Kimon: o “Portal do Demônio” e a direção nordeste, considerada a mais temida do Japão

Kimon, o Portal do Demônio e a direção mais temida do Japão

Descubra o que é Kimon, o “Portal do Demônio” do Japão e por que o nordeste é considerado uma direção azarada, segundo o Feng Shui (Onmyōdō).

No imaginário tradicional japonês, algumas direções eram consideradas capazes de trazer boa ou má sorte. Entre elas, nenhuma despertava tanto temor quanto o Kimon (鬼門), literalmente “Portal do Demônio”.

Associado ao nordeste, o Kimon era tradicionalmente visto como uma direção vulnerável à entrada de espíritos malignos, infortúnios e influências negativas.

A crença teve origem em antigas concepções chinesas e foi incorporada ao Japão, onde passou a influenciar a arquitetura, o planejamento urbano, a construção de templos e até a localização de palácios.

Mais do que uma simples superstição, o Kimon revela como religião, cosmologia, arquitetura e vida cotidiana estiveram profundamente conectadas na história japonesa.

O que significa Kimon (鬼門)?

Kimon, o Portal do Demônio e a direção mais temida do JapãoImagem: ie-mon3777.com

A palavra japonesa Kimon (鬼門) é formada por dois kanji:

鬼 (oni) = demônio, ogro ou espírito maligno;
門 (mon) = portão, portal ou entrada.

Assim, 鬼門 significa literalmente “Portal dos Demônios”.

Tradicionalmente, o Kimon corresponde à direção nordeste (丑寅, ushitora).

A expressão ushitora combina os nomes de dois signos do antigo zodíaco chinês:

丑 (ushi) = boi
寅 (tora) = tigre

A associação pode parecer curiosa, mas ajudou a formar a representação tradicional dos oni, frequentemente retratados com chifres de boi e uma tanga ou pele de tigre.

Além disso a associação dos oni com o Kimon ajudou a consolidar a imagem do nordeste como uma direção por onde poderiam chegar forças perigosas.

Por que o nordeste é considerado perigoso?

Templo Tsu Kannon, Portão NiomonImagem: photo-ac

A ideia do Kimon chegou ao Japão a partir de conceitos cosmológicos desenvolvidos na China e posteriormente incorporados à tradição japonesa.

O nordeste era considerado uma direção desfavorável porque estaria relacionado à passagem por onde forças negativas poderiam entrar.

Essa concepção foi particularmente importante durante o período Heian (794–1185).

Na época, conceitos de Onmyōdō (陰陽道) — como “Yin e Yang” — eram utilizados para interpretar a relação entre o mundo humano, a natureza, os astros e as diferentes direções.

Especialistas conhecidos como onmyōji (陰陽師) aconselhavam membros da aristocracia sobre datas, deslocamentos, construções e direções consideradas favoráveis ou perigosas.

O Kimon e o Onmyōdō

Kimon e Urakimon Imagem: photo-ac

O Onmyōdō (geomancia japonesa) combinava elementos provenientes do pensamento chinês, como:

● Yin e Yang;
● Cinco Elementos;
● astrologia;
● calendários;
● adivinhação;
● cosmologia;
● interpretação das direções.

No Japão, essas ideias foram adaptadas às tradições locais e passaram a exercer influência especialmente entre a aristocracia.

O Kimon era uma das manifestações dessa visão de mundo.

Se o nordeste era considerado uma direção de risco, era necessário encontrar maneiras de proteger edifícios e cidades contra possíveis influências negativas.

O Kimon e Abe no Seimei

Kimon e Abe no Seimei

Abe no Seimei (921–1005) tornou-se uma das figuras mais famosas da tradição do Onmyōdō.

Historicamente, ele serviu à corte imperial como especialista em práticas relacionadas ao calendário, astrologia e adivinhação.

Com o passar dos séculos, porém, sua figura foi cercada por lendas.

Histórias posteriores transformaram Seimei em uma espécie de mestre sobrenatural capaz de:

● controlar espíritos;
● realizar exorcismos;
● prever acontecimentos;
● utilizar talismãs;
● proteger pessoas contra forças malignas.

Por isso, sua imagem tornou-se inseparável do imaginário moderno relacionado ao Onmyōdō e ao Kimon.

O Urakimon: o “O Portal Traseiro dos Demônios”

Portão Niomon do Templo Daishoin, MiyajimaImagem: photo-ac

A direção oposta ao Nordeste é o Sudoeste, conhecida como Urakimon (裏鬼門).

Ela também é considerada uma direção perigosa e vulnerável que requer os mesmos cuidados arquitetônicos e espirituais de proteção.

Construções importantes poderiam receber proteção em ambas as direções.

Como os japoneses protegiam o Kimon?

Morijio (sal purificador) kimonImagem: photo-ac

Para neutralizar os efeitos nocivos do Kimon, os japoneses utilizam vários amuletos, rituais e técnicas de purificação chamados de Kimon-yoke (鬼門除け).

