Yūrei no Hi: o Dia do Fantasma e a fascinante tradição das histórias sobrenaturais no Japão

Yurei no Hi - o Dia do Fantasma e a fascinante tradição das histórias sobrenaturais no Japão

Descubra o que é o Yūrei no Hi (Dia do Fantasma), celebrado em 26 de julho. Conheça a lenda de Oiwa e a fascinante tradição dos yūrei no Japão.

O Japão é conhecido por seu rico universo de lendas, espíritos e histórias sobrenaturais. Diferentemente da visão ocidental dos fantasmas, muitas dessas entidades fazem parte do imaginário popular japonês há séculos e continuam presentes na literatura, no teatro, no cinema, nos mangás e nos animes.

Todos os anos, em 26 de julho, o país celebra o Yūrei no Hi (幽霊の日), ou Dia do Fantasma, uma data dedicada à lembrança de uma das mais famosas histórias de fantasmas do Japão e que também marca a influência duradoura do folclore sobrenatural na cultura japonesa.

Mais do que falar de assombrações, o Yūrei no Hi é uma oportunidade para conhecer a relação única que os japoneses mantêm com o mundo espiritual, onde fantasmas nem sempre representam o mal, mas podem simbolizar amor, saudade, injustiça e o desejo de vingança.

O que é o Yūrei no Hi?

Yūrei no Hi (幽霊の日) significa literalmente:

Yūrei (幽霊) = fantasma ou espírito;
Hi (日) = dia.

A data é comemorada em 26 de julho porque nesse dia, em 1825, ocorreu a estreia da peça Tōkaidō Yotsuya Kaidan (東海道四谷怪談),  no pequeno Teatro Nakamura-za em Edo (Atual Tóquio), sendo considerada a mais famosa história de fantasmas do teatro japonês.

Yurei no Hi - o Dia do Fantasma e a fascinante tradição das histórias sobrenaturais no Japão

Trata-se de uma obra-prima do dramaturgo Tsuruya Nanboku IV, um dos mais famosos contadores de historias sobre fantasmas do Japão. A obra foi inspirada em uma história verdadeira sobre Oiwa, uma esposa traída por seu marido que busca vingança após sua morte.

Misturando tragédia, traição, assassinato e vingança sobrenatural, a peça rapidamente conquistou enorme popularidade, tornando-se um clássico do teatro kabuki e permanece sendo encenada até hoje.

Sua protagonista, Oiwa, é considerada um dos fantasmas mais famosos do Japão.

A trágica história de Oiwa

Oiwa era uma jovem muito bonita que vivia em um vilarejo chamado Yotsuya (hoje um bairro de Tóquio) no Japão. Ela era apaixonada por um guerreiro chamado Iemon, um rapaz de família humilde, mas que mesmo assim, chamava a atenção da bela Oiwa.

Iemon também se mostrava interessado por Oiwa, mas os pais dela eram contra o relacionamento, eles acreditavam que o rapaz não tinha uma boa índole e não seria boa companhia para sua filha.

Certo dia, cansado com a desaprovação e desconfiança, Iemon pegou sua espada e assassinou covardemente o pai de Oiwa. A bela jovem ficou arrasada. Iemon fingindo uma bondade que não tinha, disse que se vingaria dos assassinos do pai de Oiwa.

A inocente Oiwa acreditou em Iemon, sem ao menos desconfiar que ele fosse o verdadeiro assassino de seu pai.

Passado pouco tempo Oiwa e Iemon se casaram, logo, o casal teve um filho. Mas Oiwa adoeceu. Depois disso, a desconfiança que os pais dela tinham por Iemon se confirmou.

O rapaz passava a maior parte do dia fora de casa, e nunca se preocupou em ajudar Oiwa a tratar a doença e muito menos cuidar do filho recém-nascido. Não demorou muito e ele começou um relacionamento com uma jovem rica do vilarejo, uma bela jovem chamada Oume.

Iemon e Oume se relacionaram por vários meses, e nesse tempo, Iemon virou um tormento na vida de Oiwa. O rapaz a maltratava e às vezes usava de violência.

Interesseiro, Iemon só tinha olhos para a fortuna da família de Oume, e para que pudesse conseguir seu objetivo de riqueza, decidiu se livrar de Oiwa.

Fonte da Imagem: Matthew Meyer

Durante um jantar, Iemon deu um alimento envenenado para Oiwa. Não demorou muito e Oiwa começou a se sentir mal, mas não morreu.

A bela Oiwa começou a perder seus cabelos rapidamente e seu rosto foi se deformando até ficar extremamente desfigurado. Vendo que seu plano de envenenar Oiwa não deu certo, Iemon pensou em outra coisa para se ver livre da esposa.

Ele contratou um jovem para seduzir Oiwa, assim ele poderia acusar a esposa de infidelidade e acabar com o casamento. Mas o jovem vendo a aparência e a situação de Oiwa, decidiu revelar todo o plano de Iemon.

