Desenhos dos Sobreviventes da Bomba Atômica: quando os hibakusha transformaram a memória em imagens

Os “Desenhos dos Sobreviventes da Bomba Atômica” reúne milhares de ilustrações que as fotografias da época não conseguiram registrar.
Genbaku no E (原爆の絵), ou “Desenhos da Bomba Atômica”, são registros visuais produzidos por sobreviventes de Hiroshima para preservar as lembranças do bombardeio de 6 de agosto de 1945.
A coleta dessas obras começou em 1974, após um sobrevivente apresentar seus desenhos à NHK Hiroshima. O projeto reuniu milhares de imagens, muitas feitas por pessoas que não eram artistas, mas que carregavam memórias profundas da tragédia.
Os desenhos retratam incêndios, ruínas, pessoas feridas, mortos, crianças procurando familiares e cenas do cotidiano destruído pela explosão.
Diferentemente de fotografias, eles representam não apenas o que aconteceu, mas como os sobreviventes lembraram aquilo que testemunharam.
Hoje, cerca de 5 mil desenhos estão preservados pelo Museu Memorial da Paz de Hiroshima. Com o envelhecimento dos hibakusha, essas imagens assumem um papel cada vez mais importante na transmissão da memória às novas gerações.
Mais do que obras de arte, os Genbaku no E são testemunhos de uma cidade e de uma geração que jamais devem ser esquecidos.
O início de uma coleção impactante e extraordinária
Desenho de Kimura Hideo, 12 anos na época do bombardeio.
“Meus colegas gritavam. Queimados no rosto, braços, pés, pernas e costas. Presos sob portões pesados e casas, eles gritavam por socorro. Alguns clamavam por ajuda do rio, agarrando-se ao aterro de pedra contra a força da maré crescente.”
Um dos capítulos mais importantes dessa história começou em 1974.
Naquele ano, um sobrevivente de Hiroshima de 77 anos foi até a sede da emissora de TV NHK em Hiroshima para entregar um desenho simples feito a lápis.
Ele explicou que, conforme envelhecia, as imagens daquele dia ficavam mais nítidas em sua mente e ele sentia a necessidade urgente de registrar o que viveu antes de morrer.
Comovida, a NHK lançou um apelo nacional no rádio e na televisão pedindo que outros sobreviventes desenhassem suas memórias. O museu esperava receber algumas dezenas de contribuições, mas foi inundado por mais de 2.200 desenhos enviados por pessoas comuns (donas de casa, motoristas de ônibus, carpinteiros e professores).
Hoje, segundo a Fundação de Cultura da Paz de Hiroshima, o acervo total passa de 5.000 ilustrações que posteriormente ficaram conhecidas como “Shimin ga egaita genbaku no e” (市民が描いた原爆の絵) — “Desenhos da bomba atômica feitos pelos cidadãos”.
Por que os sobreviventes começaram a desenhar décadas depois?
Desenho de Onogi Akira, 15 anos na época do bombardeio.
“As pessoas que buscavam água se reuniam ao redor das cisternas. Encontrei-as exatamente como estavam quando beberam e morreram. Meu coração se aperta enquanto aplico a cor vermelha.”
Como quase todas as câmeras fotográficas da cidade foram destruídas ou derretidas pelo calor de 4.000 °C em 6 de agosto de 1945, as poucas fotos reais daquele dia retratam apenas fumaça e escombros de longe.
Os desenhos dos sobreviventes são os únicos registros visuais do que aconteceu nos minutos e horas logo após o clarão. Eles não foram produzidos imediatamente após a explosão. Muitos foram feitos quase três décadas depois.
Isso pode parecer surpreendente. Afinal, quanto mais tempo passa, maior seria a possibilidade de as lembranças desaparecerem. Mas, para muitos sobreviventes, o problema era justamente o contrário.
Durante décadas, pessoas carregaram dentro de si cenas que haviam testemunhado quando eram crianças, adolescentes ou adultos. Em determinado momento, surgiu a necessidade de registrar aquilo.
Quase todos os desenhos trazem textos, poemas ou relatos manuscritos nas bordas escritos pelas próprias vítimas.
