Por que turistas continuam quebrando regras no Japão? Kyoto busca uma solução além das placas e multas

Entenda a questão de turistas não respeitarem a etiqueta e regras no Japão, em Kyoto e outras áreas turísticas e como o país tem buscado soluções.
O aumento do turismo internacional no Japão trouxe benefícios econômicos e aproximou milhões de visitantes da cultura japonesa. Mas também revelou um desafio crescente: a dificuldade de alguns turistas em compreender e respeitar regras de comportamento em templos, santuários e áreas turísticas.
Em diferentes pontos da região de Kansai, problemas como fumar nas ruas, entrar em áreas proibidas, danificar estruturas e bambuzais, desrespeitar códigos de vestimenta e ignorar regras locais continuam acontecendo com frequência.
Em muitos casos, porém, o problema não parece estar relacionado à intenção de desrespeitar a cultura japonesa, mas ao desconhecimento das regras e às diferenças culturais.
Arashiyama: quando o problema do lixo dá lugar ao cigarro
Um dos exemplos está em Arashiyama, uma das regiões turísticas mais conhecidas de Kyoto.
Durante anos, o descarte de lixo deixado por visitantes que comiam enquanto caminhavam foi uma das principais preocupações locais.
Em maio de 2025, o número de lixeiras na região aumentou de uma para quatro. A medida ajudou a reduzir a quantidade de lixo visível nas ruas.
Mas outro problema passou a chamar mais atenção: o fumo nas ruas.
Kyoto possui, desde 2007, uma regulamentação que proíbe fumar nas ruas, com aplicação de multas em áreas determinadas. Mesmo assim, visitantes continuam sendo encontrados fumando em locais onde a prática não é permitida.
Em alguns casos, a reação dos turistas demonstra que eles simplesmente desconheciam a regra. Um visitante espanhol, por exemplo, afirmou que pensava ser permitido fumar naquele local. Depois de ser informado, apagou o cigarro.
O mesmo aconteceu com alguns japoneses abordados durante a reportagem.
Onde estão as áreas para fumar?
Imagem: YouTube/Reprodução
Parte da dificuldade pode estar na própria localização das áreas destinadas aos fumantes.
Segundo o levantamento apresentado na reportagem, Arashiyama possui sete áreas designadas para fumar, mas apenas três aparecem nos mapas turísticos.
Quando a informação sobre onde é permitido fumar não é facilmente encontrada, alguns visitantes acabam fumando em locais inadequados.
Isso levanta uma questão importante: proibir é suficiente quando a alternativa permitida não está claramente indicada?
A experiência de Kyoto mostra que a fiscalização pode ser apenas uma parte da solução. Informação acessível também desempenha um papel fundamental.
Templos e santuários não são atrações comuns
Outro problema ocorre em templos e santuários. Alguns visitantes ultrapassam barreiras, entram em áreas restritas ou movimentam cercas para conseguir fotografias.
No Kodaiji Okabayashi-in, em Higashiyama, Kyoto, turistas chegaram a danificar corrimãos e mover estruturas de bambu para entrar em locais onde o acesso não era permitido.
O templo instalou câmeras de segurança, com investimento de aproximadamente 400 mil ienes. Mesmo assim, alguns visitantes continuam tentando ultrapassar as barreiras.
Por que alguns templos evitam colocar placas?
Imagem: YouTube/Reprodução
Curiosamente, o Kodaiji Okabayashi-in optou por não recolocar algumas placas de advertência que haviam sido arrancadas.
O sacerdote-chefe, Kiminori Aoyama, defende uma abordagem baseada no diálogo.
Em vez de simplesmente cercar o local com placas dizendo “proibido”, ele prefere conversar com os visitantes quando percebe uma infração.
A ideia é que uma explicação pessoal pode produzir um entendimento mais profundo do que uma simples mensagem escrita.
Para ele, ensinar o motivo de determinada regra também pode fazer com que o visitante leve esse conhecimento para outros lugares.
Quando a fotografia ultrapassa o limite
As redes sociais também ajudam a explicar parte desses conflitos.
Fotografar locais históricos e religiosos é uma das atividades mais populares entre turistas no Japão. Porém, a busca pela imagem perfeita pode levar algumas pessoas a ultrapassar barreiras ou entrar em áreas restritas.
