Grande Terremoto de Kantō: 15 curiosidades sobre o desastre que mudou o Japão

Grande Terremoto de Kanto

Conheça 15 curiosidades sobre o Grande Terremoto de Kantō de 1923, que devastou Tóquio e Yokohama e mudou para sempre o Japão.

Em 1º de setembro de 1923, pouco antes do meio-dia, um dos terremotos mais devastadores da história do Japão atingiu a região de Kantō. Conhecido como Grande Terremoto de Kantō (関東大震災, Kantō Daishinsai), o desastre destruiu grande parte de Tóquio e Yokohama, provocou incêndios gigantescos e deixou uma marca profunda na história japonesa.

O terremoto ocorreu às 11h58, quando muitas famílias estavam preparando o almoço. A combinação entre o forte tremor, a grande quantidade de construções de madeira e os incêndios que se espalharam rapidamente transformou o desastre em uma catástrofe de enormes proporções.

O evento é tão importante para a história do país que 1º de setembro tornou-se o Dia da Prevenção de Desastres (Bōsai no Hi) no Japão.

Mas o Grande Terremoto de Kantō guarda muitas histórias e curiosidades que nem sempre aparecem nos relatos mais conhecidos. Confira algumas delas.

1. O terremoto aconteceu na hora do almoço

Uma das características que agravaram a tragédia foi o horário.

O terremoto começou às 11h58, quando muitas pessoas estavam preparando o almoço.

Naquela época, grande parte das famílias japonesas ainda utilizava fogões a carvão, lenha ou outras formas de fogo para cozinhar.

Quando o terremoto derrubou fogões e instalações domésticas, centenas de focos de incêndio começaram quase simultaneamente.

O resultado foi uma combinação extremamente perigosa: terremoto + fogo + construções de madeira + ventos. Em Tóquio e Yokohama, os incêndios se transformaram em um dos elementos mais destrutivos da catástrofe.

2. O terremoto não destruiu apenas Tóquio

É comum imaginar o Grande Terremoto de Kantō como um desastre exclusivamente relacionado à capital japonesa. Na realidade, uma enorme área foi afetada. As regiões mais atingidas incluíram:

● Tóquio;
● Yokohama;
● Kanagawa;
● Chiba;
● Saitama;
● Shizuoka;
● Ibaraki.

O epicentro foi localizado no mar, na região próxima à Baía de Sagami, e o movimento tectônico afetou uma grande parte da planície de Kantō.

A região metropolitana que hoje conhecemos como uma das maiores concentrações urbanas do planeta era muito diferente em 1923, mas já possuía milhões de habitantes.

3. O terremoto provocou enormes incêndios

Os incêndios foram responsáveis por uma parcela enorme das mortes e da destruição.

Em Tóquio, os focos de incêndio se espalharam por bairros inteiros.

As ruas estreitas, as construções predominantemente de madeira e a dificuldade de combater as chamas criaram condições para que o fogo avançasse rapidamente.

Em determinadas áreas, as pessoas tentaram fugir para espaços abertos, mas algumas ficaram cercadas pelas chamas.

4. O fogo criou um fenômeno chamado “tempestade de fogo”

Uma das características mais assustadoras do desastre foi o desenvolvimento de tempestades de fogo. Quando enormes quantidades de construções queimam simultaneamente, o ar quente sobe rapidamente, criando correntes de ar extremamente fortes que alimentam as chamas.

Em algumas regiões de Tóquio, o incêndio tornou-se tão intenso que as pessoas tiveram enorme dificuldade para escapar. O fenômeno transformou determinadas áreas urbanas em verdadeiros fornos.

Um dos lugares mais atingidos foi o antigo depósito de roupas militares de Honjo, onde cerca de 40.000 pessoas se refugiaram.

Os incêndios ao redor se uniram e criaram um gigantesco turbilhão de fogo (um tornado de chamas), que consumiu o local e matou quase todos os refugiados ali concentrados em poucos minutos.

Essa experiência influenciou posteriormente estudos japoneses sobre planejamento urbano, evacuação e prevenção de incêndios após terremotos.

5. Yokohama foi devastada

Embora Tóquio seja o nome mais associado ao terremoto, Yokohama sofreu uma destruição extraordinária. A cidade portuária ficava relativamente próxima da região epicentral e sofreu danos severos.

Edifícios desabaram, estradas foram destruídas, instalações portuárias ficaram comprometidas e incêndios se espalharam.

Grande parte da infraestrutura moderna de Yokohama foi destruída. A reconstrução posterior transformaria profundamente a cidade.

6. O terremoto provocou um tsunami

O desastre não foi apenas terrestre. O deslocamento do fundo do mar associado ao terremoto também provocou tsunamis.

Ondas atingiram diferentes áreas da costa da Baía de Sagami e da península de Izu. Em alguns pontos, as ondas alcançaram vários metros de altura.

Isso significa que a população enfrentou simultaneamente diferentes perigos: tremores + deslizamentos + incêndios + tsunami.

