História sobre a Hibakusha Suzuko Numata – 2º Parte


Suzuko Numata – Mensageira da Paz – 2º Parte:

Por ser um texto muito longo, dividi o relato da Hibakusha (sobrevivente da Bomba Atômica) Suzuko Numata em duas partes. Se ainda não viu a primeira parte, então confira o início da sua história incrível de generosidade e superação aqui: História sobre a Hibakusha Suzuko Numata – Mensageira da Paz – 1º Parte

Continuação do relato de Suzuko Numata

Em 1951, me formei professora. Lecionei por 26 anos. Muitos anos depois, alguns filmes foram feitos com base nessas fotografias, e eu aparecia no primeiro filme. Quando alguns dos meus ex-alunos me viram no filme, perguntaram:

“Por que você não nos conta sobre suas experiências? Você tem que ensinar as crianças sobre a paz e a dizerem não à guerra.” A maioria dos meus ex-alunos já tinham filhos e alguns já tinham até netos. Suas palavras tocaram meu coração e eu decidi que eu deveria começar a contar a minha história.

Vergonha de não ter uma perna

No começo eu me senti muito envergonhada pela minha perna ter sido vista por tantas pessoas. Eu queria esconder o fato de que eu era uma sobrevivente da bomba atômica, e que eu tinha apenas uma perna.

Eu precisava ter coragem suficiente para contar a minha história, especialmente para os jovens, para que a guerra nunca mais acontecesse novamente. Depois que passei a dividir minha história com as pessoas, eu superei esse sentimento.

Agora eu não sinto nenhuma vergonha de ser Hibakusha e nem de ter apenas uma perna. Quando eu pensava nas pessoas, cujos rostos foram queimados pela bomba quando eles eram jovens, eu não me sentia confortável em esconder minha perna.

Eu até poderia ocultar esse fato, porém, também estaria ocultando parte da minha história e meus pensamentos sobre a bomba atômica não seriam transmitidas às gerações futuras. Então eu tive que superar esses sentimentos.

A árvore Aogiri, me deu forças para sobreviver

Foi quando me lembrei da árvore Aogiri (parasol chinês). Essa árvore foi exposta à bomba atômica no mesmo local onde também fui. Ela ficou totalmente destruída, porém na Primavera seguinte, como um milagre, a árvore brotou novamente.

Esse fato encorajou-me, por que, a planta sobreviveu e continua a viver, assim como eu. Eu acredito que se não fosse essa árvore, eu não teria coragem para contar minha história. Esta árvore se tornou símbolo em Hiroshima e desde então, tem sido replantadas pelo Parque da Memorial da Paz.

Meus sonhos interrompidos e minha missão

Eu sempre penso sobre quantos filhos eu teria, quantos anos eles estariam agora, e quantos netos eu teria se não fosse a guerra e o bombardeio atômico. Esses são os pensamentos que eu sempre tive desde que eu perdi meu noivo e minha perna por causa da guerra.

Mas, como professora, ganhei o amor dos meus alunos, que sempre vinham me pedir ajuda ou conselhos. Agora, esses alunos não me chamam mais de professora e sim de avó.

Isso realmente me faz muito feliz e me sinto muita alegria em meu coração por estar conseguindo fazer algo pelos outros.

Eu não tinha ideia de como começar a contar minha história para as crianças, como falar sobre esse dia tão terrível e de como foi minha vida depois da guerra.

Quando pensava no passado e nos meus amigos que morreram, eu tentava falar, mas só conseguia chorar. Eu não conseguia verbalizar meus sentimentos a todos. Eu tentava fazer o melhor, mas eu ainda não conseguia. Apenas lágrimas caíam dos meus olhos.

Eu precisava abrir minha mente e minha boca

Algumas coisas me ajudaram a abrir a mente e o coração, como a fotografia, a árvore Aogiri e pessoas que sempre me incentivaram. Estas influências são muito importantes, eu acredito.

