Amaterasu: a deusa do Sol e uma das figuras mais importantes da mitologia japonesa

Descubra quem é Amaterasu, a deusa do Sol na mitologia japonesa, sua relação com Susanoo, o mito da caverna e o Santuário de Ise.
Amaterasu Ōmikami (天照大御神) é uma das figuras mais importantes da mitologia e da tradição xintoísta japonesa. Associada ao Sol, à luz, à ordem e à prosperidade, ela ocupa uma posição central nas narrativas do Kojiki e do Nihon Shoki, os dois grandes textos clássicos que preservam antigas tradições mitológicas do Japão.
Seu nome pode ser traduzido aproximadamente como “Grande Divindade que ilumina o céu” ou “Grande Divindade Iluminadora”.
Segundo o Kojiki, Amaterasu nasceu quando o deus Izanagi realizou um ritual de purificação após retornar do mundo dos mortos. Ao lavar o olho esquerdo, surgiu Amaterasu; do olho direito nasceu Tsukuyomi, associado à Lua, e do nariz surgiu Susanoo, o deus ligado às tempestades e ao mar.
Mas Amaterasu é muito mais do que simplesmente uma “deusa solar”.
Ela está no centro de uma das histórias mais famosas da mitologia japonesa: o mito de Ama-no-Iwato, quando a divindade se esconde em uma caverna e o mundo mergulha na escuridão.
Sua história também está diretamente relacionada ao Santuário de Ise, um dos lugares mais sagrados do xintoísmo, e à tradição que apresenta Amaterasu como ancestral divina da linhagem imperial japonesa.
Quem é Amaterasu?
Amaterasu é conhecida em japonês como Amaterasu Ōmikami (天照大御神).
Ela também aparece nas fontes antigas com outras formas de nome, incluindo Amaterasu Ōkami (天照大神) e nomes relacionados à sua natureza como divindade solar.
A base de dados de nomes divinos da Universidade Kokugakuin registra diferentes denominações e tradições associadas à personagem.
Na tradição do Kojiki, Amaterasu é uma das chamadas Três Crianças Nobres, juntamente com Tsukuyomi e Susanoo.
Seu domínio é Takamagahara (高天原), o mundo celestial onde vivem muitas das divindades do panteão xintoísta.
Ela é apresentada como uma divindade de enorme autoridade e como aquela que governa o mundo celestial.
Por isso, sua importância vai muito além da representação do Sol.
Amaterasu está associada à luz que torna possível a vida, à ordem do mundo e à continuidade da sociedade.
O nascimento de Amaterasu
Uma das versões mais conhecidas sobre o nascimento de Amaterasu aparece no Kojiki, compilado em 712.
Depois de retornar de Yomi, o mundo dos mortos, Izanagi realizou um processo de purificação chamado misogi.
Durante essa purificação, várias divindades nasceram. Quando Izanagi lavou o olho esquerdo, surgiu Amaterasu Ōmikami.
Do olho direito surgiu Tsukuyomi-no-Mikoto, associado à Lua.
E de seu nariz nasceu Susanoo-no-Mikoto, conhecido por seu temperamento turbulento e por suas associações com tempestades e outros aspectos da natureza.
A Universidade Kokugakuin observa, entretanto, que as versões presentes no Kojiki e no Nihon Shoki não são idênticas. O Nihon Shoki, por exemplo, apresenta outras versões para o nascimento de Amaterasu.
Isso é importante porque a mitologia japonesa não possui uma única narrativa absolutamente uniforme.
Existem diferentes versões e tradições preservadas nos textos antigos.
Amaterasu e o deus Susanoo

Uma das relações mais importantes da mitologia japonesa é a existente entre Amaterasu e seu irmão Susanoo.
Os dois protagonizam um dos episódios mais dramáticos das antigas narrativas japonesas.
Susanoo visita Takamagahara, onde Amaterasu governa. Inicialmente, os dois realizam um ritual de confirmação de intenções chamado ukehi.
Nesse episódio, cada divindade utiliza objetos pertencentes à outra para gerar novas divindades.
Mas a relação entre os irmãos rapidamente se deteriora. Susanoo passa a realizar atos destrutivos.
Segundo a tradição preservada pelo Santuário de Ise, ele destrói os limites dos campos de arroz, interfere nas plantações, danifica instalações e finalmente joga um cavalo esfolado no salão onde Amaterasu e suas companheiras teciam.
Amaterasu fica profundamente perturbada.
E então toma uma decisão que mudaria o mundo.
O mito de Ama-no-Iwato: quando Amaterasu desapareceu
Imagem: photo-ac
O episódio é conhecido como Ama-no-Iwato (天岩戸), a “Caverna Celestial”.
Depois das ações de Susanoo, Amaterasu se refugia dentro de uma caverna e fecha a entrada.
O resultado é imediato. O mundo perde a luz. A escuridão toma conta de Takamagahara e do mundo terrestre.
Com a ausência da luz solar, diversos males começam a surgir.
Os outros kami percebem que precisam fazer Amaterasu sair da caverna.
E então elaboram um plano.
Como os deuses tiraram Amaterasu da caverna?
Os deuses se reúnem diante da caverna.
Eles produzem objetos sagrados e realizam cerimônias.
Entre esses objetos está o Yata-no-Kagami, o Espelho de Oito Palmos, que posteriormente se tornaria um dos Três Tesouros Sagrados do Japão.
Também é utilizado o Yasakani-no-Magatama, uma joia sagrada.
Mas o elemento mais curioso do plano é a participação da deusa Ame-no-Uzume.
Ela começa a dançar de maneira tão divertida e provocadora que os outros kami começam a rir.
Amaterasu, escondida dentro da caverna, ouve toda aquela movimentação e fica curiosa.
Por que os deuses estão comemorando se o mundo está mergulhado na escuridão?
Então abre a porta apenas um pouco. Nesse momento, vê seu próprio reflexo no espelho.
Curiosa, aproxima-se. É então que Ame-no-Tajikarao, uma divindade associada à força física, abre a porta e retira Amaterasu da caverna.
A luz retorna ao mundo.
O significado do mito da caverna

O episódio de Ama-no-Iwato é muito mais do que uma história sobre uma divindade escondida.
Ele pode ser interpretado como uma narrativa sobre:
● luz e escuridão;
● ordem e caos;
● vida e ausência de vida;
● isolamento e comunidade;
● renovação;
● equilíbrio entre as forças divinas.
A própria tradição do Santuário de Ise interpreta a história como uma representação da natureza luminosa e benéfica de Amaterasu.
Existe ainda uma característica interessante:
Amaterasu não é simplesmente derrotada ou obrigada a sair.
Ela é atraída pela curiosidade, pela beleza e pela celebração.
O espelho desempenha um papel fundamental.
Ele mostra à própria deusa sua imagem e ajuda a despertar seu interesse pelo que está acontecendo do lado de fora.
Por que Amaterasu está associada ao Sol?
A associação de Amaterasu com o Sol é central em sua identidade.
No Nihon Shoki, ela aparece também como Hi no Kami, “Divindade do Sol”, e outras denominações relacionadas à luminosidade.
A Universidade Kokugakuin destaca que a característica solar é um dos elementos fundamentais de sua representação nas tradições do Kojiki e do Nihon Shoki.
O Sol, nesse contexto, representa algo muito maior do que simplesmente um astro. Ele fornece luz, calor, crescimento e condições para a agricultura.
Por isso, a imagem de Amaterasu está profundamente relacionada à prosperidade e à produção de arroz.
Amaterasu e o arroz

A relação entre Amaterasu e o arroz é especialmente importante para compreender sua presença na tradição xintoísta.
Segundo a tradição de Ise, Amaterasu transmitiu ao seu neto Ninigi-no-Mikoto uma espiga de arroz para que ela fosse levada ao mundo terrestre.
O arroz representa alimento, agricultura, prosperidade e continuidade.
O Santuário de Ise mantém até hoje rituais relacionados ao ciclo agrícola e oferece os primeiros grãos de arroz colhidos em seus campos a Amaterasu durante o Kanname-sai, uma das principais cerimônias anuais do santuário.
Assim, a divindade solar também está relacionada à ideia de abundância e sustento da comunidade.
O neto de Amaterasu e a descida à Terra

