Vida fora do sistema: o japonês que construiu a própria casa e reduziu gastos a quase zero

Uma família autossuficiente no Japão

Conheça a história da família Tamura, que abandonou a vida urbana para viver de forma autossuficiente, com contas zeradas e uma filosofia de viver o presente.

Na sociedade atual, o dinheiro traz conforto, praticidade e a sensação de segurança. Ele nos permite comprar quase tudo o que precisamos — e até o que não precisamos. Ainda assim, no Japão, algumas pessoas seguem na contramão desse modelo e optam por uma vida quase totalmente autossuficiente, com pouco ou nenhum gasto financeiro.

Um desses exemplos é a família Tamura.

Família Tamura: a escolha por uma vida fora do sistema

Uma família autossuficiente no Japão

Yoichi Tamura, de 48 anos construiu a própria casa utilizando, em grande parte, materiais reaproveitados.

Para cozinhar, ele utiliza água de nascente e lenha para fazer fogo e para gerar energia, utiliza painéis solares. O resultado é simples e impressionante: contas de luz, gás e água zeradas.

Sua história ganhou notoriedade após uma aparição em um programa na tv japonesa alguns anos atrás e se espalhou ainda mais com o lançamento do seu livro, em agosto de 2022:

「都会を出て田舎で0円生活はじめました」
(Saí da cidade e comecei a viver no campo com zero ienes)

Hoje, Yoichi Tamura vive com a esposa e o filho de sete anos na província de Aomori, no norte do Japão, levando um estilo de vida que desafia os padrões urbanos modernos.

Uma casa simples, mas suficiente

A família mora em uma casa de madeira com cerca de 49,2 m², cuja construção começou em 2010, quando Tamura ainda era solteiro. Foram necessários sete anos para torná-la habitável.

Embora alguns materiais tenham sido comprados, a maior parte foi reaproveitada. O custo total da construção foi de aproximadamente 100 mil ienes, um valor surpreendentemente baixo.

Tamura costuma dizer que sua casa é “mais parecida com uma cabana de montanha do que com uma casa tradicional”, mas ela atende à Lei de Normas de Construção do Japão e é grande o suficiente para acomodar confortavelmente uma família.

Autossuficiência, mas não isolamento

Uma família autossuficiente no Japão

Apesar do estilo de vida simples, Tamura não vive de forma primitiva. Ele usa smartphone, computador, compartilha informações online e, ocasionalmente, faz longas viagens de carro.

Ele define seu modo de viver como “autossuficiência híbrida” — uma combinação entre o essencial da vida tradicional e as facilidades da tecnologia moderna.

A origem de tudo: quando a vida perdeu o sentido

A motivação para essa escolha radical surgiu há cerca de 20 anos, quando Tamura levava uma vida considerada “normal”.

Eu tinha um emprego comum, mas sentia constantemente que minha personalidade não se encaixava nele.”

O estresse do trabalho o levava a gastar dinheiro impulsivamente nos dias de folga ou a beber para aliviar a pressão. O resultado era um ciclo exaustivo: gastar dinheiro para aliviar o estresse e trabalhar ainda mais para compensar.

Eu me perguntava se aquilo realmente fazia sentido.”

O dia em que tudo mudou

Uma família autossuficiente no Japão
Certo dia, ao parar em um supermercado depois do trabalho, Tamura teve um pensamento perturbador ao observar carnes expostas nas prateleiras:

São aves, porcos e vacas mortos, não é?
Se eu morrer agora, as vidas que eu consumiria nas próximas décadas seriam poupadas.

O pensamento se aprofundou. Ele começou a refletir sobre morte, consumo e desperdício, entrando em um estado emocional delicado.

Convencido de que não queria tirar a própria vida de forma explícita, decidiu escalar o Monte Fuji com a intenção de morrer ali, para que sua família acreditasse que havia sido um acidente.

Eu escalei o Monte Fuji com a intenção de morrer, mas…

O que aconteceu foi o oposto do esperado.

Após a escalada, Tamura sentiu um forte desejo de viver. Foi ali que nasceu sua filosofia de vida:
“viver o aqui e agora”.

Desde então, ele nunca mais teve um emprego fixo, passou a produzir a própria comida e construiu sua vida com base nessa mentalidade.

Usar o trabalho como ferramenta para a autossuficiência

Uma família autossuficiente no Japão
Embora tenha decidido viver o presente, Tamura não fez isso de forma impulsiva. Foram 20 anos de tentativas, erros e aprendizado.

Eu sentia que um dia acabaria vivendo nas montanhas, como um eremita. Mas, aos vinte e poucos anos, parecia cedo demais para decidir tudo.

Durante esse período, trabalhou como freelancer e em mais de 100 tipos diferentes de atividades. Essas experiências lhe deram habilidades práticas essenciais para a vida autossuficiente.

Quanto mais experiência você adquire, mais caminhos se abrem.”

Ele também percebeu rapidamente que não se adaptava ao trabalho de escritório:

Fiquei tão estressado que comecei a odiar atender o telefone e até tive sangramentos nasais.”

Pequenas ações podem mudar tudo

Em um mundo afetado pela alta constante dos preços, a família Tamura praticamente não sente os impactos da inflação. Ainda assim, ele reconhece que não é realista esperar que todos adotem a autossuficiência total de uma vez.

Por isso, Tamura sugere começar com pequenas mudanças, como:

● Comprar alimentos diretamente de produtores locais
● Reduzir intermediários
● Criar relações diretas com agricultores

Se você perguntar a um agricultor quanto custam os tomates, ele provavelmente ficará feliz em responder.

Ele também recomenda soluções simples, como pequenos painéis solares portáteis para carregar celulares e computadores.

Pode parecer pouco, mas somando tudo, os custos diminuem.

O que significa se sentir verdadeiramente vivo

Uma família autossuficiente no Japão
Hoje, Tamura não está desempregado. Ele atua como “yokiyaya”, realizando serviços diversos para moradores locais, especialmente idosos, como:

● cortar árvores
● limpar terrenos
● pequenos reparos

Isso lhe rende cerca de 40 mil ienes por mês, valor suficiente para sustentar seu estilo de vida.

Mais do que renda, ele valoriza a conexão humana:

Na cidade, coisas simples viram e-mails. As pessoas se afastaram.”

Na casa de Tamura, o fogo está sempre presente — no fogão a lenha e na cozinha. Visitantes costumam comentar:

O fogo é tão relaxante.

Segundo ele, isso não é coincidência.

Uma família autossuficiente no Japão

Os humanos convivem com o fogo desde o período Jomon. Está no nosso DNA.”

Um alerta silencioso para a vida moderna

Tamura não condena o conforto moderno, mas deixa um alerta:

“Estamos deixando coisas importantes demais nas mãos de máquinas, sistemas e dinheiro?”

Para ele, reconectar-se um pouco com a natureza, trabalhar a terra, usar os sentidos e viver experiências reais é o que faz o ser humano se sentir verdadeiramente vivo.

Se você vive com conforto, mas sente uma estranha estagnação, talvez a história de Yoichi Tamura não seja apenas curiosa — mas um convite à reflexão.

Fonte: dime.jp

Author photo
Publication date:
Sou apaixonada pelo Japão e sua cultura. Resolvi criar esse blog com o intuito de fazer com que mais e mais pessoas conheçam essa cultura tão rica, incrível e fascinante!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *