Hibakujumoku: as árvores que sobreviveram à bomba atômica de Hiroshima e Nagasaki

Hibakujimoku, eucaliptos que sobreviveram ao bombardeio atômico, localizados próximos ao Castelo de Hiroshima

Depois que as bombas atômicas foram lançadas em Hiroshima e Nagasaki, diziam que nada nasceria ali por 75 anos, porém, foram surpreendidos pela Natureza.

Depois que as bombas atômicas foram lançadas em Hiroshima e Nagasaki, havia rumores de que nenhuma planta nasceria ali por aproximadamente 75 anos.

Com a explosão, o solo ficou carbonizado e nenhuma árvore nas imediações do hipocentro sobreviveu. Havia apenas algumas estruturas que ainda estavam em pé por terem sido construídos para resistir aos terremotos.

Dizem que a temperatura do solo chegou a 5 mil graus centígrados, sem contar na chuva negra radioativa que contaminou o solo e tudo que havia sobre ele.

Porém, algo inesperado aconteceu. Na primavera seguinte, grama e plantas começaram a nascer nos escombros das cidades bombardeadas. Isso foi considerado um verdadeiro milagre e encheu o coração dos Hibakusha de esperança.

Essas árvores que milagrosamente renasceram pouco tempo após a tragédia, mesmo em um solo estéril e coberto por radioatividade, receberam um nome especial: Hibaku Jumoku 被爆樹木 (Árvores sobreviventes da bomba atômica).

Muitos sobreviventes relataram que o renascimento dessas plantas deram força para que eles reconstruíssem as cidades destruídas, assim como Fênix, que renasceu das cinzas.

Essas árvores representam as lembranças de uma tragédia, a força da superação e também a esperança por um mundo melhor. Elas são um exemplo de como a Natureza é capaz de vencer obstáculos, por mais intransponíveis que sejam, e surpreender até os mais incrédulos.

O que significa Hibakujumoku?

Hibakujimoku, árvores de cânfora que sobreviveram ao bombardeio atômico, situada na entrada do Santuário de Sanno

A palavra japonesa é formada por:

被爆 (hibaku) — exposição ou sofrimento causado por uma explosão nuclear;
樹木 (jumoku) — árvore ou vegetação arbórea.

Assim, 被爆樹木 (Hibakujumoku) pode ser traduzido literalmente como “árvores expostas à bomba atômica”.

O termo é usado principalmente para designar árvores que sobreviveram ao bombardeio de Hiroshima e continuam vivas. Em Hiroshima, a prefeitura mantém um registro dessas árvores e utiliza placas para identificá-las.

Árvores que estavam lá quando a bomba explodiu

A característica mais extraordinária dos Hibakujumoku é que eles não são árvores plantadas posteriormente para representar a memória da bomba.

Algumas já estavam ali em 6 de agosto de 1945.

Quando a bomba explodiu sobre Hiroshima, elas foram submetidas simultaneamente a:

● calor extremo;
● onda de choque;
● incêndios;
● radiação;
● destruição do solo e das estruturas ao redor.

Muitas foram completamente destruídas.

Outras perderam galhos e folhas, tiveram seus troncos queimados ou ficaram inclinadas.

Mas algumas sobreviveram.

E, em muitos casos, voltaram a produzir brotos no ano seguinte.

O ginkgo que sobreviveu ao inferno

Ginkgo da Paz em Hiroshima

Entre os Hibakujumoku mais conhecidos estão os ginkgos (Ginkgo biloba).

Uma das características do ginkgo é sua extraordinária capacidade de resistência. Em Hiroshima, algumas árvores dessa espécie sobreviveram ao bombardeio e continuam vivas e frequentemente são chamadas de Peace Ginkgo, ou Ginkgo da Paz.

Além da resistência da espécie, sua capacidade de regeneração depois do bombardeio tornou-se um símbolo poderoso de recuperação. Uma das árvores ginkgo sobrevivente mais famosas encontra-se no templo Hōsenbo, em Hiroshima.

Ginkgo sobrevivente no Templo Hosen-ji
Ginkgo sobrevivente no Templo Templo Hōsenbō [Fonte da Imagem: Kwanten]
O ginkgo estava a aproximadamente 1,1 quilômetro do hipocentro. A explosão destruiu o edifício do templo, mas a árvore sobreviveu.

O tronco foi severamente danificado, mas posteriormente voltou a brotar. A árvore continua sendo cuidada e é considerada um importante Hibakujumoku de Hiroshima.

