Com Menos de 40 Habitantes, Tebajima Luta para Não Desaparecer

Tebajima é uma pequena ilha em Tokushima onde o tempo parece ter parado. Sem carros e com casas tradicionais, ela preserva o Japão da Era Showa.
Em um Japão conhecido por trens-bala, megacidades e tecnologia de ponta, existe um lugar onde o ritmo da vida parece ter parado décadas atrás. Tebajima (出羽島), também chamada de Dewajima, é uma pequena e pitoresca ilha no sul da província de Tokushima que preserva, quase intacta, a atmosfera do Japão antigo.
Suas casas tradicionais coloridas, ruelas estreitas e a ausência total de carros criam um cenário que contrasta profundamente com a vida moderna — e é exatamente isso que torna Tebajima tão especial.
Onde fica Tebajima e por que ela é diferente
Tebajima está localizada a cerca de 4 quilômetros da costa de Mugi Town, na província de Tokushima, e faz parte do Parque Nacional Costeiro Muroto-Anan. Pequena em tamanho, a ilha possui uma circunferência de aproximadamente 3 quilômetros.
Mesmo após um tufão ter danificado parte da trilha costeira há alguns anos, Tebajima continua sendo um lugar que pode ser explorado inteiramente a pé em cerca de uma hora.
Suas colinas suaves envolvem o porto ao norte, onde cerca de 100 casas de madeira se agrupam como se estivessem protegendo umas às outras do vento e do tempo.
Uma ilha sem carros — e sem pressa
Um dos aspectos mais curiosos de Tebajima é a ausência total de automóveis.
A ilha é pequena demais para comportar estradas adequadas, e o único veículo motorizado existente é um pequeno caminhão utilizado para coleta de lixo.
No lugar dos carros, os moradores utilizam “nekoguruma”, carrinhos de mão tradicionais. Até pouco tempo atrás, era comum ver os ilhéus empurrando esses carrinhos carregados de mantimentos após retornarem da balsa que os levava ao continente para fazer compras.
Aqui, tudo acontece no ritmo dos passos humanos.
Ruas estreitas e casas que contam histórias
A paisagem urbana de Tebajima é singular. As ruelas estreitas, chamadas “awae”, percorrem toda a vila e se desenvolvem ao redor do porto. Ao longo delas, alinham-se casas tradicionais do tipo townhouse, construídas entre o final do período Edo e o início do período Showa.
Essas construções apresentam características arquitetônicas únicas da região:
● Beirais de madeira
● Janelas com treliças
● O tradicional doma, piso de terra batida que conduz à cozinha
Um destaque especial são as “mise”, persianas dobráveis típicas do sudeste de Shikoku.

Quando abertas, funcionam como beirais; quando fechadas, transformam-se em bancos onde moradores descansavam, consertavam equipamentos de pesca ou simplesmente conversavam.
Esse conjunto arquitetônico histórico foi reconhecido pelo governo japonês como Distrito de Preservação Importante para Conjuntos de Edifícios Tradicionais.
Do auge da pesca ao silêncio do presente

Os primeiros habitantes de Tebajima se estabeleceram ali durante o período Edo. Mas foi no período Taisho que a ilha viveu seu auge, ao se tornar uma base próspera para a pesca de bonito (Katsuo em japonês).
Segundo os moradores mais antigos, fábricas de flocos de bonito se alinhavam ao redor do porto, atraindo trabalhadores até mesmo de regiões distantes como Kochi. Antes e logo após a Segunda Guerra Mundial, mais de 1.000 pessoas viviam nessa pequena ilha.
Após a guerra, muitos homens de Tebajima partiram em barcos de pesca de atum, navegando pelos oceanos do mundo. Histórias de tempestades próximas ao Havaí, travessias pelo Atlântico, Mediterrâneo e até pela América do Sul ainda ecoam nas conversas dos moradores com mais de 70 anos.
O declínio inevitável de uma ilha esquecida
Com o estabelecimento das zonas marítimas exclusivas e o declínio da pesca em alto-mar, muitos ilhéus abandonaram os navios e seguiram outros rumos. Alguns retornaram à ilha para a pesca costeira; outros passaram a trabalhar em navios mercantes e petroleiros.
Hoje, Tebajima enfrenta um silencioso declínio populacional. A população caiu para menos de 40 pessoas, a maioria com mais de 70 anos. A pesca, principal fonte de subsistência, sofre com a elevação da temperatura do mar e a redução das capturas.
A única escola primária da ilha fundada em 1882 chegou a formar 1794 alunos. E em 1955 tinha 180 crianças mas fechou em 29 de junho de 2009. O local agora é usado para pouso e decolagem de helicópteros em situações de prevenção de desastres.
A luta para revitalizar Tebajima
Algumas pessoas como Kimura Sora, de 32 anos, que nasceu na ilha, tem trabalhado junto com o marido em uma das casas vazias (Akiya) em um esforço para trazer vitalidade de volta à ilha.
O casal utiliza o local para construir manualmente embarcações de brinquedo que fazem parte da cultura da região como forma de preservar essa tradição.
Outros como Harada Tomohiko, fez um movimento contrário do esperado.
Ele mudou-se da província de Shizuoka para esta ilha com o intuito de criar uma “floresta que todos possam comer” onde ele planta árvores frutíferas e plantas perenes em campos que os moradores locais deixaram de cultivar.
Uma paisagem que resiste ao esquecimento
As ruas antes movimentadas agora estão vazias. Casas abandonadas entram lentamente em ruínas. Não resta uma única loja na ilha — apenas duas máquinas de venda automática resistem como símbolos silenciosos da modernidade que quase não chegou.
Ainda assim, Tebajima não é apenas um lugar em declínio. É um espaço onde camadas de história, trabalho humano e memória coletiva continuam vivas, mesmo que em silêncio.
O valor de um lugar que parece desaparecer
À medida que o Japão enfrenta o desafio de uma sociedade em declínio populacional, vilarejos remotos, montanhosos e ilhas isoladas caminham para o desaparecimento. Tebajima é apenas uma entre muitas.
Mas mesmo em um lugar pequeno, isolado e esquecido, há vidas sendo vividas. Há histórias acumuladas ao longo de séculos. Há um Japão que resiste fora dos grandes centros urbanos.
Visitar Tebajima — ou simplesmente conhecer sua história — é um convite para refletir sobre o que se perde quando o progresso avança rápido demais e o que ainda pode ser preservado quando se escolhe caminhar devagar.
Como Chegar à Tebajima
Pegue a balsa (ferry) de Mugi Port (Porto de Mugi) para Tebajima
É uma viagem curta de cerca de 15 minutos.
Site Oficial: https://tebajima.jp/
Imagem do topo: shikoku-tourism.com
Deixe um comentário