Essa combinação tornou o desastre ainda mais difícil de enfrentar.

7. Houve grandes deslizamentos de terra

Nas áreas montanhosas próximas à região epicentral, o terremoto desencadeou numerosos deslizamentos de terra.

Um dos episódios mais conhecidos ocorreu na região de Nebukawa, em Odawara. Um enorme deslizamento atingiu a área e provocou dezenas de mortes.

Em algumas localidades, comunidades inteiras foram soterradas.

Esse tipo de consequência demonstra que os efeitos de um terremoto não estão limitados à destruição de edifícios. Dependendo da geografia, um terremoto forte pode desencadear uma sequência de desastres secundários.

8. O terremoto modificou o relevo da região

O Grande Terremoto de Kantō foi tão poderoso que provocou alterações permanentes na superfície terrestre. Pesquisas geológicas indicam que determinadas áreas sofreram elevação, enquanto outras afundaram.

A própria região da península de Miura apresentou mudanças de altitude relacionadas ao movimento tectônico.

Essas alterações ajudaram os cientistas a compreender melhor os processos associados à subducção da placa do Mar das Filipinas sob a região de Kantō.

O terremoto de 1923 tornou-se, portanto, uma referência importante também para a geologia e a sismologia japonesas.

9. A escala do terremoto foi enorme

A magnitude do Grande Terremoto de Kantō é geralmente estimada em aproximadamente 7,9. O tremor foi sentido por uma enorme área.

Em algumas regiões, o movimento do solo foi tão intenso que construções aparentemente resistentes não conseguiram suportá-lo.

O problema foi agravado pelo fato de que os padrões de construção antissísmica ainda eram muito menos desenvolvidos do que atualmente.

O Japão aprenderia uma dura lição sobre a necessidade de adaptar a arquitetura à realidade sísmica do arquipélago.

10. Mais de 100 mil pessoas morreram

O número exato de vítimas varia conforme a fonte e a metodologia utilizada.

Estimativas históricas geralmente apontam para mais de 100 mil mortos ou desaparecidos. O governo japonês e instituições de pesquisa costumam trabalhar com números próximos de 105 mil mortos e desaparecidos.

Milhares de pessoas também ficaram feridas, e centenas de milhares perderam suas casas. Grande parte das vítimas morreu não diretamente pelo tremor, mas pelos incêndios que se seguiram. Esse detalhe é fundamental para compreender a dimensão da catástrofe.

11. Cerca de 600 mil casas foram destruídas ou queimadas

A destruição material também foi gigantesca.

Centenas de milhares de residências foram destruídas pelo colapso estrutural ou pelo fogo.

Tóquio e Yokohama precisaram praticamente reconstruir grandes áreas urbanas.

A catástrofe acabou provocando uma transformação profunda na arquitetura e no planejamento urbano. A reconstrução passou a considerar:

● ruas mais largas;
● espaços abertos;
● parques;
● sistemas de combate a incêndios;
● infraestrutura mais resistente;
● planejamento de evacuação.

Muitas dessas ideias continuariam influenciando o desenvolvimento urbano japonês durante décadas.

12. A tragédia provocou uma onda de boatos

Uma das situações mais sombrias da história do Grande Terremoto de Kantō foi a disseminação de rumores falsos.

Após o desastre, circularam boatos de que coreanos residentes no Japão estariam provocando incêndios, envenenando poços ou planejando ataques.

Essas alegações eram falsas. Entretanto, em meio ao caos e à ausência de informações confiáveis, os rumores se espalharam rapidamente.

Milícias e grupos de civis passaram a atacar pessoas identificadas como coreanas.

Também houve violência contra chineses e contra japoneses confundidos com estrangeiros.

Historiadores e instituições japonesas reconhecem hoje que esses massacres fazem parte da história do desastre e devem ser estudados como uma das consequências sociais mais trágicas do terremoto.

13. O desastre mudou a arquitetura japonesa

O Grande Terremoto de Kantō provocou uma enorme discussão sobre como construir edifícios em um país sujeito a terremotos. A experiência mostrou que simplesmente reconstruir as cidades da mesma maneira seria extremamente perigoso.

A engenharia sísmica japonesa passou a ganhar ainda mais importância. Novas pesquisas foram realizadas sobre:

● estruturas de concreto armado;
● resistência de edifícios;
● fundações;
● materiais;
● planejamento urbano;
● prevenção contra incêndios.

O desastre de 1923 é frequentemente considerado um dos eventos que contribuíram para o desenvolvimento da moderna engenharia sísmica japonesa.

14. O terremoto ajudou a criar uma cultura nacional de prevenção

Talvez um dos legados mais importantes do Grande Terremoto de Kantō esteja na forma como o Japão passou a encarar os desastres naturais.

O país desenvolveu progressivamente uma cultura de preparação que envolve:

● exercícios de evacuação;
● treinamento em escolas;
● mapas de risco;
● sistemas de alerta;
● abrigos;
● estoques de emergência;
● educação sobre terremotos;
● normas de construção.