Em locais considerados sagrados, entretanto, uma cerca de bambu não é necessariamente apenas um obstáculo físico. Ela pode representar um limite simbólico entre o espaço cotidiano e o espaço religioso.
Compreender esse significado muda a maneira como o visitante enxerga uma simples regra.
Koyasan reforça o código de vestimenta
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Em Koyasan, na província de Wakayama, outra questão ganhou destaque: a maneira de se vestir.
A região abriga o Kongobu-ji e o complexo religioso de Okunoin, considerado um dos mais importantes centros do budismo japonês.
Em 2026, placas foram instaladas em diferentes pontos para lembrar os visitantes de que estavam entrando em uma área sagrada e deveriam utilizar roupas consideradas apropriadas, evitando exposição excessiva do corpo.
A iniciativa, entretanto, não tem caráter coercitivo. O objetivo principal é conscientizar.
Alguns visitantes ainda chegaram ao local usando shorts, apesar das recomendações.
Segundo os responsáveis pelo templo, a intenção não é simplesmente impedir a entrada, mas ajudar os visitantes a compreenderem o significado religioso daquele espaço.
Uma alternativa curiosa: o manto branco
Quem chega a Koyasan sem uma roupa considerada adequada pode encontrar uma alternativa interessante. O templo oferece o shiroi, um manto branco tradicional associado às peregrinações budistas, especialmente à peregrinação de Shikoku.
Além de solucionar a questão do vestuário, a peça pode se transformar em uma oportunidade de contato com a cultura religiosa japonesa.
Assim, uma regra deixa de ser apenas uma proibição e passa a ser uma experiência cultural.
“Não são resorts, são locais de culto”
Imagem: depositphotos
Essa talvez seja uma das mensagens mais importantes transmitidas pelos responsáveis pelos templos. Santuários e templos japoneses podem ser visitados por turistas, mas sua função original não é turística. São lugares de culto.
Para quem chega apenas para tirar fotografias, essa diferença pode não ser imediatamente evidente. No entanto, é possível visitar um templo histórico e, ao mesmo tempo, lembrar que pessoas vão ao local para rezar, prestar homenagens e realizar práticas religiosas.
O turismo precisa conviver com essa dimensão espiritual.
Mas por que as infrações continuam acontecendo?
Para Masaki Yamashita, do Instituto de Pesquisa JTB, muitos episódios não seriam necessariamente atos deliberados de desrespeito.
Eles poderiam resultar de desconhecimento das regras ou diferenças culturais.
Essa interpretação é importante porque modifica a maneira de enfrentar o problema.
Se o visitante conseguir entender uma determinada regra, uma placa clara, um guia ou uma explicação antes da entrada pode evitar o conflito.
Em outros países, as regras podem ser ainda mais rígidas
Yamashita também observa que existem destinos turísticos no exterior onde as regras de comportamento são explicadas de maneira muito mais direta.
Em alguns lugares, o visitante recebe orientações sobre como se comportar antes mesmo de entrar em determinados espaços.
Quem não respeita as regras pode até ser convidado a deixar o local. A questão, portanto, não é apenas estabelecer normas. É necessário explicar o que está sendo protegido e por quê.
Fushimi Inari aposta na educação cultural
Imagem: depositphotos
Uma iniciativa em Fushimi Inari Taisha, em Kyoto, segue justamente esse caminho.
O famoso santuário, conhecido por seus milhares de portões vermelhos torii, passou a oferecer um passeio de aproximadamente uma hora destinado a turistas estrangeiros.
Guias certificados apresentam a história e os costumes do santuário enquanto explicam como os visitantes devem se comportar.
A iniciativa surgiu também após problemas envolvendo danos a bambuzais dentro do recinto.
Em vez de simplesmente dizer aos visitantes o que não fazer, os responsáveis procuram explicar o significado cultural por trás das regras.
Ensinar a cultura em vez de apenas proibir
Durante o passeio, os visitantes aprendem, por exemplo, sobre a importância da limpeza na sociedade japonesa. A guia-intérprete Keiko Tsujikura explicou que, nas escolas japonesas, os próprios alunos participam da limpeza das salas.
