O dia em que Charles Chaplin quase foi assassinado no Japão

Descubra por que Charles Chaplin foi alvo de um plano de assassinato no Japão durante o Incidente de 15 de Maio de 1932 e como escapou por acaso.
Após o lançamento de Luzes da Cidade (1931), Charles Chaplin iniciou uma longa viagem pelo mundo para descansar e um dos destinos mais esperados por ele nessas férias era o Japão já que ator britânico era profundamente fascinado pela cultura japonesa.
Dois anos antes, em Los Angeles, ele assistira a uma apresentação de um grupo de teatro samurai (kengeki) e se encantara pelas lutas de espadas e pela estética tradicional do país.
Charles Chaplin viajou para o Japão em 1932 com o desejo genuíno de passear pelo interior, assistir a lutas de sumô e conhecer o teatro japonês de perto.
Também aproveitaria a estadia para promover e negociar pessoalmente os direitos de exibição de Luzes da Cidade em cinemas locais, além de interagir com seus milhares de fãs asiáticos.
Ele viajou acompanhado de seu irmão, Sydney Chaplin, e de seu secretário e motorista particular, Toraichi Kono, um imigrante japonês que trabalhou com Chaplin por 18 anos e que o ajudou a planejar o roteiro perfeito pelo arquipélago
Porém, em 1932, o Japão vivia um dos períodos mais turbulentos de sua história moderna. A crise econômica mundial, o crescimento do ultranacionalismo e a influência cada vez maior das Forças Armadas criavam um ambiente explosivo.
Foi nesse contexto que um grupo de jovens oficiais da Marinha Imperial elaborou um plano ousado: assassinar não apenas o primeiro-ministro japonês, mas também um dos homens mais famosos do planeta, o ator britânico Charles Chaplin.
O plano acabou fracassando por um detalhe do destino. Chaplin mudou seus planos de última hora e escapou da morte por poucas horas.
Em seu lugar, quem acabou assassinado foi o primeiro-ministro japonês Inukai Tsuyoshi, em um atentado que ficou conhecido como o Incidente de 15 de Maio (五・一五事件 – Go-Ichigo Jiken).
O episódio marcou o fim da democracia partidária no Japão pré-guerra e acelerou o caminho que levaria o país à militarização e, posteriormente, à Segunda Guerra Mundial.
O Japão em crise
No início da década de 1930, o Japão enfrentava enormes dificuldades.
A Grande Depressão, iniciada em 1929, atingiu duramente a economia japonesa. Agricultores empobreciam, empresas fechavam e o desemprego aumentava rapidamente.
Ao mesmo tempo, muitos militares acreditavam que os políticos civis eram corruptos, frágeis e incapazes de defender os interesses nacionais.
Entre jovens oficiais crescia a ideia de que somente um governo militar forte poderia restaurar a grandeza do Japão.
O nascimento da conspiração
O grupo responsável pelo atentado era formado por jovens oficiais da Marinha Imperial Japonesa, apoiados por civis ultranacionalistas.
Eles pretendiam provocar uma grande crise política.
Seu objetivo era eliminar figuras consideradas responsáveis pela decadência do país e provocar uma revolução nacionalista.
Entre os alvos estavam:
● o primeiro-ministro Inukai Tsuyoshi;
● líderes financeiros;
● empresários;
● políticos influentes.
Mas havia um nome inesperado na lista.
Charles Chaplin.
Por que Charles Chaplin?
À primeira vista, parece estranho imaginar que um ator de cinema estivesse na mira de extremistas japoneses.
Entretanto, Chaplin era provavelmente a celebridade mais famosa do mundo naquele momento.
Sua visita oficial ao Japão, em maio de 1932, recebeu enorme cobertura da imprensa internacional.
Os conspiradores acreditavam que matar Chaplin teria consequências muito maiores do que assassinar apenas um político japonês.
Segundo relatos históricos posteriores, eles imaginavam que o assassinato de um ícone mundial poderia provocar uma forte reação dos Estados Unidos e do Reino Unido.
Com isso criaria uma crise internacional que fortaleceria o nacionalismo japonês e justificaria uma expansão militar ainda maior.
Era uma lógica extremista baseada na ideia de que uma guerra unificaria a população em torno das Forças Armadas.
