem células que se dividem rapidamente.
A radiação pode danificar essas células, provocando queda temporária ou, em exposições muito graves, danos permanentes.
Estudos da Radiation Effects Research Foundation (RERF) encontraram uma associação entre a ocorrência de epilação nos primeiros 60 dias após os bombardeios e maior risco posterior de mortalidade por leucemia.
A radiação destrói as células do sangue
Um dos efeitos mais perigosos da exposição intensa é o dano à medula óssea.
A medula produz células fundamentais para o organismo, incluindo glóbulos vermelhos; glóbulos brancos e plaquetas.
Quando a produção dessas células é prejudicada, podem surgir:
Anemia
A redução dos glóbulos vermelhos pode provocar fraqueza e cansaço.
Infecções
A diminuição dos glóbulos brancos compromete a capacidade de defesa do organismo.
Hemorragias
A redução das plaquetas pode facilitar sangramentos.
É uma das razões pelas quais pessoas expostas a doses muito elevadas podiam morrer mesmo depois de sobreviverem à explosão inicial.
A síndrome aguda da radiação
Em termos médicos, exposições suficientemente intensas podem provocar a síndrome aguda da radiação (SAR).
Ela ocorre quando uma grande quantidade de radiação ionizante é recebida pelo organismo em um período relativamente curto. A evolução depende da dose. Em exposições graves, podem ocorrer danos progressivos a diferentes sistemas do corpo.
Os sintomas podem incluir:
● náuseas e vômitos;
● diarreia;
● febre;
● fadiga intensa;
● queda de cabelo;
● redução das células sanguíneas;
● infecções;
● hemorragias;
● danos a órgãos.
É importante destacar que nem todo hibakusha desenvolveu síndrome aguda da radiação.
A exposição variou enormemente entre as pessoas.
A “fase de recuperação” podia ser enganosa
Um aspecto particularmente difícil dos casos graves de exposição à radiação é a possibilidade de uma fase em que os sintomas parecem diminuir.
A pessoa pode aparentemente melhorar por algum tempo.
Porém, dependendo da dose recebida, os danos celulares continuam e podem posteriormente resultar em infecções, hemorragias ou falência de órgãos.
Isso ajudou a alimentar, entre os sobreviventes de Hiroshima e Nagasaki, o temor de que uma pessoa aparentemente saudável pudesse adoecer repentinamente.
Os efeitos não terminaram em 1945
Imagem: EFE – DAI KUROKAWA
A história da “doença da bomba atômica” não termina nas primeiras semanas após os ataques.
Os pesquisadores observaram que a exposição à radiação também poderia produzir efeitos tardios, especialmente um aumento do risco de determinados tipos de câncer.
A leucemia foi um dos primeiros efeitos tardios claramente identificados. Trata-se de um câncer que afeta os tecidos responsáveis pela produção das células sanguíneas.
O aumento de casos começou a aparecer aproximadamente dois anos após a exposição, atingiu seu pico cerca de seis a oito anos depois e posteriormente diminuiu.
Os estudos com hibakusha demonstraram uma relação clara entre a dose de radiação e o risco de determinados tipos de leucemia. A RERF destaca que o aumento proporcional do risco foi particularmente importante entre pessoas expostas quando eram crianças.
Hoje, o excesso de leucemia relacionado à exposição das bombas diminuiu muito em comparação com as décadas posteriores aos bombardeios.
E os outros tipos de câncer?
A leucemia não foi o único efeito tardio. A pesquisa epidemiológica também identificou aumento do risco de diversos tumores sólidos.
Entre os tipos de câncer para os quais foram observadas associações com a radiação estão:
● câncer de tireoide;
● pulmão;
● mama;
● estômago;
● cólon;
● fígado;
● esôfago;
● bexiga;
● ovário;
● cavidade oral;
● pele não melanoma.
Ao contrário da leucemia, o excesso de risco para muitos cânceres sólidos começou a aparecer aproximadamente uma década após a exposição.
Pesquisas recentes também identificaram uma resposta estatisticamente significativa entre a dose de radiação recebida e o aumento de incidência de câncer de próstata, tumores no sistema nervoso central, câncer pancreático feminino e cancro uterino.
Além do câncer, os dados mais recentes confirmaram um excesso de risco induzido pela radiação para doenças não-cancerígenas, como o surgimento precoce de cataratas severas e doenças circulatórias/cardíacas crônicas.
O risco dependia da distância
Nem todo hibakusha ficou doente por causa da radiação. Ser sobrevivente não significa necessariamente desenvolver câncer ou síndrome aguda da radiação.
O risco varia de acordo com a exposição individual, afinal nem todos os sobreviventes receberam a mesma quantidade de radiação, além de outros fatores como a distância da pessoa em relação ao hipocentro era fundamental.
Além disso, paredes, edifícios, terrenos e outros obstáculos podiam fornecer algum grau de proteção. Por isso, duas pessoas que estavam na mesma área poderiam receber doses diferentes de radiação.
Crianças eram particularmente vulneráveis
A idade no momento da exposição também é importante.
Os estudos dos hibakusha demonstraram diferenças nos riscos de determinadas doenças dependendo da idade em que a pessoa foi exposta. No caso da leucemia, por exemplo, os efeitos foram especialmente relevantes entre aqueles expostos durante a infância.
Isso significa que uma criança exposta em 1945 poderia carregar um risco aumentado de determinadas doenças durante muitos anos.
A radiação também afetou mulheres grávidas
Outro aspecto importante foi a exposição durante a gravidez.
O desenvolvimento do feto envolve intensa multiplicação celular e determinados períodos da gestação são especialmente sensíveis à radiação.
Isso acarretou em um um pico drástico de abortos espontâneos e natimortos nos meses seguintes a agosto de 1945.
Entre os bebês que conseguiram nascer vivos, a taxa de mortalidade neonatal e infantil nos primeiros anos de vida foi altíssima devido à fragilidade de seus sistemas imunológicos, que foram danificados pela radiação.
Além disso, houve muitos casos de bebês que nasceram com sequelas físicas e cognitivas, dentre eles, casos de Microcefalia por Radiação Atômica (Genbaku Shōtōshō / 原爆小頭症).
Pesquisas realizadas posteriormente com os sobreviventes constataram que os bebês expostos no útero que sobreviveram à infância carregaram mutações celulares silenciosas.
Ao atingirem a idade adulta, manifestaram um risco muito mais elevado do que a população comum para o desenvolvimento de tumores sólidos, especialmente câncer de tireoide, estômago, fígado e pulmão.
A doença era visível apenas por fora?
Não. Alguns dos efeitos mais importantes da radiação eram invisíveis.
Uma pessoa podia não apresentar queimaduras graves ou ferimentos externos e ainda assim ter sofrido exposição significativa.
Esse aspecto foi especialmente angustiante para os sobreviventes.
O dano causado pela radiação podia ocorrer em nível celular e não necessariamente produzir sinais externos imediatamente.
“Doença da bomba” e o medo entre os sobreviventes
Além dos efeitos físicos, a exposição trouxe uma enorme carga psicológica e social.
Muitos hibakusha passaram a viver com o medo de:
● desenvolver câncer;
● morrer subitamente;
● transmitir problemas aos filhos;
● sofrer discriminação;
● não conseguir emprego;
● ser rejeitados para casamento.
Durante décadas, algumas pessoas evitaram revelar que eram sobreviventes.
O preconceito contra os hibakusha tornou-se uma dimensão dolorosa da história pós-guerra.
O medo de ter filhos
Uma das preocupações mais persistentes entre os hibakusha foi a possibilidade de que a exposição à radiação provocasse alterações genéticas transmissíveis aos filhos e posteriormente aos netos.
No entanto, exames moleculares e genéticos contínuos realizados nos filhos dos Hibakushas (segunda geração) continuam demonstrando nenhum aumento de risco de mutações ou anomalias hereditárias causadas pela exposição prévia dos pais.
O nascimento da pesquisa sobre os hibakusha
Após os bombardeios, médicos e pesquisadores começaram a documentar os efeitos observados nas populações de Hiroshima e Nagasaki.
Posteriormente, foi criada a Atomic Bomb Casualty Commission (ABCC).
Em 1975, a ABCC e a organização japonesa correspondente deram origem à Radiation Effects Research Foundation (RERF), uma instituição conjunta Japão-EUA dedicada ao estudo dos efeitos da radiação.
A RERF mantém atualmente um dos mais importantes conjuntos de dados científicos sobre os efeitos de longo prazo da exposição às bombas atômicas.
O papel do Atomic Bomb Disease Institute
Em Nagasaki, a pesquisa médica ganhou uma instituição especializada.
O Atomic Bomb Disease Institute (ABDI), da Universidade de Nagasaki, foi criado em 1962 com foco no atendimento médico e na pesquisa epidemiológica relacionada aos sobreviventes das bombas atômicas.
Atualmente, o instituto continua pesquisando os efeitos da radiação em áreas que vão da biologia celular à medicina clínica e à saúde pública.
A importância dos hibakusha para a ciência
Os hibakusha tornaram-se fundamentais para a compreensão dos efeitos da radiação ionizante. Acompanhados por décadas, eles ajudaram os pesquisadores a responder perguntas como:
Quanto tempo depois da exposição os cânceres aparecem?
Como o risco varia conforme a dose?
A idade influencia o risco?
Quais órgãos são mais vulneráveis?
Como o risco muda ao longo da vida?
Existem efeitos hereditários comprováveis?
Poucas populações humanas foram acompanhadas por tantas décadas com tamanha profundidade.
Uma consequência científica inesperada
A tragédia de Hiroshima e Nagasaki produziu uma enorme quantidade de informações científicas que posteriormente ajudaram a medicina e a proteção radiológica.
O conhecimento adquirido contribuiu para compreender riscos associados a:
● exposição ocupacional;
● acidentes nucleares;
● radioterapia;
● exames médicos;
● outras fontes de radiação ionizante.
Isso não diminui a dimensão humana da tragédia, mas demonstra como o estudo das consequências ajudou a proteger gerações futuras.
Hiroshima e Nagasaki como centros de memória
A chamada “doença da bomba atômica” representa uma das faces mais dolorosas e duradouras de Hiroshima e Nagasaki.
Não se trata de uma única enfermidade, mas de um conjunto de efeitos provocados pela exposição à radiação, que podem incluir a síndrome aguda da radiação e, a longo prazo, o aumento do risco de leucemia e diversos tipos de câncer.
O mais impressionante é que os efeitos não terminaram em 6 e 9 de agosto de 1945. Para muitos sobreviventes, a guerra continuou dentro do próprio corpo durante anos ou décadas.
Por fim, vale lembrar que a “doença da bomba atômica” não se limita apenas a uma questão médica ou histórica, mas um alerta permanente sobre as consequências que uma arma nuclear pode deixar muito depois de a explosão desaparecer.
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