Ijime no Japão: A realidade do bullying nas escolas e suas consequências

Ijime é o termo japonês para bullying e representa um grave problema social no Japão. Conheça as causas e os impactos do bullying nas escolas japonesas.
Recentemente um vídeo com mostrando um aluno sendo agredido dentro do banheiro de uma escola de ensino médio em Tochigi na presença de outros alunos que riam da situação viralizou nas redes sociais e gerou polêmica devido à clara evidência de bullying (ijime).
No vídeo em questão, as agressões foram realizadas na presença de outros alunos que riam e até vibravam com a situação. Esse não é um caso isolado. Somente em 2024, foram registrados 769.022 casos de ijime, um número alarmante que cresce a cada ano.
O termo japonês ijime (いじめ) refere-se a práticas de bullying que ocorrem principalmente em ambientes escolares, mas que também podem aparecer no trabalho (power hara).
Ao contrário da ideia de simples “brincadeira entre crianças”, o ijime envolve comportamentos repetitivos que causam sofrimento físico e emocional às vítimas, como exclusão social, insultos, agressões e até ameaças e difamações via internet.
Embora o Japão seja frequentemente lembrado por sua ordem social e disciplina, o ijime persiste como um problema estrutural profundo no sistema educacional — com impactos duradouros na saúde mental de jovens e adultos.
O que é ijime?
Imagm: Depositphotos
No Japão, o ijime não é apenas “bullying”; ele é definido por autoridades educacionais e pesquisadores como atos repetidos de hostilidade que causam sofrimento a outro estudante.
Diferente do bullying físico comum em outros países, o ijime japonês é frequentemente psicológico e coletivo:
● Exclusão Social: O grupo ignora ou isola uma única pessoa ( mushi ).
● difamação e insultos que evoluem para agressão física
● cyber-bullying e difusão maliciosa de informações por meio de aplicativos de mensagens e redes sociais.
O elemento chave é a repetição e persistência de comportamentos direcionados a uma vítima percebida como “diferente” ou “fraca”.
Dados e pesquisas recentes sobre ijime
Prevalência entre estudantes
Uma pesquisa que utilizou a Japan Ijime Scale (JaIS) — instrumento criado para medir o fenômeno entre estudantes japoneses — revelou números alarmantes:
● 35,8% dos estudantes relataram ter sido vítimas de ijime a cada 2–3 meses.
● 27,6% eram apenas vítimas, e 8,3% foram classificados como vítimas que também praticaram bullying (bully/victims).
● 32,8% testemunharam algum tipo de bullying na escola.
● 11,8% admitiram ter praticado bullying, com 3,5% como agressores e 8,3% como vítimas.
Esses índices mostram que a intimidação entre pares é uma experiência comum, não um evento isolado, nas escolas japonesas.
Casos oficiais registrados
Dados oficiais do Ministério da Educação, Cultura, Esportes, Ciência e Tecnologia (MEXT) mostram um aumento contínuo de casos reportados:
Em 2024, foram registrados 769.022 casos de ijime, um recorde histórico e o quarto ano consecutivo de aumento.
O número de incidentes graves — com danos físicos ou psicológicos significativos — também atingiu o maior nível já registrado.
Percepção dos estudantes
Uma pesquisa na província de Kumamoto revelou que:
Cerca de 20% dos alunos não consideram o bullying algo necessariamente errado, embora a maioria (82,9%) afirme que o bullying nunca é justificável.
Esse dado destaca um desafio importante: mesmo quando casos são informados, muitos estudantes ainda não reconhecem plenamente os danos causados pelo ijime.
Causas culturais e sociais
Especialistas apontam fatores culturais que podem contribuir para o ijime no Japão:
● Pressão pela conformidade social: crianças são ensinadas desde cedo a se encaixar e evitar chamar atenção, o que pode alimentar exclusão e hostilidade contra quem é percebido como diferente. Qualquer diferença (aparência, notas, sotaque) pode se tornar motivo para o ijime.
Por esse motivo não é incomum ouvir casos de crianças estrangeiras que sofrem ijime em escolas japonesas. É o famoso ditado japonês “o prego que se destaca é martelado”.
● Estruturas escolares rígidas: hierarquias sociais e clubes escolares (bukatsu) podem criar ambientes propícios ao abuso entre pares.
● Estigma sobre relatar problemas: muitas vítimas têm medo de denunciar, por preocupações com vergonha ou represálias.
Consequências psíquicas e sociais
O impacto do ijime vai muito além da infância. Estudos com adultos que sofreram bullying revelam que esse tipo de experiência está associado a maior sofrimento psicológico na vida adulta, incluindo ansiedade, depressão e estresse crônico.
Além disso, o ijime tem sido associado a casos de evasão escolar (futōkō) e até suicídio entre alunos, levando autoridades a intensificar esforços de monitoramento e prevenção.
O que o governo japonês está fazendo
Imagem: Depositphotos
O MEXT monitora o problema há décadas e tem promovido ações como:
● Programas anti-bullying nas escolas
● Linhas de apoio e serviços de aconselhamento
● Treinamento para professores e equipes escolares
● Incentivos para alunos denunciarem sem medo de retaliação
Além disso, tem desenvolvido novas formas de reduzir os casos de ijime como:
Leis Rigorosas: Desde a reforma da Lei de Prevenção ao Bullying, as escolas são obrigadas a reportar “incidentes graves” imediatamente ao governo, sob risco de penalidades.
Botões de Pânico Digitais: Aplicativos como o STOPit permitem que alunos denunciem anonimamente o bullying, enviando provas diretamente para conselheiros escolares.
IA na Prevenção: Algumas prefeituras começaram a usar Inteligência Artificial para analisar padrões de frequência escolar e mudanças de comportamento para prever e intervir em casos de bullying antes que escalem.
Criminalização do Insulto Online: O Japão endureceu as penas para insultos na internet, com possibilidade de prisão, visando conter o cyberbullying.
Mesmo assim, o crescimento contínuo de casos indicados nos relatórios oficiais revela que ainda há muito a ser feito.
Por que ijime persiste no Japão?
Embora o bullying seja um problema global, o ijime no Japão tem características próprias que o tornam especialmente complexo:
● Ele pode ser sutil e coletivo, não apenas físico, mas psicológico e social.
● Pressões acadêmicas e sociais podem exacerbar comportamentos agressivos entre estudantes.
● O foco cultural na harmonia social às vezes silencia denúncias para evitar conflitos.
Canais de Ajuda no Japão
Imagm: photo-ac
Se você ou alguém que você conhece no Japão está passando por isso, existem linhas de apoio em japonês e multilíngues:
Linha de Ajuda 24h para Crianças (MEXT): 0120-0-78310.
Direitos Humanos das Crianças: 0120-007-110 (em japonês)
SOS para Crianças: 0120-0-78310 (em japonês), disponível 24 horas por dia
Consulado-Geral do Brasil em Tóquio: 03-5488-5665
Centro de Apoio para Estrangeiros: Muitas províncias oferecem consultas gratuitas em português para questões escolares através de Associações Internacionais locais.
Conclusão
O ijime continua sendo uma crise silenciosa na sociedade japonesa — um problema que vai muito além de brincadeiras inadequadas. Com milhões de casos registrados e uma parte significativa dos estudantes relatando experiências de bullying, o Japão enfrenta o desafio de combinar tradições culturais com práticas modernas de prevenção e acolhimento.
Abordar o ijime exige políticas eficazes, apoio psicológico e um ambiente escolar que valorize o respeito, o pluralismo e a coragem de falar — não apenas para punir o agressor, mas para proteger e fortalecer a vítima.
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