O ginkgo de Shukkeien

Hibakujimoku, Árvore Ginkgo que sobreviveu ao bombardeio atômico (Jardim Shukkei-en) em Hiroshima

Outro exemplo famoso é o ginkgo localizado no Jardim Shukkeien, em Hiroshima.

O jardim fica relativamente próximo do hipocentro e sofreu enormes danos durante o bombardeio. Apesar disso, algumas árvores sobreviveram.

O ginkgo tornou-se especialmente simbólico porque suas raízes permaneceram vivas mesmo depois de a parte superior da árvore ter sido severamente danificada.

A árvore continua crescendo décadas depois.

O salgueiro que voltou a brotar

Hibakujimoku, salgueiros que sobreviveram ao bombardeio atômico de Hiroshima

Nem todos os Hibakujumoku são grandes árvores monumentais.

Existem também exemplares de espécies que conseguiram se regenerar mesmo depois de perder grande parte de sua estrutura. O salgueiro é um exemplo importante.

Em Hiroshima, árvores que aparentemente haviam morrido voltaram a apresentar crescimento. Sua capacidade de produzir novos brotos a partir da base ajudou alguns exemplares a sobreviver.

Esses casos demonstraram que a destruição visível de uma árvore não significava necessariamente que suas raízes estavam mortas.

Eucaliptos, pinheiros, paulownia-chinesa e outras espécies

Hibakujimoku, uma paulownia-chinesa que sobreviveu ao bombardeio atômico

Existem cerca de 75 árvores sobreviventes (Hibaku Jumoku) de 32 espécies diferentes em 50 locais dentro de um raio de dois quilômetros do hipocentro.

Entre as árvores registradas estão:

● ginkgo;
● oleandro;
● pinheiro;
● salgueiro;
● eucalipto;
● figueira;
● palmeira;
● cânfora;
● paulownia-chinesa,
● outras espécies ornamentais e nativas.

Cada uma apresenta uma história diferente de sobrevivência.

A árvore que estava no lugar errado — mas sobreviveu

Hibakujimoku, eucaliptos que sobreviveram ao bombardeio atômico, localizados próximos ao Castelo de Hiroshima

Uma das características mais fascinantes dos Hibakujumoku é que algumas árvores estavam muito próximas do hipocentro.

Isso torna sua sobrevivência ainda mais impressionante.

Em alguns casos, o tronco foi parcialmente destruído ou carbonizado.

Ainda assim, a árvore permaneceu viva.

Pesquisadores e especialistas em arborização estudam essas árvores para entender como características biológicas, posição, proteção física e capacidade de regeneração contribuíram para sua sobrevivência.

As árvores carregam cicatrizes de 1945

Hibakujimoku, eucaliptos que sobreviveram ao bombardeio atômico, localizados próximos ao Castelo de Hiroshima

Muitos Hibakujumoku podem ser reconhecidos por suas formas incomuns.

Alguns possuem:

● troncos ocos;
● partes carbonizadas;
● cicatrizes;
● galhos deformados;
● crescimento irregular;
● inclinações provocadas pela explosão.

Essas características não são necessariamente sinais de doença.

Em muitos casos, são marcas da própria história da árvore.

Uma árvore que parece torta ou mutilada pode estar mostrando, em sua estrutura, o que aconteceu há mais de oito décadas.

As árvores que deram origem a novas árvores

Hibakujimoku, eucaliptos que sobreviveram ao bombardeio atômico, localizados próximos ao Castelo de Hiroshima.

Talvez uma das histórias mais bonitas envolvendo os Hibakujumoku seja a possibilidade de propagar sua descendência.

Mudas e sementes de árvores sobreviventes foram distribuídas para outros lugares.

Assim, uma árvore que sobreviveu à bomba pode ter “descendentes” crescendo:

● em outras cidades japonesas;
● em escolas;
● em parques;
● em museus;
● em memoriais;
● em outros países.

Essas mudas são conhecidas em muitos projetos como “segunda geração” das árvores sobreviventes.

A mensagem que viaja através das sementes

Mudas cultivadas a partir de sementes de árvores que sobreviveram ao bombardeio atômico de Hiroshima estão sendo plantadas em outros países.

A distribuição global dessas mudas ocorre por meio de uma iniciativa de diplomacia científica fundada em 2011 chamada Green Legacy Hiroshima (GLH), em parceria com o Instituto das Nações Unidas para Formação e Pesquisa (UNITAR).

O projeto envia sementes e mudas das árvores sobreviventes para jardins botânicos, universidades, escolas e palácios governamentais em mais de 40 países.