A visita de Chaplin ao Japão
A viagem de Chaplin incluía encontros oficiais, eventos culturais e passeios turísticos.
Durante sua estadia, ele também foi recebido por autoridades japonesas e participou de diversos compromissos públicos.
Um dos anfitriões era Inukai Ken, filho do primeiro-ministro Inukai Tsuyoshi.
Essa amizade aproximou Chaplin da família do primeiro-ministro — justamente quando os conspiradores preparavam o ataque.
O plano quase perfeito
O plano inicial previa matar Chaplin durante um encontro com o primeiro-ministro.
Os conspiradores acreditavam que eliminar simultaneamente uma personalidade internacional e o chefe do governo produziria enorme repercussão mundial.
Entretanto, ocorreu um imprevisto.
Na noite de 15 de maio de 1932, Chaplin decidiu alterar sua programação.
Em vez de comparecer ao jantar oficial com o primeiro-ministro, aceitou um convite para assistir a uma apresentação de sumô ao lado de Inukai Ken.
Essa simples mudança de agenda salvou sua vida.
O assassinato do primeiro-ministro

invadiram a residência do Primeiro-Ministro.
Sem encontrar Chaplin, os conspiradores seguiram com a operação.
Na residência oficial do primeiro-ministro, cerca de onze assassinos impiedosos invadiram o local armados enquanto outro grupo de conspiradores lançava granadas contra vários edifícios em Tóquio, incluindo a sede do Banco Mitsubishi.
Inukai Tsuyoshi tentou dialogar com os invasores.
Segundo o relato mais conhecido, suas últimas palavras teriam sido:
“Se conversarmos, vocês compreenderão.”
Os atacantes responderam que o diálogo já não era possível.
Pouco depois, dispararam contra o primeiro-ministro, que morreu horas mais tarde em consequência dos ferimentos.
Chaplin nunca chegou ao local.
O Pós-Atentado e a Reação de Chaplin
Ao retornar para o Imperial Hotel, Chaplin deparou-se com a cidade tomada por soldados e caos. Dias depois, durante os julgamentos dos militares, as investigações oficiais e os depoimentos dos próprios réus confirmaram publicamente que o nome do ator estava na lista de execução programada.
Assustado com a instabilidade política e ciente de que os extremistas ainda circulavam por Tóquio, o governo japonês designou uma escolta armada de detetives à paisana para acompanhar o ator 24 horas por dia.
Ao prestar homenagens à família do primeiro-ministro morto, Chaplin comentou que a segurança do local era fraca e previu que novos incidentes piorariam o país — o que de fato aconteceu anos depois com o avanço do fascismo japonês rumo à Segunda Guerra Mundial.
Em sua obra Minha Autobiografia (lançada originalmente em 1964), Charles Chaplin dedicou capítulos inteiros à sua marcante viagem de 1932.
Suas impressões sobre o Japão revelam uma dualidade profunda: um encantamento poético com a estética tradicional e o povo japonês, contrastado com o choque diante do clima de fanatismo político e violência que quase lhe custou a vida.
Chaplin relembrou com detalhes a atmosfera sinistra após o assassinato do Primeiro-Ministro Inukai. Ele admitiu ter vivido momentos de terror psicológico e paranoia quando ficou trancado no Imperial Hotel. Na autobiografia, ele relata:
“Fiquei sabendo que eu deveria ser assassinado para provocar uma guerra com os Estados Unidos… Pelos dias seguintes, cada ruído no corredor do hotel me sobressaltava. Eu tinha certeza de que tentariam me envenenar, e passei a desconfiar de cada prato que me serviam“.
Quem foi Inukai Tsuyoshi?
Inukai Tsuyoshi havia assumido o cargo de primeiro-ministro em dezembro de 1931.
Ele defendia:
● maior controle civil sobre os militares;
● negociações diplomáticas internacionais;
● contenção das ações militares independentes.
Essas posições desagradavam setores radicais das Forças Armadas.
Sua morte representou um duro golpe para o sistema político japonês.
O julgamento dos conspiradores
Após o atentado, os responsáveis foram presos e julgados.
Entretanto, algo surpreendente aconteceu. Durante o julgamento nos tribunais militares, a defesa dos jovens oficiais da Marinha e do Exército argumentou que eles agiram puramente por “patriotismo” e “lealdade ao Imperador”, visando livrar o Japão de políticos corruptos.
