Iwo Jima: 81 anos depois, Japão ainda procura milhares de soldados desaparecidos na batalha de 1945

Mais de 11 mil soldados japoneses mortos em Iwo Jima ainda não foram encontrados. Conheça as buscas, os desafios vulcânicos e a história da batalha.
Mais de 11 mil soldados japoneses mortos na Batalha de Iwo Jima ainda não foram encontrados. Entre areia vulcânica, túneis soterrados e erupções, equipes continuam trabalhando para devolver os restos mortais às famílias.
A ilha de Iwo Jima, um pequeno e austero território vulcânico no oceano Pacífico, foi cenário de uma das batalhas mais violentas da Segunda Guerra Mundial. Mais de oito décadas depois, porém, a guerra ainda não terminou para milhares de famílias japonesas.
Dos aproximadamente 21.900 militares japoneses mortos durante a Batalha de Iwo Jima, travada entre fevereiro e março de 1945, cerca de 11.120 ainda não tiveram seus restos mortais recuperados. Muitos permanecem sob a areia negra, em antigas posições defensivas ou em áreas transformadas pela intensa atividade vulcânica.
A busca, que envolve equipes especializadas, escavações e a participação de familiares enlutados, enfrenta obstáculos que vão muito além da passagem do tempo.
O solo pode atingir temperaturas extremas, o terreno muda continuamente e antigas redes de túneis foram deformadas ou soterradas por processos geológicos.
Uma erupção registrada em setembro de 2025 acrescentou novas dificuldades ao trabalho, danificando instalações das Forças de Autodefesa e provocando a suspensão de escavações em áreas próximas à pista de pouso.
Iwo Jima: uma ilha vulcânica marcada pela guerra
Conhecida também pelo nome japonês Iōtō (硫黄島), a ilha integra o arquipélago de Ogasawara e pertence administrativamente à vila de Ogasawara, em Tóquio. Está localizada a aproximadamente 1.250 quilômetros ao sul do centro da capital japonesa.
Iwo Jima é o topo exposto de um vulcão submarino. Sua paisagem é marcada por areia escura, encostas áridas, depósitos de enxofre e pontos onde vapor vulcânico emerge do solo.
O clima é subtropical e marítimo, com temperaturas médias anuais que podem variar entre 24 °C e 26,5 °C. Durante o verão, os termômetros frequentemente se aproximam dos 40 °C.
Em determinados pontos, o calor que vem do próprio terreno torna o trabalho de escavação ainda mais exaustivo.
A ilha que em 1943 registrava cerca de 1.018 habitantes (533 homens e 485 mulheres), atualmente não possui habitantes civis permanentes e funciona exclusivamente como uma base militar ativa das Forças de Autodefesa do Japão (JSDF).
A entrada de civis é proibida, sendo aberta de forma muito restrita apenas para cerimônias memoriais anuais com veteranos e descendentes.
Em uma visita especial para acompanhar as operações de recuperação, um jornalista do Asahi Shimbun embarcou em uma aeronave de transporte C-2 na Base Aérea de Iruma, na província de Saitama.
Após cerca de duas horas de voo, chegou ao local onde história, geologia e luto se encontram. Ao atravessar a ilha em um micro-ônibus, era possível observar fios de vapor subindo do solo.
A paisagem, aparentemente silenciosa, guarda vestígios de uma batalha que continua presente sob os pés de quem trabalha ali.
O calor e o solo instável dificultam a recuperação dos restos mortais
As equipes de escavação trabalham cerca de oito horas por dia. O calor tropical, a poeira e os ventos quentes são parte da rotina. Em algumas ocasiões, vapor vulcânico irrompe repentinamente de áreas recém-escavadas.
Manabu Yamada, funcionário de uma empresa parceira da Kajima Corporation — empreiteira contratada pelo Ministério da Saúde, Trabalho e Bem-Estar do Japão — descreve o ambiente como uma batalha constante contra as condições naturais.
Além do calor, existe um desafio geológico importante: a atividade vulcânica pode alterar profundamente o terreno, deformando ou soterrando os túneis que foram construídos durante a guerra.
Durante muitos anos, as buscas se concentraram nessas galerias subterrâneas e nos bunkers utilizados pelas forças japonesas como posições defensivas.
Entretanto, as mudanças no relevo fizeram com que os túneis se tornassem referências menos confiáveis para localizar restos humanos.
Por isso, desde o ano fiscal anterior ao período descrito no relatório, as operações passaram a dar maior atenção também à superfície da ilha.
Como funciona a busca pelos soldados desaparecidos
Com pouco menos de 30 quilômetros quadrados, Iwo Jima foi dividida em uma grade de áreas de aproximadamente 180 metros. Postes demarcam os cantos de cada setor, enquanto máquinas pesadas removem a vegetação e permitem o acesso ao solo.
As escavadeiras retiram a terra gradualmente. A cada caçamba removida, trabalhadores observam cuidadosamente o material em busca de possíveis vestígios humanos.
A inspeção visual é realizada por equipes de três pessoas: uma opera a escavadeira e outras duas acompanham a movimentação do solo. Objetos que possam ser restos mortais são encaminhados ao Ministério da Saúde, Trabalho e Bem-Estar para análise e identificação.
