Ama, as sereias do mar japonesas que correm o risco de desaparecer


Ama, as sereias do mar japonesas que correm o risco de desaparecer

Mais do que uma profissão, as mergulhadoras Ama representam força feminina, conexão espiritual com o oceano e um legado cultural em risco de desaparecer.

No litoral do Japão, entre vilarejos tranquilos e mares azuis, vive uma das tradições mais antigas e fascinantes da cultura japonesa: a das Ama (海女), as “mulheres do mar”. Essas mergulhadoras, que há séculos se dedicam à coleta de frutos do mar, pérolas e algas, são símbolos de resistência, habilidade e profunda conexão com a natureza.

Embora sua história esteja ameaçada pela modernização e pelo envelhecimento da população, as Ama permanecem como guardiãs vivas de uma herança cultural única — uma forma rara de união entre tradição, força feminina e espiritualidade japonesa.

1. Quem são as Ama?

As Ama (海女), literalmente “mulheres do mar”, são mergulhadoras que atuam na pesca e coleta submarina há mais de 2.000 anos. Elas mergulham entre 5 e 20 metros de profundidade segurando apenas o próprio fôlego para recolher abalone (awabi), mariscos e ouriços, polvos, algas, e, historicamente, pérolas naturais, especialmente na região de Ise-Shima.

Essa prática ancestral, que remonta a pelo menos 2.000 anos, era inicialmente realizada tanto por homens quanto por mulheres segundo registros antigos, mas ao longo dos séculos tornou-se uma atividade predominantemente feminina.

A roupa tradicional da Ama era inicialmente composta por simples tecidos de algodão branco, um lenço na cabeça, uma faca ou espátula para desprender moluscos das rochas.

Hoje, algumas usam roupa de neoprene, mas várias comunidades mantêm o uniforme tradicional durante festividades e demonstrações culturais.

2. Uma tradição de coragem e disciplina

Ama, as sereias japonesasImagem: photo-AC

As Ama são conhecidas por sua resistência física e pela habilidade extraordinária de controlar a respiração. Elas permanecem até dois minutos submersas, orientadas apenas pela experiência da prática, e pela leitura das marés.

Por causa do seu conhecimento profundo do mar, elas enxergam no ambiente marinho sinais invisíveis para quem não vive da observação diária do oceano.

Antes dos mergulhos, é comum realizarem rituais de proteção e agradecimento — um reflexo da relação respeitosa entre as Ama e o mar que sustenta suas famílias há gerações. Esse respeito profundo à natureza é parte essencial de sua identidade.

3. O som do “Isobue”: a respiração que ecoa pelo mar

Um dos elementos mais marcantes da tradição Ama é o isobue (磯笛), o som agudo emitido quando as mergulhadoras retornam à superfície e exalam o ar preso nos pulmões.

Esse assobio peculiar, que pode ser ouvido de longe, é uma técnica de liberação rápida de ar. Serve para alertar que a Ama completou seu mergulho com sucesso e tornou-se um símbolo poético desse modo de vida.

4. Força feminina e independência

Megulhadoras Ama no Japão Imagem: photo-AC

Historicamente, ser Ama era uma forma rara de independência feminina no Japão. As mulheres controlavam seus ganhos, tinham papel central na economia familiar, transmitiam a profissão de mãe para filha, eram respeitadas como trabalhadoras hábeis e corajosas.

Ao contrário de outros papéis femininos tradicionais, as Ama eram vistas como protetoras do mar e essenciais para a economia local.

5. As pérolas e a relação com Mikimoto

A profissão ganhou reconhecimento internacional no início do século XX, quando Kokichi Mikimoto, pioneiro das pérolas cultivadas, passou a trabalhar com Ama em Ise-Shima. Elas mergulhavam para inspecionar ostras e recolher pérolas naturais — um símbolo de status em todo o mundo, colocando o Japão como referência global na joalheria de pérolas.

Mikimoto Pearl Island (ミキモト真珠島, Mikimoto-Shinju-Jima) é uma ilha na cidade de Toba, situada na província de Mie. É conhecida por ter sido o primeiro lugar onde houve um cultivo bem-sucedido de pérolas no arquipélago japonês.

A ilha abriga hoje, além de fazendas de pérolas, um museu e uma estátua em homenagem a Kokichi Mikimoto. Os turistas tem a oportunidade de assistir ao trabalho das mergulhadoras, que depositam ostras no fundo do mar e as recolhem para retirar as pérolas.

6. O declínio e o risco de desaparecimento

Apesar da beleza e importância histórica e cultural, o número de Ama vem diminuindo drasticamente. Fatores que explicam esse declínio incluem:

● envelhecimento da população japonesa,
● mudanças ambientais que reduzem a vida marinha,
● menor interesse das gerações mais jovens.
● profissões mais seguras e estáveis disponíveis

Estima-se que havia cerca de 20.000 Ama no Japão em meados do século XX. Hoje, há menos de 2.000, muitas com idade entre 60 e 80 anos. A profissão, portanto, corre o risco de desaparecer em um futuro próximo.

Para você ter uma ideia, no festival Ama que ocorre anualmente em Minamiboso, na costa do Pacífico, a maioria das 80 participantes, eram voluntárias, já que a idade e o desinteresse diminuem o número de mulheres dispostas a ganhar a vida com esse tipo de mergulho.

7. Preservação cultural e turismo consciente

Ama, as sereias do mar japonesas que correm o risco de desaparecerImagem: photo-AC

Apesar do declínio, várias regiões — especialmente Toba, Shima, Ise e a Península de Noto — se dedicam à preservação das tradições Ama por meio de programas culturais, museus, apresentações, experiências gastronômicas em cabanas chamadas de Ama Huts.

Nesses locais, as mergulhadoras preparam frutos do mar na brasa, contam histórias, mostram seus equipamentos e compartilham seus rituais. Os visitantes podem conversar com as mergulhadoras e entender seu modo de vida que sobrevive ao mar e ao tempo. Essa experiência ajuda a manter viva a tradição e a gerar renda para as comunidades locais.

Se você tem vontade de ver as Ama de perto, visite estes locais especialmente entre os meses de abril a outubro que é a temporada de mergulho e portanto há maior chance de ver as Ama em atividades ou participar da cultural e gastronômica Ama Hut Experience.

Durante os meses de julho e agosto costumam haver festivais relacionados ao mar e apresentações culturais. Você pode também obter uma experiência alternativa e perto de grandes centros caso não possa se deslocar até as ilhas citadas acima.

Cidades como Kamogawa e Minamiboso, em Chiba ou Península de Chita, em Aichi também realizam apresentações culturais e festivais perto de praias costeiras durante o verão. São de fácil acesso a partir de Tóquio ou Nagoya e ideais para uma viagem rápida.

Conclusão: o legado vivo das mulheres do mar

As Ama são muito mais do que mergulhadoras: são um patrimônio cultural, guardiãs de uma herança cultural milenar que atravessa séculos. Elas representam coragem, habilidade, espiritualidade e a união profunda entre ser humano e natureza.

Em um Japão cada vez mais moderno, sua presença nos lembra que o progresso também pode — e deve — coexistir com tradições profundas. Conhecer a história dessas mulheres é preservar uma parte essencial da identidade do país.

Fontes de pesquisa: japantimes.co.jp, osatsu.org, reuters.com
Imagem do topo: photo-AC

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