Eles detalham os nomes das ruas, a hora exata da cena, o que as pessoas estavam gritando e, em muitos casos, pedidos desesperados de desculpas por não terem conseguido salvar um parente ou vizinho preso nos escombros.
A memória que não cabia em fotografias
Desenho de Yamagata Yasuko, 17 anos na época do bombardeio.
“Soltei um suspiro de espanto ao ver algo estranho e me aproximei para observar melhor. O cadáver de uma mulher embalando seu bebê, ambos completamente carbonizados, enquanto a mulher permanecia em posição de corrida, com uma perna levantada.”
A grande maioria dos desenhos foi feita com materiais simples do dia a dia, como lápis de cor, giz de cera, aquarela e canetas esferográficas sobre pedaços de papel comum ou versos de calendários.
O amadorismo dos traços, longe de enfraquecer as obras, amplifica o sentimento de urgência e autenticidade do trauma individual.
Enquanto fotografias registra aquilo que estava diante da câmera, o desenho registra aquilo que permaneceu na memória de uma pessoa. Isso faz diferença.
Uma fotografia pode mostrar uma rua destruída. Um desenho pode mostrar o que o sobrevivente sentiu ou aquilo que ele se lembra de ter visto. São como testemunhos pessoais.
Muitos desenhos registraram o momento em que a bomba explodiu, onde a luz era tão intensa que parecia uma espécie de clarão. Outros registraram a cidade incendiada enquanto outros, o foco está em pessoas caídas, feridas ou caminhando sem rumo.
Essa variedade é importante porque não existe uma única experiência de Hiroshima.
Cada sobrevivente estava em um local diferente. Cada um viu a explosão de um ângulo diferente. Cada pessoa viveu aquele instante de maneira única.
Os braços esticados e a pele se desprendendo
Desenho de Yoshimura Kichisuke, 18 anos na época do bombardeio.
“Na margem do rio, vi figuras que pareciam ser de outro mundo. Fantasmagóricas, com os cabelos caindo sobre os rostos, as roupas em farrapos e a pele pendurada. Um grupo dessas pessoas feridas se movia silenciosamente em direção à periferia.”
Uma das imagens mais recorrentes nos testemunhos de Hiroshima é a de pessoas caminhando com a pele gravemente queimada. Algumas vítimas sofreram queimaduras tão severas que a pele se desprendia do corpo.
Os sobreviventes que testemunharam essas cenas muitas vezes lembraram-se das vítimas caminhando com os braços estendidos para a frente. Essa postura aparece em diversos relatos sobre Hiroshima.
Nos desenhos, ela ganha uma dimensão visual particularmente forte.
O silêncio dos mortos
Desenho de Ishizu Kazuhiro, 37 anos na época do bombardeio
“Pensei que uma bomba tivesse explodido bem em cima da minha cabeça, mas a cidade inteira desabou. E queimou tão rápido! Vozes próximas e distantes gritavam por socorro em meio a uma dor desesperada.”
Outro elemento recorrente é a presença dos mortos. Os desenhos mostram ruas onde as pessoas simplesmente deixaram de existir em uma fração de segundo.
Corpos aparecem entre os escombros. Pessoas mortas são encontradas em casas, escolas, ruas e áreas próximas aos rios. A morte aparece como parte do cotidiano.
Esse aspecto é especialmente importante porque impede que Hiroshima seja compreendida apenas como um evento militar. Para quem estava na cidade, a bomba significou uma transformação instantânea da vida cotidiana em uma paisagem de morte.
Crianças procurando os pais
Desenho de Maeda Sakae, 40 anos na época do bombardeio.
“Não havia como cuidar das queimaduras e dos ferimentos sangrentos dos alunos que correram para o pátio da escola. Tudo o que podíamos fazer era colocar um pouco de óleo de cozinha em um balde e, em seguida, passar em seus rostos com panos.”
Entre os temas mais dolorosos presentes nos testemunhos estão as crianças.
Muitas ficaram separadas dos pais. Algumas procuravam familiares entre os escombros. Outras ficaram órfãs.
Algumas sobreviveram sem saber imediatamente o que havia acontecido com suas famílias.
Quando os sobreviventes desenharam essas cenas décadas mais tarde, estavam reconstruindo não apenas o que viram, mas também experiências que haviam marcado toda a sua vida.
