Yoshiko Okada: a atriz japonesa que fugiu para a União Soviética em 1938

Conheça a história de Yoshiko Okada, a famosa atriz japonesa que atravessou a fronteira para a União Soviética em 1938 e acabou presa por espionagem.
Em janeiro de 1938, uma das atrizes mais conhecidas do Japão desapareceu na ilha de Sacalina. Yoshiko Okada (岡田嘉子) havia deixado o país ao lado do diretor teatral Ryōkichi Sugimoto e atravessado clandestinamente a fronteira com a União Soviética.
O episódio provocou enorme repercussão no Japão. Jornais chegaram a especular que a atriz havia morrido ou cometido suicídio junto com o companheiro. Pouco depois, porém, veio a confirmação: Okada estava na União Soviética.
O que parecia uma história de amor e fuga em direção a um país que ela imaginava oferecer novas possibilidades artísticas rapidamente se transformou em uma experiência brutal durante o período das Grandes Purgas de Stalin.
A atriz acabaria presa, condenada a dez anos de trabalhos forçados em um campo de concentração e separada definitivamente de Sugimoto, que foi executado. Décadas depois, Yoshiko Okada permaneceria na União Soviética até sua morte em Moscou, em 1992.
Quem foi Yoshiko Okada?
Yumeko Aizome e Yoshiko Okada em Tonari no Yae-chan (1934) Imagem: Wikimedia Commons
Yoshiko Okada nasceu em 21 de abril de 1902, na província de Hiroshima. Filha de um jornalista, cresceu em uma família que se mudou diversas vezes, inclusive para a Coreia, então sob domínio japonês.
Seu pai tinha posições consideradas liberais para a época, e essa atmosfera contribuiu para a formação de uma personalidade independente.
Ainda jovem, Okada decidiu seguir carreira artística. Em 1919, iniciou sua trajetória no teatro e posteriormente passou também ao cinema.
Durante as décadas de 1920 e 1930, tornou-se uma estrela do teatro e do cinema japonês, sendo considerada uma das grandes atrizes de sua geração.
Sua vida pessoal também chegou às manchetes.
Em 1927, durante as filmagens de A Dama das Camélias (Camille), Okada desapareceu juntamente com o ator Ryōichi Takeuchi, com quem posteriormente se casou. O episódio causou um escândalo e contribuiu para a demissão dos dois pela Nikkatsu.
Anos depois, ela protagonizaria uma fuga muito mais arriscada.
O encontro com Ryōkichi Sugimoto
Na década de 1930, Okada aproximou-se do diretor teatral Ryōkichi Sugimoto, ligado ao teatro e interessado na dramaturgia russa.
Sugimoto era simpatizante do comunismo e tinha interesse pelo trabalho do célebre diretor soviético Vsevolod Meyerhold, uma das figuras mais inovadoras do teatro do século XX.
A relação entre Okada e Sugimoto aconteceu em um momento particularmente turbulento.
O Japão havia entrado em uma fase de crescente militarização, e a guerra contra a China, iniciada em grande escala em 1937, intensificava o controle sobre manifestações políticas e culturais.
Ao mesmo tempo, Sugimoto enfrentava problemas relacionados às suas atividades políticas. Foi nesse contexto que os dois começaram a considerar deixar o Japão.
Por que eles decidiram fugir para a União Soviética?
Insatisfeitos com o crescente controle militarista e a censura no Japão, a decisão de ir para a União Soviética não era simplesmente de interesse artístico.
A União Soviética também era vista por parte da esquerda japonesa como um país onde novas formas de arte e organização social estavam sendo experimentadas.
Eles decidiram então viajar até à União Soviética e buscar novas possibilidades no teatro, incluindo contato com o trabalho de Meyerhold em Moscou.
Mas havia uma enorme contradição. Enquanto Okada e Sugimoto enxergavam a União Soviética como um possível destino para suas aspirações políticas e artísticas, o país estava vivendo o período mais violento das Grandes Purgas de Stalin.