A memória do terremoto de 1923 ajudou a consolidar a ideia de que preparação salva vidas.

15. 1º de setembro tornou-se o Dia da Prevenção de Desastres

Em referência ao Grande Terremoto de Kantō, todos os anos, em 1º de setembro, o Japão realiza atividades relacionadas ao Bōsai no Hi (防災の日), o Dia da Prevenção de Desastres.

Nesse período, escolas, empresas, governos locais e comunidades realizam exercícios de emergência. As pessoas treinam:

● evacuação;
● primeiros socorros;
● comunicação durante emergências;
● uso de extintores;
● preparação de kits de emergência;
● procedimentos em caso de terremoto.

A data funciona como um lembrete nacional de que o Japão continua vivendo sobre uma das regiões tectonicamente mais ativas do planeta.

O terremoto aconteceu durante o período Taishō

O Grande Terremoto de Kantō ocorreu durante o período Taishō (1912–1926). O Japão estava passando por profundas transformações sociais e econômicas.

Tóquio havia se modernizado rapidamente e possuía uma população cada vez maior.

Automóveis, bondes, eletricidade, indústrias e novas formas de arquitetura conviviam com bairros tradicionais de casas de madeira. O terremoto destruiu justamente uma cidade que estava no meio de uma enorme transformação.

A reconstrução aceleraria ainda mais essa modernização.

A reconstrução de Tóquio


Depois da catástrofe, surgiu uma enorme oportunidade — e também um enorme desafio.

Era necessário reconstruir Tóquio praticamente do zero em várias regiões.

O governo elaborou grandes projetos de reconstrução urbana.

Entre as propostas estavam:

● ampliação das ruas;
● criação de parques;
● construção de pontes;
● reorganização dos bairros;
● melhorias na infraestrutura;
● prevenção contra incêndios.

A reconstrução transformou a paisagem urbana da capital.

Algumas ideias foram implementadas apenas parcialmente, mas a cidade que surgiu depois de 1923 era significativamente diferente daquela que existia antes do terremoto.

Yokoamicho Park e a memória das vítimas

Yokoamicho Park e a memória das vítimas do Grande Terremoto de Tóquio Imagem: depositphotos

Atualmente, o Yokoamicho Park (横網町公園, Yokoamicho Koen), no distrito de Sumida, abriga importantes memoriais relacionados ao desastre.

O local é particularmente significativo porque milhares de pessoas morreram ali durante os incêndios.

O parque abriga o Memorial Hall do Grande Terremoto de Kantō e dos Bombardeios de Tóquio ocorridos durante a Segunda Guerra Mundial, preservando a memória das vítimas de diferentes tragédias que atingiram a capital.

Visitar o local permite compreender que o Grande Terremoto de Kantō não é apenas um acontecimento histórico distante.

Sua memória continua presente na própria paisagem de Tóquio.

Fotografias e Vídeos históricos do Grande Terremoto de Kanto

Em 31 de agosto de 2021, o Arquivo Nacional de Cinema do Japão, em conjunto com o Instituto Nacional de Informática e sob a supervisão do Ministério da Educação, Cultura, Esportes, Ciência e Tecnologia do Japão (MEXT), lançou um site especial chamado “Filmes do Grande Terremoto de Kanto de 1923”.

Qualquer pessoa com acesso à internet agora pode ter uma visão íntima e em primeira mão das cenas da terrível destruição causada pelo terremoto, bem como da união da humanidade após a tragédia, em raras imagens da época.

Nos 100 anos do Grande Terremoto de Kanto, o Asahi Shimbun também fez uma coletânea com 300 fotigrafias, tudo bem documentado com mapa de cada local atingido.

Conclusão

O Grande Terremoto de Kantō de 1923 foi uma das maiores tragédias da história japonesa.

Com magnitude estimada em aproximadamente 7,9, o terremoto atingiu a região de Kantō pouco antes do meio-dia e provocou uma sequência devastadora de incêndios, deslizamentos e tsunamis.

Mais de 100 mil pessoas morreram ou desapareceram, centenas de milhares perderam suas casas e grandes áreas de Tóquio e Yokohama precisaram ser reconstruídas.

Mas a história do desastre não termina com a destruição.

A reconstrução transformou Tóquio, estimulou avanços na engenharia sísmica e ajudou a criar uma cultura nacional de preparação para terremotos.

Hoje, cada 1º de setembro, quando milhões de japoneses participam de exercícios de prevenção, a memória daquele dia de 1923 continua presente.

O Grande Terremoto de Kantō permanece, portanto, como uma advertência histórica e, ao mesmo tempo, como uma das razões pelas quais o Japão aprendeu a levar tão a sério a preparação para os desastres naturais.

Imagem do topo: Wikimedia Commons

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Sou apaixonada pelo Japão e sua cultura. Resolvi criar esse blog com o intuito de fazer com que mais e mais pessoas conheçam essa cultura tão rica, incrível e fascinante!

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