Oiwa ficou arrasada e cometeu suicídio cortando sua garganta. Iemon com medo de que o jovem revelasse seu plano para os demais moradores do vilarejo, o assassinou e jogou seu corpo junto com o de Oiwa em um rio acusando-os de serem amantes.

Livre de Oiwa, Iemon se casou com Oume. Mas na noite de núpcias o espirito de Oiwa voltou para se vingar. Iemon começou a ter visões dela por toda a parte.

Apavorado com o que estava vendo, Iemon pegou a sua espada e saiu desferindo golpes para todos os lados com o intuito de acertar o fantasma de Oiwa.

Oume, que não podia ver a assombração, ficou espantada vendo o marido golpear desesperadamente o ar. Em um determinado momento Iemon olhou para Oume, mas viu em seu rosto a figura de Oiwa, e com um golpe certeiro arrancou-lhe a cabeça.

A cada pessoa que se aproximava de Iemon ele via em seus rostos a face aterradora de Oiwa, isso fez com que ele também assassinasse o pai e a mãe de Oume. Não se sabe ao certo o que aconteceu com Iemon.

Dizem que ele se suicidou, mas também conta-se que ele foi morto pelo espirito de Oiwa.

O povo do vilarejo tentou levar paz ao espirito de Oiwa enterrando o corpo no terreno próximo à sua casa. Mas isso aparentemente não funcionou.

Dizem que o espirito perturbado e rancoroso de Oiwa ainda lança maldições sobre as pessoas. Dizem também que algumas pessoas que se aproximaram de seu tumulo, tiveram seus rostos deformados misteriosamente.

O Túmulo de Oiwa realmente existe

Túmulo de Oiwa no Templo Myoko-ji

O mais assustador de tudo isso é que uma mulher chamada Oiwa Tamiya de fato viveu no Japão por volta de 1636 e documentos antigos mostram que ela morava em Edo (atual Tóquio).

A data da morte de Oiwa está registrada como 22 de fevereiro de 1636 e o túmulo dela encontra-se aos pés de uma árvore no templo Myoko-ji, próximo a estação Nishi Sugamo. O templo ficava originalmente em Yotsuya, mas em 1909 mudou-se para o atual bairro.

O local atrai muitos visitantes e curiosos que querem conhecer o tão falado túmulo de Oiwa.

Porém, embora Oiwa tenha existido de verdade, a famosa história de terror é considerada uma mistura de fatos reais do século XVII com muita ficção teatral criada no século XIX.

O que é um Yūrei?

Na tradição japonesa, yūrei são espíritos de pessoas que morreram carregando emoções intensas, como:

● ressentimento;
● tristeza;
● amor não correspondido;
● desejo de vingança;
● apego ao mundo dos vivos.

Segundo a crença popular, quando esses sentimentos permanecem sem resolução, o espírito pode não conseguir seguir para o outro mundo.

É justamente essa ideia que inspira inúmeras histórias de fantasmas no Japão.

Como identificar um yūrei?

A imagem clássica dos fantasmas japoneses foi consolidada pelo teatro kabuki e pelas pinturas do período Edo.

Eles costumam apresentar características marcantes:

● roupas funerárias brancas;
● cabelos longos, negros e soltos;
● pele muito pálida;
● braços caídos;
● ausência de pés, flutuando acima do chão;
● expressão melancólica ou assustadora.

Essa representação influenciou diretamente filmes de terror como Ringu (O Chamado) e Ju-On (O Grito).

Por que julho é o “mês dos fantasmas”?

Embora o Yūrei no Hi seja celebrado em 26 de julho, não é coincidência que a data ocorra durante o verão japonês pois tradicionalmente esta é a estação das histórias de fantasmas.

Durante o período Edo, tornou-se comum realizar encontros chamados Kaidan-kai (怪談会), nos quais pessoas se reuniam para contar histórias sobrenaturais.

Acreditava-se que ouvir narrativas assustadoras ajudava a provocar arrepios e, simbolicamente, refrescava o corpo durante os dias quentes.

Essa tradição permanece viva até hoje.

Hyakumonogatari: o jogo das cem histórias

Uma das tradições mais conhecidas relacionadas ao sobrenatural japonês é o Hyakumonogatari Kaidankai (百物語怪談会).

O ritual consistia em:

● acender 100 velas;
● contar uma história de terror;
● apagar uma vela ao final de cada narrativa.

À medida que o ambiente ficava mais escuro, acreditava-se que aumentava a possibilidade de aparição de espíritos.

Muitos participantes evitavam apagar a última vela por medo do que poderia acontecer.

Yūrei e Obon: existe relação?

Embora ambos envolvam espíritos, eles representam conceitos diferentes.

O Obon, celebrado em agosto em grande parte do Japão, é um festival dedicado a receber os espíritos dos antepassados, que retornariam temporariamente ao mundo dos vivos para visitar suas famílias.

