Ilha de Kabushima: o santuário das gaivotas no norte do Japão

Kabushima, em Aomori, é famosa por ser o único local no Japão onde se pode observar de perto o processo de nidificação das gaivotas Umineko.
Pequena em tamanho, mas gigante em significado ecológico e cultural, a Ilha Kabushima (蕪島) é um dos destinos mais curiosos do norte do Japão.
Localizada na cidade costeira de Hachinohe, na província de Aomori, a ilha é famosa por ser um importante local de reprodução da gaivota-de-cauda-preta (black-tailed gull).
Mais do que um ponto turístico, Kabushima é um raro exemplo de convivência harmoniosa entre vida selvagem e espiritualidade japonesa.
Uma ilha que já não é totalmente ilha
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Originalmente separada do continente, Kabushima hoje está conectada por uma faixa de terra e pode ser acessada a pé. Mesmo assim, mantém seu caráter insular e preservado.
A ilha tem 300 metros de comprimento, 140 metros de largura e cerca de 800 metros de circunferência. O ponto mais alto da ilha atinge 18 metros de altitude.
Como podemos ver, o local é pequeno — mas durante a temporada de reprodução, entre março e agosto, torna-se lar de dezenas de milhares de aves marinhas.
O reino das gaivotas
Kabushima é considerada um dos principais pontos de nidificação da gaivota-de-cauda-preta (Umineko), espécie comum no leste asiático. Durante a primavera e o verão, a paisagem rochosa se transforma em um verdadeiro “mar branco” de aves.
O céu fica tomado por voos rasantes. E o solo — muitas vezes — coberto por ninhos cuidadosamente protegidos. O som das gaivotas é tão característico que foi incluído na lista dos “100 Melhores Sons do Japão”.
Por causa dessa importância ecológica, a ilha foi designada como Monumento Natural Nacional do Japão, garantindo proteção ambiental rigorosa.
O Santuário Kabushima
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No topo da ilha está o tradicional Santuário xintoísta Kabushima, dedicado à deusa Benzaiten, associada à fortuna, música e prosperidade, fundado em 1.296.
Historicamente, pescadores da região visitavam o local para pedir boa sorte e proteção no mar. As gaivotas são veneradas como mensageiras dos deuses e vistas como símbolos de abundância e orientação marítima.
Os pescadores locais também as protegem porque elas indicam onde estão os cardumes de peixes no Oceano Pacífico. Por isso, a ilha é um local de oração para a segurança no mar e fartura na pesca
Em 2015, o santuário original foi destruído por um incêndio, mas foi reconstruído e reaberto ao público em 2020, mantendo a tradição espiritual do local.
O “Batismo” de Sorte
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Devido à densidade de pássaros, é muito comum que visitantes sejam atingidos por excrementos de gaivota. No Japão, isso é considerado um sinal de extrema sorte (un).
Se você for atingido, pode ir ao balcão do santuário para receber um certificado oficial de “sorte recebida” e um amuleto especial.
Turismo e preservação
Kabushima é aberta à visitação, mas com regras claras:
🚫 Não tocar nos ninhos
🚫 Não alimentar as aves
🚫 Não perturbar os animais
Passarelas e escadarias ajudam a orientar os visitantes, garantindo segurança tanto para as pessoas quanto para as aves.
Durante a alta temporada de reprodução, guarda-parques monitoram a área constantemente.
Curiosidades sobre as gaivotas Umineko
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Umineko (ウミネコ / 海猫) significa “Gato do Mar”. É uma ave marinha classificada na família Laridae, ordem Charadriiformes, caracterizada por olhos amarelos e anéis oculares vermelhos. Ela é conhecida por sua voz que lembra o miado de um gato.
As gaivotas Umineko são aves migratórias com um GPS biológico impressionante. O ciclo delas em Kabushima é um relógio natural que marca as estações em Aomori.
Mas de onde elas vêm? E pra onde vão depois?
As gaivotas passam o inverno em regiões mais quentes ao sul para fugir do gelo severo do norte. Elas migram das costas do sul do Japão (como Kyushu e Shikoku), do Mar da China Oriental e até de regiões costeiras de Taiwan e do sul da Coreia.
Elas chegam a Kabushima precisamente em fevereiro. As primeiras “batedoras” aparecem no início do mês, e em março a ilha já está lotada para a temporada de reprodução.
Kabushima não é apenas uma parada; é o “berçário”
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Fevereiro/Março: Disputa de territórios e formação de casais.
Abril/Maio: Colocação dos ovos e incubação.