A repressão política atingia artistas, intelectuais, militares, funcionários públicos e cidadãos acusados de espionagem ou de atividades contra o Estado.
Foi justamente nesse ambiente hostil que os dois chegaram.
A fuga aconteceu no inverno de 1938
Ryokichi Sugimoto e Yoshiko Okada
Em 27 de dezembro de 1937, Okada e Sugimoto partiram da estação de Ueno, em Tóquio, seguindo em direção ao norte. Passaram por Hokkaido e chegaram a Sacalina, então dividida entre Japão e União Soviética.
A fronteira internacional passava aproximadamente pelo paralelo 50° norte. Em 31 de dezembro, os dois estavam hospedados em uma pousada em Shikuka, localidade que atualmente corresponde a Poronaysk, na parte russa de Sacalina.
Poucos dias depois, em 3 de janeiro de 1938, ocorreu a travessia.
Atravessando a fronteira em meio à neve
Ryokichi Sugimoto e Yoshiko Okada atravessando a fronteira
A travessia ocorreu durante uma forte tempestade de neve. Segundo relatos históricos, Okada e Sugimoto apresentaram aos japoneses uma justificativa para se aproximarem da região fronteiriça e, depois, seguiram em direção ao território soviético.
A notícia de seu desaparecimento rapidamente chegou ao Japão. Como ninguém sabia inicialmente onde o casal estava, os jornais começaram a publicar manchetes especulando sobre o destino da famosa atriz.
Algumas reportagens chegaram a sugerir que os dois poderiam ter morrido ou cometido suicídio. A verdade, porém, era muito diferente. Eles haviam atravessado a fronteira.
O Japão descobriu que Okada estava viva
Em 10 de janeiro de 1938, autoridades soviéticas informaram ao consulado japonês em Alexandrovsk que Okada e Sugimoto haviam sido conduzidos para o continente.
O governo japonês solicitou que os dois fossem devolvidos.
Os soviéticos responderam que, após investigação, haviam concluído que os japoneses tinham entrado voluntariamente em território soviético.
Mas a situação dos dois era muito mais grave do que parecia. Eles haviam entrado ilegalmente no país em um momento de intensa paranoia soviética em relação a espionagem estrangeira. E, para piorar, eram japoneses.
O Japão e a União Soviética estavam em lados geopoliticamente opostos e mantinham uma relação marcada por forte desconfiança.
A chegada à União Soviética não foi como eles imaginavam
A aventura que deveria representar liberdade artística rapidamente se transformou em um terrível pesadelo. Okada e Sugimoto foram separados poucos dias depois da entrada no território soviético.
Os agentes soviéticos passaram a suspeitar que os dois fossem espiões. Segundo documentos e relatos posteriormente conhecidos, ambos foram submetidos a interrogatórios intensos e pressionados a confessar atividades de espionagem.
A própria Okada relataria posteriormente que sofreu interrogatórios exaustivos. Em uma petição apresentada às autoridades soviéticas, ela afirmou ter sido interrogada durante dias, sem descanso adequado, e pressionada a admitir que era uma espiã.
O caso acabou envolvendo Meyerhold
Yoshiko Okada e Vsevolod Meyerhold
A história ganhou uma dimensão ainda mais trágica porque as acusações feitas contra Sugimoto acabaram envolvendo outros nomes do mundo teatral. Um deles era Vsevolod Meyerhold, diretor soviético de enorme prestígio internacional.
Meyerhold havia desenvolvido técnicas revolucionárias de encenação e era uma figura importante da vanguarda teatral soviética. Mas seu estilo e suas relações com artistas estrangeiros o tornaram vulnerável durante os expurgos stalinistas.
As confissões obtidas durante as investigações contra japoneses foram utilizadas em acusações que também atingiram Meyerhold, que acabou preso e executado em 1940.