Já os yūrei costumam ser retratados como espíritos inquietos, incapazes de encontrar paz devido a sentimentos intensos ou assuntos não resolvidos.

Assim, enquanto o Obon possui um caráter familiar e reverente, as histórias de yūrei pertencem ao universo do folclore e do terror.

A influência no cinema japonês

A história de Oiwa (Yotsuya Kaidan) é uma das histórias de fantasmas mais famosas do Japão e até hoje influencia os filmes de terror japoneses.

Foi adaptada para o cinema mais de 30 vezes e uma das mais famosas adaptações é o filme “O Fantasma de Yotsuya” de 1959, dirigido por Nobuo Nakagawa.

Por causa de acidentes que misteriosamente aconteceram durante a produção de algumas adaptações de Yotsuya Kaidan, tornou-se uma tradição os atores principais e diretores fazerem uma peregrinação até o túmulo de Oiwa para pedir-lhe permissão para as filmagens.

Yotsuya Kaidan também está presente também no Ayakashi: Japanese Classic Horror, uma série de anime com três histórias clássicas de terror japonês, incluindo também “Tenshu Monogatari”, uma história de amor proibido entre uma deusa e um humano e “Bakeneko”, a história de um gato monstro misterioso que tem poderes sobrenaturais

Além disso, a figura da mulher de cabelos longos cobrindo parcialmente o rosto influenciou outros clássicos do cinema de terror japonês como Ringu (1998), Ju-On (2002), Dark Water (2002), que por sua vez, inspiraram diversos remakes em Hollywood.

O Yūrei na arte japonesa

Xilogravuras do Período Edo retratando Oiwa

Durante o período Edo, artistas de ukiyo-e produziram inúmeras gravuras representando fantasmas.

Entre os mais famosos estão:

Katsushika Hokusai;
● Utagawa Kuniyoshi;
● Tsukioka Yoshitoshi.

Essas obras ajudaram a definir a aparência tradicional dos yūrei e continuam influenciando ilustradores até hoje.

Curiosidades

Yurei no Hi - o Dia do Fantasma e a fascinante tradição das histórias sobrenaturais no Japão

Oiwa é considerada a personagem fantasma mais famosa do Japão.

Alguns atores de kabuki visitam o túmulo de Oiwa antes de interpretar a peça, por respeito à tradição e para evitar azar.

Muitas casas assombradas (obake yashiki) abertas no verão utilizam personagens inspirados em yūrei.

O gênero kaidan reúne contos tradicionais de terror transmitidos oralmente durante séculos.

O Dia do Fantasma não é um feriado nacional, mas é amplamente lembrado por fãs do folclore, do teatro e da cultura pop japonesa.

O fascínio japonês pelo sobrenatural

Ao contrário de muitas tradições ocidentais, em que fantasmas costumam ser retratados apenas como entidades malignas, o folclore japonês apresenta uma visão mais complexa.

Os yūrei frequentemente representam emoções humanas profundas, como amor, perda, arrependimento e injustiça. Em muitas histórias, eles não buscam apenas assustar, mas resolver conflitos que permaneceram sem solução em vida.

Essa abordagem torna o sobrenatural japonês particularmente rico e emocional, contribuindo para seu enorme sucesso dentro e fora do país.

Conclusão

O Yūrei no Hi celebra muito mais do que histórias de fantasmas. A data homenageia uma tradição literária e teatral que atravessa séculos, lembrando como o sobrenatural ocupa um lugar especial na cultura japonesa.

A estreia de Yotsuya Kaidan transformou Oiwa em um dos maiores ícones do terror do Japão e consolidou a figura do yūrei como símbolo de emoções intensas e destinos inacabados.

Mesmo em uma sociedade altamente tecnológica, o fascínio pelos espíritos continua vivo no Japão, seja em festivais de verão, peças de kabuki, gravuras antigas ou filmes que conquistam espectadores em todo o mundo.

O Yūrei no Hi é, acima de tudo, uma oportunidade para explorar um dos aspectos mais intrigantes e duradouros da imaginação japonesa.

Referência: Wikipedia

* Artigo publicado originalmente em 26 de julho de 2014.
Última atualização em 26 de julho de 2026.

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Sou apaixonada pelo Japão e sua cultura. Resolvi criar esse blog com o intuito de fazer com que mais e mais pessoas conheçam essa cultura tão rica, incrível e fascinante!

3 thoughts on “Yūrei no Hi: o Dia do Fantasma e a fascinante tradição das histórias sobrenaturais no Japão

  1. Acabe de conhecer pelo anime mencionado ao fim do artigo. Muito interessante mesmo a lenda, e pobre Oiwa.

  2. Belo artigo. Conhecia o anime só de nome mas hoje decidi assistir e fiquei impressionado com a história triste da Oiwa… Gostaria de visitar o túmulo alguma dia. Muito obrigado!

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