O objetivo é que cada árvore plantada funcione como um embaixador da paz e um lembrete vivo das consequências humanitárias de um ataque atômico.

Em 2017, o Jardim Botânico de Oslo, na Noruega, recebeu sementes oficiais de Hibakujumoku enviadas diretamente de Hiroshima como um tributo vivo ao desarmamento nuclear.

O evento marcou o ano em que a ICAN (Campanha Internacional para a Abolição das Armas Nucleares) foi laureada com o prêmio máximo da paz. Essa conexão gerou um movimento simbólico global de plantio dessas árvores como monumentos vivos contra a proliferação nuclear.

Em 2024, a organização japonesa Nihon Hidankyo (a confederação dos sobreviventes das bombas de Hiroshima e Nagasaki) também foi agraciado com prêmio Nobel da Paz.

Hibakujumoku e os hibakusha

Existe uma ligação simbólica profunda entre os hibakujumoku e os hibakusha, os sobreviventes humanos dos bombardeios atômicos.

Ambos carregam marcas do mesmo acontecimento. Os hibakusha preservam a memória através de suas histórias e cicatrizes.

As árvores também preservam a memória através de sua existência. Em ambos os casos, existe uma mensagem de sobrevivência.

Mas existe também uma diferença importante: as árvores não podem contar o que aconteceu.

Por isso, cabe às pessoas preservar suas histórias e explicar às novas gerações por que aquelas árvores são importantes.

No entanto, a geração dos hibakusha está envelhecendo. Muitos sobreviventes já ultrapassaram os 80 anos. Consequentemente, Hiroshima enfrenta um desafio: como transmitir a memória quando as testemunhas humanas não estiverem mais presentes?

Os Hibakujumoku podem desempenhar um papel importante nessa transmissão. Eles não substituem os testemunhos humanos, mas podem ajudar a manter a ligação física com 1945.

Um patrimônio vivo ameaçado pelo tempo

Existe uma ironia na história dos Hibakujumoku. As árvores que sobreviveram à bomba estão agora ameaçadas por algo muito mais natural: o envelhecimento.

Décadas depois de 1945, muitas já são árvores idosas. Isso significa que a conservação de cada exemplar tornou-se cada vez mais importante.

Quando uma árvore sobrevivente morre, desaparece também um testemunho vivo daquele período. Por isso, a propagação por sementes e mudas ganhou importância.

Onde encontrar Hibakujumoku em Hiroshima?

Fonte da Imagem: Flickr
Eucalipto – Castelo de Hiroshima [Fonte da Imagem: Flickr/hickstersunited]
Os exemplares estão espalhados por diferentes pontos da cidade.

Alguns ficam próximos ao Parque Memorial da Paz de Hiroshima, enquanto outros estão em templos, santuários, escolas e áreas residenciais.

Um dos aspectos mais interessantes é justamente essa distribuição.

Os Hibakujumoku não estão confinados a um museu.

Eles fazem parte da própria cidade.

É possível passar por uma rua de Hiroshima e encontrar uma árvore que testemunhou o bombardeio sem perceber imediatamente sua importância.

Placas e identificações ajudam a reconhecer esses exemplares.

No site oficial da prefeitura de Hiroshima você pode ver a lista de todas as árvores sobreviventes. Lembrando que em Nagasaki, muitas árvores também sobreviveram ao bombardeio. Confira a lista delas aqui.

Hibakujumoku e a mensagem de paz

O significado dessas árvores ultrapassa a botânica.

Elas representam:

● vida diante da destruição.
● memória diante do esquecimento.
● esperança diante da tragédia.
● paz diante da guerra.

Por isso, as árvores sobreviventes se tornaram parte da identidade de Hiroshima.

Elas lembram que a cidade não deseja ser conhecida apenas pela destruição sofrida.

Também deseja ser conhecida por sua reconstrução e por seu compromisso com a paz.

* Artigo publicado originalmente em 6 de agosto de 2014
Última atualização em 9 de agosto de 2026

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Sou apaixonada pelo Japão e sua cultura. Resolvi criar esse blog com o intuito de fazer com que mais e mais pessoas conheçam essa cultura tão rica, incrível e fascinante!

2 thoughts on “Hibakujumoku: as árvores que sobreviveram à bomba atômica de Hiroshima e Nagasaki

  1. Bom dia,
    Preciso saber o nome de uma arvore que da uma flor branca e depois ela se fecha como uma bola parecida com a bola de baseibol com riscos.

    Obrigado

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