Sugimoto foi condenado à morte
Em 27 de setembro de 1939, ocorreu o julgamento de Okada e Sugimoto em Moscou.
Okada foi condenada a dez anos de privação de liberdade.
Sugimoto recebeu uma sentença muito mais severa. Ele foi condenado à morte e executado em 26 de dezembro de 1939.
Durante muitos anos, Okada acreditou que Sugimoto havia morrido de doença na prisão. A verdadeira circunstância de sua morte só seria revelada décadas mais tarde.
Os dez anos que desapareceram da vida de Okada
Yoshiko Okada durante o auge da sua carreira artística na década de 30.
Após sua condenação, Okada foi enviada para um campo do sistema soviético de trabalho forçado na região de Kirov.
Ela continuou tentando obter uma revisão de sua sentença e escreveu petições às autoridades soviéticas. Em 1943, foi transferida para uma prisão do NKVD em Moscou.
Ela só seria libertada em 4 de dezembro de 1947.
Esse período ficou conhecido posteriormente como uma espécie de década perdida da atriz. Durante anos, as informações oficiais sobre sua vida nesse intervalo permaneceram obscuras.
Relatos posteriores indicaram que as autoridades soviéticas chegaram a construir uma narrativa oficial sobre suas atividades durante os anos de prisão.
O retorno de Yoshiko Okada ao teatro
Aleksêi Gribov e a atriz japonesa Okada Yoshiko no estúdio da Rádio de Moscou. Imagem: Akira Seita / Sputnik
Depois de ser libertada, Okada permaneceu na União Soviética. Ela passou a trabalhar na Rádio Moscou, participando de transmissões em japonês. Também estudou no Instituto Estatal de Artes Teatrais Lunacharsky, em Moscou.
A atriz conseguiu retornar aos palcos e continuou sua carreira artística em território soviético. Mais tarde, também participou de projetos cinematográficos.
Sua trajetória artística havia sobrevivido a uma década de prisão e repressão.
O Japão só voltou a saber de Okada depois da guerra
Durante anos, seu destino permaneceu pouco conhecido no Japão. Somente depois da Segunda Guerra Mundial começaram a surgir informações mais concretas.
Em 1952, a visita a Moscou da parlamentar japonesa Tomi Kōra ajudou a confirmar publicamente que Okada estava viva. A imprensa japonesa voltou a publicar notícias sobre a atriz que havia desaparecido na fronteira de Sacalina.
Para o público japonês, a mulher que havia desaparecido em 1938 reaparecia agora em uma União Soviética completamente diferente daquela que havia imaginado encontrar.
A verdade sobre Sugimoto veio décadas depois
Um dos aspectos mais dolorosos da história foi a descoberta da verdadeira morte de Sugimoto. Durante anos, Okada acreditou que ele havia morrido de doença na prisão.
Somente após a abertura de novos documentos durante o período da perestroika ela soube que Sugimoto havia sido executado.
Segundo documentos posteriormente divulgados, ele havia sido condenado à morte e executado em 1939. A descoberta acrescentou uma nova dimensão à tragédia.
O homem com quem ela havia atravessado a fronteira havia desaparecido para sempre poucas semanas depois de seu julgamento.
Okada acreditava que Sugimoto havia assumido a culpa?
Documentos divulgados posteriormente mostram que Okada carregou enorme peso emocional em relação ao destino de Sugimoto.
Em uma petição escrita durante seu período de detenção, ela afirmou que havia sido pressionada a confessar espionagem e que Sugimoto teria assumido parte da culpa para protegê-la. Essa questão tornou-se um dos pontos mais dramáticos de sua história.
É importante, porém, distinguir entre o que está documentado em suas próprias declarações e aquilo que pode ser comprovado independentemente.
O sistema repressivo soviético daquele período produziu numerosos casos de confissões obtidas sob coerção, tornando particularmente complexa a reconstrução dos acontecimentos.