Eles servem para blindar não só o Kimon (Nordeste) como também o Urakimon (Sudoeste) contra a entrada de demônios e azar. Veja alguns exemplos:

Manter os cantos impecáveis: Nunca acumule lixo, objetos quebrados ou bagunça nas áreas Nordeste e Sudoeste da casa ou do quintal. A sujeira “ativa” o lado maligno do portal.

Evitar umidade e água parada: Se houver um banheiro ou cozinha nesses pontos (o que é evitado na arquitetura tradicional), mantenha-os sempre secos, bem ventilados e com a tampa do vaso sanitário fechada.

Plantar Azevinho Sagrado (Nandin / Nanten): Essa planta é colocada no jardim ao Nordeste porque seu nome soa como “reverter a dificuldade” em japonês.

Folhas de azevinho usadas para afastar os maus espíritos durante o Setsubun Imagem: photo-ac

Plantar Hiiragi (Osmanthus heterophyllus): Suas folhas possuem bordas espinhosas. No folclore, acredita-se que os espinhos furam os olhos dos demônios que tentam passar, impedindo sua entrada.

Sal de Purificação (Morijio): Pequenos cones de sal grosso colocados em pratinhos nos cantos nordeste da propriedade.

Canto Cortado (Sumikiri): Dizem que se deixar uma quina de 90 graus cortada ou chanfrada para dentro, você “deleta” o canto Nordeste da propriedade.

Houiyoke proteção amuleto contra o mal Imagem: photo-ac

Kimon-yoke Ofuda (talismã de papel ou madeira): Esse talismã específico deve ser colado em uma parede do cômodo que fica no Nordeste, posicionado no alto (acima dos olhos) e voltado para a direção Nordeste, funcionando como um escudo visual.

Cercas Brancas e Pedregulhos: Cobrir o chão do quintal no quadrante Nordeste com pedras brancas purificadas (estilo jardim zen) ajuda a refletir e dissipar a energia pesada.

Estátuas de Macacos (Saru): O macaco representa a direção oposta ao Kimon no zodíaco. Além disso, a palavra para macaco em japonês (saru) tem o mesmo som do verbo “afastar/ir embora”. Portanto, uma estatueta de macaco no Nordeste “afastaria” o mal.

Enryaku-ji: O Kimon de Kyoto

Templo Enryaku-ji no Monte Hiei Imagem: photo-ac

Um dos exemplos mais famosos da relação entre Kimon e planejamento urbano está em Kyoto.

Quando Heian-kyō, a atual Kyoto, foi estabelecida como capital imperial em 794, a cosmologia chinesa e o Onmyōdō tiveram influência sobre a organização simbólica da cidade.

Kyoto apresenta um traçado urbano ordenado, com ruas paralelas de norte a sul e de leste a oeste, sendo muito fácil identificar os cantos nordeste e sudoeste em qualquer terreno com frente para a rua.

O Monte Hiei estava localizado na direção nordeste e por esse motivo foi estabelecido o enorme complexo budista de Enryaku-ji, fundado pelo monge Saichō no final do século VIII e início do século IX.

O templo Enryaku-ji passou então a ser associado à proteção espiritual da antiga capital japonesa, protegendo a cidade de todos os males.

O urakimon de Kyoto

Santuário Iwashimizu Hachimangu, em KyotoImagem: photo-ac

Como vimos acima, não basta apenas proteger o kimon (nordeste). O urakimon (sudoeste) também é igualmente importante. Nesse caso, o Santuário Xintoísta Iwashimizu Hachimangū, localizado no Monte Otokoyama é considerado o urakimon de Kyoto.

O que é particularmente interessante é que um templo budista guarda o kimon, enquanto um santuário xintoísta protege o urakimon — essa disposição foi baseada no projeto de feng shui do período Heian-kyō.

Outra curiosidade é que o Templo Enryaku-ji foi fundado em 788 e o Santuário Iwashimizu Hachimangū em 859, o que significa que por 71 anos o urakimon da antiga capital japonesa ficou desprotegido. Felizmente, parece que não houve nenhum desastre ou guerra importante registrado durante esse período.

O Kimon do Palácio Imperial

Sarugatsuji, Palácio Imperial de Kyoto Imagem: photo-ac

A organização espacial de Kyoto e seus edifícios mais importantes refletia uma preocupação mais ampla com a harmonia entre o ambiente construído e as forças cosmológicas. Um exemplo é o próprio Palácio Imperial de Kyoto.

No canto nordeste, a muralha forma um recuo em forma de L. Essa característica é conhecida como “Sumikiri” (隅切り), um elemento arquitetônico tradicional que foi feito para “eliminar” a quina que supostamente atrairia os demônios.

Sob o telhado desse mesmo canto recuado (Saru-ga-tsuji), há uma estátua esculpida de um macaco guardião segurando um bastão sagrado para afastar os maus espíritos.