A população japonesa, fortemente influenciada pela propaganda ultranacionalista, simpatizava com os jovens oficiais os via como heróis idealistas. O tribunal recebeu mais de 110.000 cartas de cidadãos comuns pedindo a absolvição dos réus.
Algumas escolas enviaram petições em apoio aos acusados. Houve até relatos de simpatizantes que enviaram pequenas quantias de dinheiro para ajudar na defesa dos conspiradores. O tribunal recebeu uma petição pela sua libertação que continha 350 mil assinaturas, todas assinadas com sangue.
Em uma das demonstrações mais extremas de fanatismo da época, um grupo de nove jovens cortou os próprios dedos mínimos e os enviou em conserva ao tribunal como prova de sinceridade, oferecendo-se para serem executados no lugar dos oficiais detidos.
Como consequência, muitos receberam penas relativamente brandas. Nenhum dos conspiradores ou atiradores foi condenado à morte ou à prisão perpétua.
Os líderes diretos do ataque à residência oficial receberam penas que variaram de 4 a 15 anos de prisão em regime fechado.
Devido a decretos sucessivos de anistia geral concedidos pelo governo imperial nos anos seguintes, todos os envolvidos no assassinato do primeiro-ministro já haviam sido libertados da prisão antes de 1939. Esse tratamento reforçou a percepção de que ações violentas em nome do nacionalismo poderiam ser toleradas.
O fim da democracia partidária
O Incidente de 15 de Maio tornou-se um divisor de águas na história japonesa.
Embora o país ainda mantivesse um governo civil por alguns anos, a influência dos partidos políticos diminuiu drasticamente.
Nos anos seguintes:
● os militares passaram a exercer influência cada vez maior sobre o governo;
● aumentaram os assassinatos políticos;
● o expansionismo militar ganhou força;
● o Japão aprofundou sua presença na China;
● o país caminhou para a Segunda Guerra Mundial.
Muitos historiadores consideram o episódio como o início do colapso definitivo da chamada “Democracia Taishō”, período de maior liberalização política no Japão.
O papel do acaso na História
O aspecto mais fascinante desse episódio é o papel desempenhado pelo acaso.
Se Charles Chaplin tivesse comparecido ao jantar com Inukai Tsuyoshi, provavelmente teria sido morto junto com o primeiro-ministro.
Uma simples decisão de assistir a uma luta de sumô mudou completamente o rumo dos acontecimentos.
Embora o assassinato do primeiro-ministro tenha causado enorme impacto interno, a morte de Chaplin poderia ter provocado uma crise diplomática de proporções imprevisíveis, alterando as relações entre o Japão e as potências ocidentais anos antes da Segunda Guerra Mundial.
Depois desse incidente, Charles Chaplin voltou ao Japão?
Sim. Charles Chaplin visitou o Japão quatro vezes ao longo de sua vida.
Chaplin retornou ao arquipélago quatro anos depois. Por uma coincidência bizarra, o país acabava de passar por outra monstruosa tentativa de golpe militar: o Incidente de 26 de Fevereiro de 1936, ocorrido pouquíssimos dias antes de seu desembarque.
Ainda no mesmo ano, ele passou brevemente pelo país durante uma jornada que realizou pela Ásia ao lado de sua esposa na época, a atriz Paulette Goddard.
Sua 4° e última visita foi em Julho de 1961). Trinta anos após o susto inicial, um Chaplin já idoso (com 72 anos) retornou em uma viagem puramente pacífica e familiar ao lado de sua esposa, Oona, e de seu filho Michael.
Ele foi recebido com imensa festa pela imprensa e por milhares de fãs, aproveitando para rever os locais históricos que o encantaram no passado.
O legado do Incidente de 15 de Maio
Hoje, o Incidente de 15 de Maio é lembrado como um dos momentos decisivos da história política do Japão moderno.
O assassinato de Inukai Tsuyoshi simbolizou o enfraquecimento das instituições democráticas e abriu espaço para a crescente influência militar que marcaria a década de 1930.
Já a história do plano para matar Charles Chaplin permanece como uma das mais curiosas coincidências do século XX.
Um simples passeio para assistir a uma competição de sumô impediu que uma das maiores estrelas do cinema se tornasse vítima de um atentado político, mostrando como decisões aparentemente banais podem mudar o curso da História.
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