A mulher que decidiu permanecer na União Soviética
Yoshiko Okada retornou ao Japão em 1972 e permaneceu no país por 14 anos
Apesar de tudo o que havia acontecido, Okada não retornou definitivamente ao Japão. Ela se casou novamente na Rússia em 1950 com outro refugiado japonês, Shintaro Takiguchi e permaneceram juntos até a morte de Takiguchi, por causa de um câncer em 1971.
Ela retornou ao Japão em 1972, onde permaneceu no Japão por cerca de 14 anos. Durante esse período, Okada fez diversos trabalhos no cinema, TV e teatro.
Por ter ficado 34 anos longe do país e já estar na casa dos 70 anos de idade, o interesse da mídia e do público por Yoshiko Okada era gigantesco.
Ela interpretou a personagem Shino no aclamado filme Otoko wa Tsurai yo: Torajiro Yuuyake Koyake (1976), que faz parte da lendária e ultra-popular franquia de comédia dramática “Tora-san” comandada pelo diretor Yōji Yamada.
Ela também atuou no suspense político Kōtei no inai hachigatsu (1978), dirigido por Satsuo Yamamoto. Okada também retornou aos palcos japoneses estrelando e dirigindo peças, incluindo a adaptação da obra clássica russa “Talentos e Fãs” (de Aleksandr Ostrovsky).
Na Televisão, tornou-se uma figura frequente em programas de variedades da TV japonesa, dando entrevistas marcantes em talk-shows lendários como o Tetsuko’s Room (Tetsuko no Beya) e participando como convidada fixa em programas educativos da emissora NHK.
Mesmo trabalhando e sendo tratada como uma grande estrela no Japão, Yoshiko declarava em entrevistas que sentia uma dualidade profunda: quando estava no Japão, sentia saudades da Rússia; quando estava na Rússia, sentia saudades do Japão.
Em 1986, ela decidiu encerrar suas atividades artísticas e retornar em definitivo para o seu apartamento em Moscou, onde viveu até falecer em 10 de fevereiro de 1992, aos 89 anos. Suas cinzas foram levadas de volta e depositadas em um cemitério em Tóquio.
Sua morte ocorreu poucos meses depois da dissolução da própria União Soviética, em dezembro de 1991. Assim, a mulher que havia atravessado a fronteira em direção à URSS em 1938 viveu o suficiente para testemunhar o fim do Estado para o qual havia fugido.
Uma atriz entre dois mundos
A história de Yoshiko Okada não pode ser reduzida simplesmente a uma “fuga romântica”. Ela envolve cinema, teatro, relações pessoais, política, repressão, espionagem, nacionalismo e as enormes transformações que marcaram o século XX.
Okada era uma estrela no Japão quando decidiu abandonar o país. Tinha uma carreira consolidada e poderia ter continuado trabalhando no cinema e no teatro japoneses.
Em vez disso, ela decidiu atravessar uma fronteira internacional durante o inverno, em um período delicado de crescente militarização japonesa. Na União Soviética, porém, encontrou uma realidade muito diferente daquela que imaginava.
Prisão, interrogatórios, condenação, separação, execução do companheiro e anos de detenção transformaram aquela fuga em uma das histórias mais dramáticas da cultura japonesa do século XX. Ainda assim, Okada sobreviveu.
Retornou ao teatro, trabalhou na rádio soviética, construiu uma nova vida em Moscou e permaneceu na União Soviética até o fim.
Sua trajetória atravessou alguns dos momentos mais turbulentos do século XX — do Japão imperial às Grandes Purgas, da Segunda Guerra Mundial ao pós-guerra e, finalmente, ao desaparecimento da própria União Soviética em 26 de dezembro de 1991.
Por isso, a história de Yoshiko Okada permanece como um dos episódios mais extraordinários — e menos conhecidos fora do Japão — da história do cinema e do teatro japonês.
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