Para uma turista indiana que participou da atividade, essa prática ajuda a entender por que a limpeza está tão profundamente incorporada à cultura japonesa.
Esse tipo de explicação pode ser mais eficaz do que simplesmente colocar uma placa dizendo: “Não jogue lixo”, a mensagem passa a ser: “Este comportamento faz parte de uma cultura que valoriza o cuidado coletivo.”
A etiqueta japonesa precisa ser explicada no contexto
Imagem: YouTube/Reprodução
Uma das dificuldades enfrentadas pelo turismo internacional é que comportamentos considerados normais em um país podem ser inadequados em outro.
Fumar caminhando, falar em voz alta, tocar em estruturas históricas, entrar em áreas cercadas ou vestir determinadas roupas podem ter significados diferentes dependendo da sociedade.
Por isso, simplesmente traduzir uma proibição nem sempre é suficiente.
É necessário explicar o contexto cultural.
O desafio de um Japão cada vez mais turístico
O Japão recebeu um número crescente de visitantes internacionais nos últimos anos, e destinos tradicionais como Kyoto, Osaka, Nara e Wakayama estão entre os locais mais procurados.
Quanto maior o número de visitantes, maior também a necessidade de estabelecer uma relação equilibrada entre turismo e vida local.
As cidades precisam encontrar formas de proteger:
● patrimônios históricos;
● espaços religiosos;
● moradores;
● meio ambiente;
● segurança;
● costumes locais.
Ao mesmo tempo, os turistas precisam receber informações claras antes e durante a visita.
Informação também é uma ferramenta de preservação
O caso de Kyoto mostra que combater o turismo inadequado não significa necessariamente instalar placas em todos os lugares ou aumentar multas.
Existem diferentes estratégias: informação + sinalização + fiscalização + educação cultural + diálogo. Cada local pode escolher a combinação mais adequada.
Em um templo, uma conversa pode funcionar melhor.
Em uma rua movimentada, uma placa clara pode ser indispensável.
Em uma área de grande fluxo, mapas indicando onde fumar podem evitar infrações.
E para turistas estrangeiros, visitas guiadas podem ajudar a explicar regras que não fazem parte de seus costumes cotidianos.
O verdadeiro desafio: criar um compromisso mútuo
A questão da etiqueta turística no Japão não pode ser colocada apenas sobre os visitantes.
Os destinos turísticos também precisam aprender a comunicar suas expectativas de maneira clara, acessível e compreensível para pessoas de diferentes culturas.
Ao mesmo tempo, quem visita o Japão precisa compreender que viajar significa entrar temporariamente em uma sociedade com seus próprios costumes.
Respeitar uma regra não deveria significar apenas obedecer a uma placa.
É compreender por que aquela regra existe.
Turismo responsável começa antes da viagem
Para quem pretende visitar Kyoto, Osaka, Nara, Koyasan ou outros destinos de Kansai, algumas atitudes simples podem evitar problemas:
● pesquisar as regras do destino antes da viagem;
● verificar onde é permitido fumar;
● nunca ultrapassar barreiras;
● não tocar em estruturas históricas;
● respeitar áreas de oração;
● observar o código de vestimenta;
● evitar fotografar onde houver proibição;
● não jogar lixo nas ruas;
● manter silêncio em espaços religiosos;
● perguntar antes de fotografar pessoas ou cerimônias;
● seguir as orientações dos funcionários e guias.
Conclusão
Os problemas de etiqueta turística em Kyoto e na região de Kansai revelam um desafio maior do que simplesmente controlar o comportamento dos visitantes.
Em muitos casos, o conflito nasce da falta de informação, das diferenças culturais e da dificuldade de compreender que determinados espaços não são apenas atrações turísticas.
Templos e santuários são lugares de culto. Patrimônios históricos não são cenários para fotografias a qualquer custo. Ruas e bairros são também espaços onde vivem moradores.
Por isso, o futuro do turismo japonês depende de um compromisso mútuo.
Os destinos precisam explicar melhor suas regras e sua cultura.
E os visitantes precisam estar dispostos a aprender.
No fim, conhecer o Japão não significa apenas visitar seus lugares mais famosos. Significa também compreender, respeitar e preservar a cultura que torna esses lugares especiais.
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