Junho/Julho: Nascimento e crescimento dos filhotes. É a época mais barulhenta e caótica da ilha.
Para onde vão depois?
Em agosto, assim que os filhotes aprendem a voar e a caçar sozinhos no Oceano Pacífico, a colônia inteira abandona a ilha quase simultaneamente.
As gaivotas jovens (de penas acinzentadas) são as últimas a sair, treinando voos rasos sobre os barcos de pesca antes de seguirem os adultos rumo ao sul.
Elas saem de Kabushima por volta de agosto e se espalham pela costa de Sanriku e pelo norte de Hokkaido para se alimentar fartamente antes da grande migração.
Com a chegada do frio intenso em novembro, elas iniciam a descida novamente para o sul do Japão e sudeste asiático, completando o ciclo anual.
Isso significa que se você visitar a ilha em setembro, ela estará estranhamente silenciosa e vazia, com apenas o som das ondas. É um contraste fascinante com a “nuvem branca” de pássaros que você vê entre fevereiro e agosto.
Por que Kabushima?
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As gaivotas escolhem este local específico há séculos porque a ilha (que era isolada antes do aterro) oferecia proteção contra predadores terrestres (como raposas) e proximidade imediata com as correntes frias do Pacífico, ricas em peixes.
A despedida das gaivotas
Antes das gaivotas partirem definitivamente em agosto, muitos pescadores visitam o Santuário Kabushima para oferecer orações de agradecimento (Orei-mairi).
Após a partida súbita das gaivotas, a ilha entra em um silêncio profundo, quase melancólico. Voluntários e associações de pescadores realizam grandes mutirões de limpeza na ilha para remover ninhos abandonados e penas, preparando o local para o próximo ano.
A saída das Umineko sinaliza aos pescadores que é hora de trocar as redes e se preparar para as espécies de águas mais profundas e frias que chegam com o outono.
Festival Hachinohe Sansha Taisai
Embora o grande festival Hachinohe Sansha Taisai ocorra entre 31 de julho e 4 de agosto, ele funciona como o “clímax” das celebrações de verão.
Muitas vezes, a data coincide com os últimos dias em que as gaivotas ainda estão na ilha. Os pescadores participam do festival com carros alegóricos gigantescos, celebrando a prosperidade que as aves ajudaram a trazer.
O Vazio Espiritual
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Existe uma crença local de que, quando as gaivotas partem, elas levam consigo o “calor” do verão. Para os moradores de Hachinohe, o céu vazio em setembro traz uma sensação de Setsunai (uma tristeza doce ou nostalgia), marcando o início da espera de seis meses até que as primeiras “mensageiras” reapareçam no frio de fevereiro.
Experiência única
Visitar Kabushima é uma experiência sensorial intensa:
● O som incessante das gaivotas
● O vento forte do Pacífico
● O cheiro salgado do mar
● A vista panorâmica da costa de Hachinohe
Longe das multidões de Tóquio ou Kyoto, essa pequena ilha em Aomori revela um Japão diferente — selvagem, espiritual e profundamente conectado ao mar. Para fotógrafos e amantes da natureza, é um dos cenários mais singulares do norte japonês.
Um símbolo de convivência
A Ilha de Kabushima representa algo muito presente na cultura japonesa: o respeito pela natureza aliado à espiritualidade.
Em vez de afastar as aves, a comunidade integrou sua presença à identidade local. O santuário e as gaivotas coexistem, criando um cenário onde fé e ecologia se encontram.
Informações para visitantes
O santuário Kabushima disponibiliza guarda-chuvas caso você não queira testar sua “sorte” nas roupas. Você pode levar o seu próprio, se preferir.
Aproveite também para conhecer também a Costa de Tanesashi, um dos trechos mais espetaculares do Parque Nacional Sanriku Fukkō.
No inverno, a paisagem oferece um contraste dramático entre as rochas vulcânicas escuras, a neve branca e o azul profundo do Oceano Pacífico.
Um trecho popular de caminhada tem cerca de 12 km, ligando a Ilha de Kabushima ao Cabo Hashikami, levando entre 4 a 5 horas para ser percorrido integralmente, mas é dividido em seções menores acessíveis por estações de trem da linha JR Hachinohe.
Mapa da Ilha Kabushima
Endereço: Same-56-2 Samemachi, Hachinohe, Aomori 031-0841
Acesso: Fica a cerca de 15 minutos a pé da Estação Same (Linha JR Hachinohe).
Site oficial: http://kabushima.com/jinjya/
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