Fiz cartões postais da árvore aogiri que sobreviveram ao bombardeio e dobraduras de papel. Eu sempre os carrego comigo. Quando encontro pessoas, eu me aproximo, converso e entrego a eles. Eu tento criar o meu próprio movimento pela paz. Eu acredito que é importante começar primeiramente com as pessoas que estão ao meu redor.

Dessa maneira, passei a disseminar a paz entre os jovens, repassando a eles, minha experiências e digo a eles sobre o valor da juventude e como torná-lo produtivo e significativo. Não se pode voltar a ter juventude novamente.

As pessoas me fazem muitas perguntas. Digo a eles que logo após a guerra que eu estava zangada com os Estados Unidos. No entanto, consegui superar esses sentimentos. Percebi que, quando temos ódio contra o outro, não podemos construir a paz. Podemos odiar armas nucleares, mas não devemos odiar as pessoas. Se realmente querem a paz, o ódio é o nosso inimigo.

Sinto que tenho pouco tempo pela frente para continuar a testemunhar sobre minhas experiências. Eu sobrevivi à bomba atômica. É por isso que eu sinto uma grande vontade de contar a minha história agora, não depois. Estou determinado a trabalhar pela paz para o resto da minha vida, ter coragem e fazer esforços constantes para contar a minha história. Mesmo neste momento eu não posso esquecer essa experiência terrível. Eu nunca vou esquecer .

Morte de Suzuko Numata

Esse depoimento foi escrito por ela há anos atrás e ela trabalhou pela paz até o fim da sua vida. Suzuko Numata faleceu em junho de 2011, aos 87 anos e antes de morrer, ela ainda deixou outra mensagem.

Pouco tempo antes de falecer, Numata andava com a saúde muito debilitada e morava em uma casa de repouso. De lá, acompanhou todo o noticiário sobre o Grande Terremoto no Japão e a Crise Nuclear em Fukushima. Numata, resolveu então deixar uma mensagem, poucos meses antes de falecer, que seria apresentado na cerimônia do 66° Aniversário da Bomba de Hiroshima.

Veja alguns trechos da sua última mensagem.

“Este ano marca o 66º aniversário da exposição à radiação, mas ainda não podemos dizer que estamos fora de perigo agora.

“O terremoto recente não tem precedentes. Tenho estado muito preocupada com as usinas nucleares e os riscos que ela envolve. … Quero que as pessoas firmemente compreendam o quanto a radioatividade é horrível, não tem cheiro e não tem forma.

“O movimento para a abolição das armas nucleares não é vazia e frívola. Quero que as pessoas percebam e se concientizem sobre o valor que envolve a vida das pessoas. Tanto uma guerra nuclear ou acidente nuclear, ocorrem de maneira imprevisível e trazem consequências irreversíveis”. “Não queremos ser Hibakusha novamente”.

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5 Comentários

  1. Pingback: História sobre a Hibakusha Suzuko Numata - Mensageira da Paz | Dicas Brasil Japão

  2. maria gomes

    😉 adoro receber seus e-mails sao muitos lindos e tbm fico conhecendo mais sobre o japao,, muito obrigada

  3. Pingback: Hiroshima - Aniversário de 66 anos do atentado da bomba atômica | Curiosidades do Japão

  4. Magali Leite Pastorino

    Seus textos são agradáveis e úteis, gosto muito e busco acompanhar e entender mais sobre os costumes e a cultura do povo Japonês, através de seu olhar. Grata

  5. Fiquei comovida com a história de Suzuko Numata, ela retrata a vida de muitos que sofreram como ela e sofrem ainda, vítimas da atrocidade do próprio homem.Embora ela como tantos outros lutaram e vem lutando pela Paz, a atual crise mundial inspira medo e incerteza de que o próprio homem não venha novamente provocar a utilização dessa arma tão maléfica, utilizada em em apenas duas cidades japonesas.E se for contra países? Por exemplo:Israel X…

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