Tsunehiro Tomoda: o último sobrevivente da bomba atômica a menos de 500 metros do hipocentro de Hiroshima

Tsunehiro Tomoda, o último sobrevivente da bomba atômica a menos de 500 metros do hipocentro de Hiroshima

Conheça a história de Tsunehiro Tomoda, o último sobrevivente conhecido da bomba de Hiroshima exposto a menos de 500 metros do hipocentro.

A história de Tsunehiro Tomoda é uma das mais impressionantes entre os testemunhos ainda vivos sobre o bombardeio atômico de Hiroshima.

Aos 90 anos, Tsunehiro Tomoda carrega no corpo e na memória uma história que começou quando ele tinha apenas 9 anos. Em 6 de agosto de 1945, ele estava no porão de sua escola, a poucos centenas de metros do hipocentro da explosão atômica de Hiroshima.

Nas décadas seguintes, ele enfrentou doenças, orfandade, pobreza e até os horrores da Guerra da Coreia. Hoje, é considerado o último sobrevivente conhecido entre as pessoas expostas à bomba a uma distância tão curta.

Um menino de nove anos em Hiroshima

Ele tinha apenas 9 anos de idade quando a bomba foi lançada sobre a cidade, em 6 de agosto de 1945. Naquele momento, estava na escola, localizada muito próxima do hipocentro.

Tomoda nasceu em Hiroshima e vivia com sua mãe, Tatsuyo, e seu irmão mais novo, Yukio, dois anos mais novo.

A mãe mantinha uma loja de roupas e, segundo a lembrança do filho, era uma mulher gentil.

A família vivia perto da área que posteriormente ficaria associada à Cúpula da Bomba Atômica e ao centro da destruição provocada pela explosão.

Tomoda estudava na Escola Nacional de Fukuromachi, localizada próxima ao hipocentro. Na manhã de 6 de agosto de 1945, Tomoda foi para a escola.

Era um dia aparentemente comum. Até que tudo mudou.

Ele estava no porão do edifício quando a bomba explodiu.

Em seu relato, descreveu o momento de maneira simples e aterradora: estava prestes a tirar um dos sapatos quando viu um clarão. Depois, tudo ficou escuro.

O fato de estar no porão provavelmente foi decisivo para sua sobrevivência.

Enquanto isso, do lado de fora, Hiroshima estava destruída.

A poucos metros do inferno

A explosão nuclear produziu calor, pressão e radiação em níveis devastadores.

Na região próxima ao hipocentro, a destruição foi praticamente instantânea.

O solo e as superfícies expostas receberam uma quantidade gigantesca de energia térmica.

Pessoas que estavam ao ar livre nas proximidades do ponto de detonação morreram imediatamente ou sofreram queimaduras fatais.

Edifícios foram destruídos.

Incêndios se espalharam.

A cidade que existia antes da explosão deixou de existir em questão de segundos.

Tomoda, entretanto, continuava vivo no porão.

Quando ele subiu as escadas…

Tsunehiro Tomoda, o último sobrevivente da bomba atômica a menos de 500 metros do hipocentro de Hiroshima

Foi ao deixar o abrigo subterrâneo que o menino de nove anos encontrou uma realidade que jamais esqueceria. Ao subir as escadas, viu corpos espalhados pela escola.

Em seu relato, lembrou que muitas pessoas estavam completamente negras devido às queimaduras. Entre os mortos estava Yukio, seu irmão mais novo.

Tomoda acredita que o irmão havia ido procurá-lo.

Ele estava no topo da escada.

O menino estava tão queimado que era difícil reconhecê-lo.

Mas Tomoda identificou os sapatos.

Neles estava escrito o sobrenome da família: Tomoda.

Foi assim que um menino de nove anos reconheceu o corpo do próprio irmão.

A procura pela mãe

Depois de sair da escola, Tomoda tentou voltar para casa.

Mas a residência havia sido destruída pelo fogo.

Sua mãe, Tatsuyo, não estava lá.

O menino procurou por ela, mas não conseguiu encontrá-la.

Ele acreditava que ela poderia ter morrido no rio, onde havia grande quantidade de corpos.

A partir daquele momento, Tomoda perdeu os dois membros mais próximos de sua família.

Uma segunda tragédia: tornou-se órfão novamente

A história de Tomoda não terminou em Hiroshima.

Cerca de um mês depois do bombardeio, ele deixou o Japão e foi levado para a Península Coreana por uma conhecida coreana que se compadeceu da situação do menino órfão.

Mas a vida na Coreia também foi extremamente difícil.

Tomoda sofreu hostilidade e bullying por parte de familiares do marido dessa mulher, em um contexto marcado pelo ressentimento contra o Japão após o período colonial.

Mais uma vez, ele ficou sozinho.

Passou a viver nas ruas e enfrentou o frio intenso.

Se Hiroshima havia destruído sua família, a situação posterior continuou a testar seus limites de sobrevivência.