O rio como lugar de memória
Desenho de Takahara Yoshio, 34 anos na época do bombardeio.
“As ruas estavam intransitáveis, cobertas de telhas e pedaços de madeira, então todos se dirigiram para o rio. Alguns morreram e foram levados pela correnteza.”
Os rios de Hiroshima aparecem repetidamente nos testemunhos. Depois da explosão, muitas pessoas correram para os rios em busca de alívio para as queimaduras.
Muitos morreram nas margens ou dentro da água. Por isso, desenhos de pessoas junto à água aparecem com frequência na memória visual de Hiroshima.
O rio, que antes fazia parte da paisagem cotidiana da cidade, passou a carregar uma associação permanente com a tragédia.
O fogo que continuou depois da explosão
Desenho de Koma Yoshie, 14 anos na época do bombardeio.
“Enquanto eu voltava para casa, uma chuva negra caiu e molhou o chão,
dificultando a caminhada. Ouvi pessoas por toda parte gritando por seus filhos e implorando por ajuda. Mal consegui chegar em casa para minha mãe e meu irmão de quatro anos.”
A bomba não produziu apenas uma explosão.
Incêndios se espalharam por Hiroshima, transformando a cidade em uma enorme paisagem de ruínas. Os sobreviventes precisaram fugir enquanto procuravam familiares.
Alguns desenhos registram esse momento de caos.
É comum encontrar imagens nas quais o vermelho das chamas domina a composição.
Mesmo quando a técnica artística é simples, a mensagem é poderosa.
Por que os desenhos começaram a ser coletados em 1974?
Desenho de Tanimoto Hatsuto, 41 anos na época do bombardeio.
“Tanto o pai quanto a criança estavam tão carbonizados que eu não conseguia nem dizer o sexo.”
O início da coleta ocorreu em um período importante. Quase três décadas haviam passado desde o bombardeio.
A sociedade japonesa estava mudando. Os sobreviventes envelheciam e existia uma preocupação crescente de que experiências pessoais fossem perdidas.
A coleta dos desenhos ajudou a preservar memórias que poderiam desaparecer com a morte das testemunhas.
Hoje, a própria cidade de Hiroshima reconhece a necessidade de desenvolver novas formas de transmitir a experiência dos hibakusha às próximas gerações, inclusive por meio da digitalização e de novas tecnologias.
O papel do Museu Memorial da Paz de Hiroshima
Desenho de Kihara Toshiko, 17 anos na época do bombardeio.
“Meu olhar foi atraído por um bonde avermelhado pelo fogo, parado em Tenma-cho. Dentro do bonde e espalhadas do lado de fora, havia pessoas queimadas até virarem carvão.”
O Museu Memorial da Paz de Hiroshima possui uma das mais importantes coleções relacionadas à memória do bombardeio.
Entre seus materiais estão objetos pessoais, fotografias, documentos, testemunhos e desenhos. A coleção de desenhos é particularmente importante porque reúne experiências de pessoas comuns.
O museu mantém uma exposição permanente em que originais dos “Desenhos da Bomba Atômica feitos pelos cidadãos” são apresentados. As obras são alternadas para reduzir os danos provocados pela exposição prolongada e garantir sua preservação.
Hiroshima ainda guarda milhares de memórias
A preservação desses desenhos se torna especialmente importante à medida que a geração dos hibakusha envelhece.
A cidade de Hiroshima reconhece que chegará uma época em que os sobreviventes não poderão mais transmitir pessoalmente suas experiências, razão pela qual vem desenvolvendo novas formas de preservar e compartilhar seus testemunhos, inclusive por meios digitais.
Até mesmo os números relacionados à tragédia continuam carregando uma dimensão humana difícil de quantificar. Estima-se que aproximadamente 140 mil pessoas tenham morrido até o fim de dezembro de 1945 em consequência do bombardeio em Hiroshima.
Em 2025, o registro oficial de mortos mantido pela cidade chegou a 349.246 nomes, considerando aqueles que morreram em decorrência da bomba e foram registrados no memorial até 6 de agosto daquele ano.
Os desenhos representam apenas uma pequena parte dessas histórias. Mas cada um deles carrega uma lembrança que, sem esse registro, poderia desaparecer.
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