Kimon e os santuários de Kyoto

Além do templo Enryaku-ji, no Monte Hiei, Kyoto possui diversos exemplos de locais religiosos que foram associados à proteção da cidade. Entre os mais conhecidos estão:

Santuário Kamigamo (上賀茂神社)

Santuário Kamigamo em Kyoto Imagem: photo-ac

Fundado em 678 d.C., o Santuário Kamigamo (junto ao seu irmão Shimogamo) atua historicamente como o principal guardião espiritual contra o Kimon.

Por estarem estrategicamente localizados no nordeste da antiga capital (Heian-kyo), estes santuários ancestrais do Complexo Kamo foram incumbidos pela Corte Imperial de proteger a cidade contra essas forças negativas.

O santuário também abriga Kamo Wakeikazuchi no Okami, o deus do trovão. À frente do salão principal do santuário, encontram-se dois montes cônicos de areia chamados Tatezuna (立砂), representando a montanha sagrada Kouyama.

Dizem que esta montanha localizada a cerca de dois quilômetros ao norte do santuário Kamigamo é o local onde o deus do trovão desceu à Terra.

Kamigoryō-jinja (上御霊神社)

Quando a capital foi transferida para Heian-kyō (atual Kyoto) em 794 pelo Imperador Kanmu, o Santuário Kamigoryo foi estabelecido exatamente na esquina nordeste (Kimon) do Palácio Imperial para atuar como um escudo protetor da corte.

Além disso, o santuário consagra os chamados Goryō (espíritos de nobres que morreram injustamente em disputas políticas e se tornaram almas vingativas).

Ao colocá-los estrategicamente no Kimon, a corte pretendia pacificar essas almas furiosas para que elas passassem a usar seu imenso poder espiritual para proteger a cidade contra calamidades externas, em vez de amaldiçoá-la.

Shimogoryō-jinja (下御霊神社)

O santuário foi criado em 863 para acalmar os Goryō, espíritos de pessoas mortas em circunstâncias trágicas que poderiam, segundo crenças antigas, causar calamidades. Acreditava-se que o rancor dessas almas causava epidemias e catástrofes na cidade.

Em 1590, Toyotomi Hideyoshi moveu o Santuário Shimogoryō para a sua localização atual na Rua Teramachi, para situa-lo estrategicamente a leste do Palácio Imperial de Kyoto com o objetivo de reforçar a linha de defesa espiritual da residência do Imperador.

Essas tradições mostram que a proteção espiritual da capital era construída por meio de uma verdadeira paisagem religiosa.

Kimon e o festival Setsubun

SetsubunImagem: photo-ac

A relação entre oni e proteção contra o mal também aparece no famoso Setsubun.

Durante o Setsubun, é tradicional realizar o mamemaki, no qual grãos de soja são lançados enquanto se diz: “Oni wa soto! Fuku wa uchi!”

Isso significa: “Demônios para fora! Boa sorte para dentro!”

O ritual simboliza a expulsão das influências negativas e a entrada da boa sorte.

Embora Setsubun não seja simplesmente um ritual específico do Kimon, ambos compartilham a ideia de proteger a casa contra forças negativas.

Kimon nas casas japonesas modernas

Kimon e Urakimon Imagem: photo-ac

Para a maioria dos japoneses contemporâneos, o Kimon não faz parte das decisões cotidianas da mesma maneira que acontecia em períodos históricos.

Atualmente essa superstição é mais notada especialmente na região de Kyoto, onde o “Kimon” costuma influenciar a arquitetura das casas.

Com isso, muitos arquitetos evitam colocar banheiros, cozinhas, portas de entrada, grandes janelas ou fossas sépticas no canto Nordeste da planta.

Acredita-se que banheiros e fossas ali “poluem” a energia e atraem doenças, enquanto portas principais e grandes janelas convidam os demônios a entrar.

E como explicamos mais acima, há uma série de coisas que podem ser feitas para proteger essa área.

Kimon: o “Portal do Demônio” que ajudou a moldar Kyoto

Muito mais do que uma antiga superstição, o Kimon (鬼門) é uma chave para compreender parte da história religiosa e arquitetônica do Japão.

A ideia de que o nordeste poderia funcionar como uma passagem para forças negativas influenciou o planejamento de Kyoto, a localização de templos e santuários e diversas práticas de proteção.

O Monte Hiei e o Enryaku-ji, especialmente, tornaram-se símbolos dessa proteção espiritual da antiga capital.

Hoje, o Kimon sobrevive principalmente como elemento cultural e histórico, mas sua presença ainda pode ser percebida em templos, santuários, arquitetura tradicional e na própria representação dos oni.

No Japão, portanto, até mesmo uma direção pode contar uma história. E, no caso do nordeste, essa história começa com uma porta imaginária — o Portal dos Demônios.

Imagem do topo: photo-ac

Author photo
Publication date:
Sou apaixonada pelo Japão e sua cultura. Resolvi criar esse blog com o intuito de fazer com que mais e mais pessoas conheçam essa cultura tão rica, incrível e fascinante!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *