Incidente do Correio de Maoka: a tragédia das “Nove Donzelas” em 20 de agosto de 1945

Conheça o Incidente do Correio de Maoka, ocorrido em 20 de agosto de 1945, e a trágica história das nove telefonistas de Karafuto.
Cinco dias depois de o Japão anunciar sua rendição, a guerra ainda não havia terminado para todos, pelo menos não na Ilha Sacalina, antigo território do Japão.
Em 20 de agosto de 1945, a cidade de Maoka, em Sacalina do Sul, foi palco de uma das tragédias mais dolorosas dos últimos dias da Segunda Guerra Mundial: o chamado Incidente do Correio de Maoka, que ficou conhecido no Japão como a tragédia das “Nove Donzelas”.
Naquele dia, nove jovens operadoras de telefonia cometeram suicídio coletivo dentro do escritório postal enquanto as forças soviéticas avançavam sobre a cidade.
O episódio tornou-se um dos símbolos da violência e do desespero vividos pela população japonesa de Karafuto nos últimos dias da guerra.
O que foi o Incidente do Correio de Maoka?
O Incidente do Correio de Maoka (Maoka Yūbinkyoku Jiken, 真岡郵便電信局事件) aconteceu em 20 de agosto de 1945, na então cidade japonesa de Maoka, localizada em Karafuto, no sul da ilha de Sacalina, hoje conhecida como Kholmsk, Rússia.
O episódio ocorreu durante a invasão soviética de Karafuto, iniciada em agosto de 1945, depois que a União Soviética declarou guerra ao Japão.
Embora Tóquio já tivesse anunciado a aceitação dos termos de rendição em 15 de agosto, os combates continuaram em algumas regiões. Em Maoka, tropas soviéticas desembarcaram em 20 de agosto, provocando confrontos e uma situação de extremo caos.
A guerra continuou depois de 15 de agosto
A União Soviética havia declarado guerra ao Japão em 8 de agosto e iniciou a ofensiva contra territórios japoneses no dia seguinte.
Navios da Frota do Pacífico Norte Soviética iniciaram um pesado bombardeio naval contra o porto de Maoka. Sob forte neblina, tropas de fuzileiros desembarcaram na cidade.
Os cerca de 3.400 defensores japoneses, pegos de surpresa pela quebra do cessar-fogo tático esperado, revidaram abrindo combate em meio a uma densa população de civis refugiados que tentavam fugir do porto
A população de Maoka encontrava-se em uma situação particularmente dramática. Aproximadamente 6 mil moradores já haviam sido evacuados quando o ataque começou, mas milhares de pessoas ainda aguardavam a oportunidade de deixar a cidade.
Maoka sob ataque
Na manhã de 20 de agosto, navios soviéticos chegaram à região portuária de Maoka.
O desembarque foi acompanhado por intenso combate.
Segundo registros japoneses cerca de mil pessoas morreram naquela manhã. Testemunhas afirmaram que o elevado número de mortes entre civis foi causado pela confusão entre o kokumin-fuku, o traje escolar masculino estilo europeu, e os uniformes militares.
No meio da batalha estava o Correio e Escritório Telegráfico de Maoka, responsável por uma função essencial: manter as comunicações.
Era ali que trabalhavam as jovens telefonistas posteriormente lembradas como as “Nove Donzelas” (Kyūnin no Otome, 九人の乙女).
Quem eram as “Nove Donzelas”?
Imagem: NTT East Japan
As mulheres trabalhavam como operadoras de uma central telefônica.
Seu trabalho era conectar chamadas manualmente e manter as comunicações entre diferentes pontos de Karafuto.
Naquele momento, isso significava muito mais do que um simples serviço administrativo.
A comunicação telefônica era fundamental para transmitir informações sobre a movimentação das tropas, evacuação de civis e situação das diferentes localidades.
A própria documentação histórica do governo de Hokkaido destaca que as nove operadoras permaneceram em seus postos tentando manter as comunicações mesmo quando a ofensiva soviética se aproximava.
O último contato telefônico
Um dos elementos mais conhecidos da tragédia é o último contato feito pelas operadoras.
Em meio ao avanço das tropas soviéticas, uma das jovens telefonou para outras centrais japonesas.
A mensagem transmitia que os soldados soviéticos haviam entrado no prédio e que as operadoras permaneceriam em seus postos.
A última frase foi: “Esta é a última vez. Adeus, adeus.”
O relato preservado pelo historiador Mark Ealey registra que a última comunicação partiu de Chie Ito, de 22 anos, e terminou com uma despedida aos colegas e às pessoas que estavam no Japão continental. Pouco depois, as comunicações foram interrompidas.