Outro episódio fundamental é o chamado Tenson Kōrin (天孫降臨), a “descida do neto celestial”.
Amaterasu envia seu neto, Ninigi-no-Mikoto, para governar o mundo terrestre.
Segundo a tradição preservada pelo Santuário de Ise, ela entrega a Ninigi três objetos sagrados:
Yata-no-Kagami — o espelho;
Yasakani-no-Magatama — a joia;
Kusanagi-no-Tsurugi — a espada.
Eles formariam posteriormente os Três Tesouros Sagrados do Japão, conhecidos como Sanshu no Jingi. O neto de Amaterasu desce ao Japão e, segundo a tradição mitológica, seus descendentes formariam a linhagem imperial.
É aqui que Amaterasu passa a ter uma importância que ultrapassa a mitologia.
Amaterasu e a família imperial japonesa
Na tradição xintoísta, Amaterasu é considerada a ancestral divina da família imperial japonesa.
O Santuário de Ise a descreve como 御祖神 (mioyagami) da família imperial, ou seja, a divindade ancestral da casa imperial.
Segundo a narrativa tradicional, Ninigi é descendente de Amaterasu e seu bisneto seria Jimmu, apresentado pela tradição como o primeiro imperador do Japão.
É importante, porém, separar pois mitologia tradicional é diferente de história comprovada. A genealogia divina da família imperial pertence ao universo mitológico e religioso das antigas crônicas japonesas.
Ela não pode ser tratada como uma genealogia histórica comprovada no sentido moderno.
O Yata-no-Kagami: o espelho de Amaterasu
Entre os símbolos relacionados à deusa, nenhum é tão importante quanto o Yata-no-Kagami.
O espelho aparece no episódio de Ama-no-Iwato.
É ele que ajuda a atrair Amaterasu para fora da caverna.
Posteriormente, torna-se um dos Três Tesouros Sagrados.
No Santuário de Ise, o espelho é considerado o shintai, ou objeto que representa a presença divina de Amaterasu no santuário.
O objeto em si não é apresentado ao público como uma peça de exposição comum.
Ele pertence ao espaço mais sagrado do Naikū, o Santuário Interior de Ise.
Onde Amaterasu é cultuada?
Imagem: depositphotos
O principal local associado a Amaterasu é o Kōtai Jingū — Naikū no Santuário de Ise ou simplesmente “ Ise Jingū”. O santuário está localizado na cidade de Ise, na província de Mie.
Sua história remonta a aproximadamente 2 mil anos e neste local o Yata-no-Kagami é cultuado como o objeto sagrado associado à deusa.
Toyouke Daijingū — Gekū
O santuário externo é dedicado a Toyouke Ōmikami, divindade relacionada à alimentação e aos recursos necessários para o sustento de Amaterasu e de outras divindades.
A relação entre Naikū e Gekū é fundamental para compreender a estrutura religiosa de Ise.
Como Amaterasu chegou a Ise?
Segundo a tradição do próprio Santuário de Ise, Amaterasu originalmente era cultuada junto à família imperial.
Durante o reinado do imperador Suijin, decidiu-se que ela deveria ser cultuada fora do palácio.
A princesa Toyosukiirihime-no-Mikoto teria inicialmente recebido a tarefa de levar a divindade a um local adequado.
Posteriormente, Yamatohime-no-Mikoto continuou essa jornada.
Ela teria percorrido diferentes regiões até chegar à província de Ise.
Ali, às margens do rio Isuzu, foi estabelecido o local permanente de culto de Amaterasu.
A tradição situa essa instalação em Ise há aproximadamente dois mil anos.
Por que Ise é tão importante?
Ise não é simplesmente um templo turístico. É considerado o principal santuário da tradição xintoísta associado a Amaterasu.
O próprio Santuário de Ise o descreve como o “coração do Japão” e enfatiza sua posição especial dentro da tradição religiosa japonesa.
Durante séculos, peregrinos viajaram grandes distâncias para visitar Ise.
Durante o período Edo, o chamado Okage-mairi, ou peregrinação a Ise, tornou-se um fenômeno popular de enorme dimensão.
A visita ao santuário passou a fazer parte do imaginário coletivo japonês.
O curioso ritual de reconstrução a cada 20 anos
Uma das tradições mais impressionantes de Ise é o Shikinen Sengū (式年遷宮).
A cada 20 anos, os edifícios sagrados são reconstruídos de acordo com antigas formas arquitetônicas e os objetos, vestimentas e tesouros sagrados são renovados.
O processo não é apenas uma obra de construção. É um enorme conjunto de cerimônias religiosas.
Segundo o próprio Santuário de Ise, o primeiro Shikinen Sengū do Naikū ocorreu em 690, durante o reinado da imperatriz Jitō.
A tradição atravessa aproximadamente 1.300 anos, apesar de períodos de interrupção.
O objetivo é transmitir técnicas, rituais e formas tradicionais de geração em geração.
Amaterasu e o xintoísmo
Amaterasu ocupa uma posição excepcional dentro do xintoísmo, mas é importante lembrar que o xintoísmo não possui uma estrutura simples de “um deus supremo” comparável a algumas religiões monoteístas.
O conceito de kami é muito mais amplo.
Existem inúmeras divindades, espíritos e manifestações da natureza.
Amaterasu é uma das divindades mais importantes dentro desse universo.
Sua importância histórica cresceu particularmente porque sua figura foi incorporada à narrativa sobre a origem da família imperial e do Estado japonês.
Amaterasu na formação do Japão antigo
Os mitos sobre Amaterasu também possuem uma dimensão política. O Kojiki e o Nihon Shoki foram compilados no início do século VIII, em um momento em que a corte de Yamato estava consolidando uma narrativa sobre a origem e legitimidade de seu poder.
A Universidade Kokugakuin observa que o Kojiki foi concebido dentro de um projeto relacionado à preservação de histórias e genealogias, iniciado no período do imperador Tenmu e concluído em 712.
Nesse contexto, as histórias de Amaterasu, Ninigi e da linhagem imperial não são apenas narrativas religiosas.
Elas também fazem parte da construção da memória e da identidade política do Japão antigo.
Por que Amaterasu continua importante?
Mais de mil anos depois de suas histórias terem sido registradas no Kojiki e no Nihon Shoki, Amaterasu continua sendo uma das personagens mais reconhecidas da mitologia japonesa.
Sua influência pode ser percebida em diferentes níveis.
Na religião, ela ocupa o centro da tradição de Ise.
Na mitologia, protagoniza algumas das narrativas mais famosas do Japão.
Na história política, está relacionada à antiga narrativa sobre a origem da família imperial.
Na cultura popular, continua sendo reinterpretada em livros, filmes, mangás, animes e videogames.
E no imaginário japonês, permanece associada a uma das forças mais fundamentais da existência: o Sol.
Amaterasu não é apenas a divindade do Sol. Na mitologia japonesa, ela representa a própria ideia de que a luz pode desaparecer — mas também pode voltar.
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