A Guerra da Coreia

Em 1950, quando Tomoda tinha apenas 14 anos, começou a Guerra da Coreia.

Para um adolescente que já havia sobrevivido à destruição nuclear de Hiroshima, uma nova guerra representou outro capítulo de violência.

Tomoda posteriormente recordou ter presenciado tiroteios.

Era uma experiência extraordinariamente difícil para alguém que ainda carregava as lembranças do bombardeio.

A guerra que havia começado em Hiroshima não era a mesma guerra, mas, para ele, a violência parecia nunca ter terminado.

O retorno ao Japão

Aos 24 anos, Tomoda conseguiu retornar ao Japão, mas decidiu não voltar para Hiroshima.

Preferiu viver em Osaka e a decisão tinha motivos profundos. Ele havia perdido sua família em Hiroshima e carregava memórias extremamente dolorosas da cidade.

Além disso, depois de tantos anos na Coreia, havia perdido parte de sua capacidade de falar japonês e Osaka possuía uma grande comunidade coreana, o que contribuiu para sua escolha.

Mas havia sobretudo uma razão emocional: ele não queria lembrar das cenas que havia testemunhado em Hiroshima.

Durante décadas, Tomoda manteve distância de Hiroshima. A cidade havia sido seu lar, mas também era o lugar onde sua infância terminou.

O rio próximo de sua antiga casa evocava lembranças dos corpos que viu depois da explosão. A escola lembrava seu irmão. As ruas lembravam a destruição.

Voltar significava reencontrar um passado que ele havia tentado manter distante. Por isso, sua vida seguiu em Osaka.

A radiação que permaneceu no corpo

Tsunehiro Tomoda, o último sobrevivente da bomba atômica a menos de 500 metros do hipocentro de Hiroshima

Sobreviver à explosão não significou escapar de suas consequências.

Tomoda recebeu uma dose muito elevada de radiação por estar tão próximo do hipocentro.

Décadas depois, exames médicos identificaram alterações cromossômicas em seu organismo.

O Dr. Nanao Kamada, professor emérito da Universidade de Hiroshima, que trabalha em um estudo de saúde com “pessoas que foram expostas à bomba atômica a curta distância” trata do Sr. Tomoda há mais de 50 anos.

Tomoda também desenvolveu câncer de estômago e precisou passar por uma cirurgia na qual parte do estômago foi removido. O acompanhamento médico deve continuar durante toda a sua vida pois os efeitos ainda podem aparecer muitos anos depois.

O retorno à antiga escola

Em novembro do ano passado, Tomoda tomou uma decisão corajosa.

Voltou a Hiroshima e visitou sua antiga escola.

A Escola Nacional de Fukuromachi foi reconstruída no mesmo local onde estava em 1945.

Uma parte do antigo porão foi preservada e transformada em espaço de memória.

Foi justamente naquele porão que Tomoda estava quando a bomba explodiu.

O lugar que um dia havia sido seu abrigo tornou-se uma espécie de ponte entre seu passado e o presente.

A conversa com as crianças

Ao retornar à escola, Tomoda foi recebido por crianças com aproximadamente a mesma idade que ele e Yukio tinham naquele dia.

Tomoda contou às crianças o que havia visto. Falou sobre a explosão. Sobre as nuvens que se elevaram no céu. Sobre professores e alunos mortos. 

E, sobretudo, sobre seu irmão. As crianças ouviam em silêncio.

Ao relembrar da cena do seu irmão morto, Tomoda não conseguiu segurar as lágrimas.

Depois de ouvir o relato, uma das crianças disse que não queria que ninguém jamais experimentasse a dor e a tristeza que haviam feito Tomoda chorar.

Ela afirmou que queria preservar aquele sentimento e transmiti-lo às gerações futuras.

Tomoda respondeu com poucas palavras:

Por favor, façam o melhor que puderem.”

E expressou aquilo que parece ser o desejo central de sua vida:

“Não quero que mais ninguém passe pela mesma experiência.”

O último sobrevivente de uma distância extrema

A história de Tomoda possui também uma dimensão histórica excepcional.

O número de pessoas que estavam muito próximas do hipocentro e sobreviveram foi extremamente pequeno.

Apenas 78 pessoas sobreviveram inicialmente dentro de um raio de 500 metros.

Entre os mais conhecidos estavam o Eizo Nomura, que sobreviveu estando a apenas 170 metros do hipocentro

Ao longo de 81 anos, esses sobreviventes morreram um após outro.

Tomoda, aos 90 anos, é apontado como o último sobrevivente desse grupo.

Isso transforma sua memória em algo ainda mais urgente.

Quando ele desaparecer, desaparecerá também uma testemunha direta de uma experiência que praticamente nenhuma outra pessoa poderá contar da mesma posição.

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Sou apaixonada pelo Japão e sua cultura. Resolvi criar esse blog com o intuito de fazer com que mais e mais pessoas conheçam essa cultura tão rica, incrível e fascinante!

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