A morte das nove telefonistas
Imagem: YouTube/Reprodução
Quando os soldados soviéticos cercaram e invadiram o prédio dos correios, as telefonistas decidiram cumprir uma promessa prévia de não serem capturadas vivas.
Das 12 operadoras presentes, 9 morreram por envenenamento no próprio local de trabalho após tomarem cianeto. Três delas sobreviveram ou não consumiram a dose fatal.
O governo de Hokkaido descreve o episódio como a tragédia das “Nove Donzelas” e informa que elas poderiam ter evacuado mas resolveram permanecer no prédio para cumprir suas funções até que a situação se tornou insustentável.
Por que elas não deixaram o local?
Essa é uma das perguntas centrais relacionadas ao Incidente de Maoka.
Os relatos tradicionais japoneses enfatizam o senso de dever das telefonistas, que teriam decidido permanecer em seus postos para manter as comunicações durante a emergência.
O governo de Hokkaido afirma que elas não abandonaram o escritório mesmo quando o ataque soviético se aproximava.
Ao mesmo tempo, a história precisa ser compreendida dentro do contexto de uma sociedade em guerra, na qual ideias de dever, sacrifício e honra tinham enorme influência. Também havia um clima de medo extremo diante do avanço das tropas soviéticas.
Uma tragédia cinco dias depois da rendição
O confronto direto terminou em 22 de agosto com a vitória soviética e a captura do porto.
O Incidente do Correio de Maoka é frequentemente lembrado como parte das últimas batalhas da Segunda Guerra Mundial no Pacífico. A resistência japonesa em Karafuto continuou mesmo depois do anúncio da rendição.
Isso aconteceu porque as ordens de cessar-fogo e rendição demoraram a ser efetivamente implementadas em algumas regiões. As operações soviéticas também avançaram pelas Ilhas Curilas, criando outro capítulo complexo dos últimos dias da guerra.
Assim, o dia 15 de agosto não representou o fim imediato de todas as operações militares.
O monumento às “Nove Donzelas”
Imagem: Wikimedia Commons
A memória das telefonistas sobrevive no Japão.
Em Wakkanai, Hokkaido, foi erguido o Monumento das Nove Donzelas (Kyūnin no Otome no Hi), associado ao memorial Hyōsetsu no Mon.
O local presta homenagem às jovens que morreram em Maoka e também às muitas outras vítimas japonesas de Karafuto.
Segundo o governo da província de Hokkaido, uma cerimônia de oração pela paz é realizada todos os anos em 20 de agosto, data do incidente.
Companhias teatrais em Sapporo e em outros lugares também costumam encenar peças baseadas na tragédia.
Estudantes do ensino médio, da mesma idade das telefonistas falecidas, interpretam os papéis, o que lhes permite sentir empatia pelas emoções intensas vividas naquele momento tão trágico que marcou o extremo norte do Japão.
“Nove Donzelas”: um símbolo da memória da guerra
Com o passar das décadas, a história das telefonistas tornou-se conhecida como a tragédia das “Nove Donzelas de Maoka”.
Livros, documentários, peças e produções televisivas ajudaram a manter a história na memória japonesa.
Entre as obras que abordaram o episódio estão o filme “Karafuto 1945: Natsu no Hyōsetsu no Mon” e o drama televisivo “Kiri no Hi”, exibido em 2008.
Entretanto, a representação da tragédia também gerou debates sobre como acontecimentos históricos devem ser retratados.
O legado do Incidente de Maoka
O Incidente do Correio de Maoka, ocorrido em 20 de agosto de 1945, permanece como um dos episódios mais dolorosos dos últimos dias da Segunda Guerra Mundial.
A história das nove telefonistas é lembrada como um exemplo de dedicação ao trabalho, mas também como uma tragédia provocada por uma guerra que continuou mesmo depois de o Japão ter anunciado sua rendição.
Mais de oito décadas depois, a história continua sendo lembrada em monumentos, livros e cerimônias.
E talvez sua maior mensagem seja justamente essa: o fim de uma guerra não pode ser medido apenas pela assinatura de um documento ou por um anúncio oficial. Para aqueles que estão no meio do conflito, a guerra só termina quando a violência realmente cessa.
Curiosidades sobre o Incidente do Correio de Maoka
Data: 20 de agosto de 1945
Local: Maoka, então Karafuto; atualmente Kholmsk, Sacalina
Contexto: invasão soviética de Karafuto
Personagens centrais: 12 operadoras telefônicas, das quais nove morreram
Nome pelo qual ficou conhecido: Tragédia das “Nove Donzelas”
Rendição japonesa anunciada: 15 de agosto de 1945
Rendição formal: 2 de setembro de 1945
Memorial: Monumento das Nove Donzelas, em Wakkanai, Hokkaido
Cerimônia memorial: realizada anualmente em 20 de agosto
Deixe um comentário