Koji Shimada, integrante do escritório de obras de Iwo Jima, trabalha nesse esforço há mais de uma década. Ele e outros profissionais desenvolveram experiência em reconhecer vestígios humanos em meio a grandes volumes de terra.
Quando os restos mortais são confirmados, uma equipe de recuperação visita o local. Essas missões ocorrem aproximadamente quatro vezes por ano e incluem representantes de famílias enlutadas, que acompanham os trabalhos e participam do processo de recuperação.
Para os trabalhadores, a responsabilidade é enorme. Toshiyuki Fukazawa, funcionário de uma empresa parceira da Kajima, afirma que a maior pressão é a consciência de que nenhum vestígio pode ser negligenciado.
Durante o trabalho, ele diz dirigir mentalmente uma mensagem aos mortos: que se aproximem das equipes caso desejem finalmente retornar ao continente e às suas famílias.
Milhares de soldados ainda aguardam para voltar para casa
No ano fiscal de 2025, foram recuperados 37 conjuntos de restos mortais em Iwo Jima. O número representa uma parte pequena do total ainda desaparecido.
Mesmo em um dos anos mais produtivos das operações recentes, o ano fiscal de 2022, foram encontrados 75 conjuntos. O ritmo evidencia a dimensão da tarefa e as limitações impostas pelo terreno.
A erupção de 1º de setembro de 2025 danificou instalações das Forças de Autodefesa na ilha. Como consequência, escavações nas proximidades da pista de pouso foram suspensas, e visitas de apoio às famílias enlutadas previstas para o outono e o inverno foram canceladas.
O orçamento inicial do governo japonês para o ano fiscal mencionado no relatório destinou 1,2 bilhão de ienes — aproximadamente US$ 7,5 milhões — às atividades de recuperação.
Apesar dos recursos e do avanço das técnicas de busca, o trabalho permanece lento. Cada área precisa ser examinada com cuidado, e os vestígios encontrados exigem procedimentos de confirmação e identificação.
Uma missão nacional: recuperar os mortos da Segunda Guerra Mundial
O esforço em Iwo Jima faz parte de uma iniciativa muito maior. O governo japonês começou a recuperar os restos mortais de cidadãos mortos no exterior durante a guerra no ano fiscal de 1952, pouco depois de o país recuperar sua soberania.
Estima-se que aproximadamente 2,4 milhões de japoneses tenham morrido fora do território nacional durante a guerra. Desse total, cerca de 1,12 milhão ainda não tiveram seus restos mortais repatriados.
A estimativa inclui aproximadamente 230 mil pessoas cujos restos são considerados de recuperação difícil devido às condições dos locais onde morreram.
Em 2016, uma lei japonesa estabeleceu a recuperação dos restos mortais dos mortos em guerra como responsabilidade do Estado e buscou acelerar os trabalhos.
Em relatório apresentado à Dieta japonesa em junho, o ministro da Saúde, Trabalho e Bem-Estar, Kenichiro Ueno, reafirmou o compromisso de continuar as operações para que ao menos mais uma pessoa possa ser recuperada e retornar à família o mais rápido possível.
A declaração resume a dimensão humana da missão: cada conjunto de restos mortais recuperado representa alguém que deixou de ser apenas um número nas estatísticas da guerra.
A Batalha de Iwo Jima: um dos confrontos mais sangrentos do Pacífico
General Tadamichi Kuribayashi e filme Cartas de Iwo Jima
A Batalha de Iwo Jima ocorreu entre fevereiro e março de 1945, nos meses finais da Guerra do Pacífico. As forças dos Estados Unidos buscavam controlar a ilha, estrategicamente importante para operações aéreas contra o Japão.
Cerca de 21.900 militares japoneses e 6.821 americanos morreram durante o confronto. A resistência japonesa foi organizada pelo tenente-general Tadamichi Kuribayashi, comandante das forças do Exército Imperial Japonês em Ogasawara.
Kuribayashi considerava Iwo Jima essencial para dificultar os ataques aéreos americanos às ilhas principais do Japão. Em vez de concentrar a defesa em posições expostas, determinou a construção de uma extensa rede de túneis subterrâneos, que protegia os soldados dos bombardeios e permitia deslocamentos entre posições defensivas.
O sistema transformou a batalha em um combate de desgaste, marcado por intensos bombardeios, resistência prolongada e enormes perdas humanas.
Em 23 de fevereiro de 1945, uma fotografia de fuzileiros navais americanos hasteando a bandeira dos Estados Unidos no topo do Monte Suribachi tornou-se uma das imagens mais conhecidas da Segunda Guerra Mundial.
A história da batalha também inspirou obras culturais. O livro Flags of Our Fathers (A Conquista da Honra), escrito por James Bradley e Ron Powers, foi baseado na história dos militares americanos associados ao hasteamento da bandeira.
Em 2006, o diretor Clint Eastwood lançou dois filmes complementares: A Conquista da Honra, sob a perspectiva americana, e Cartas de Iwo Jima, que retrata o conflito a partir do lado japonês.
Uma guerra que ainda não terminou para as famílias
A imagem de Iwo Jima costuma ser associada à fotografia do Monte Suribachi e à memória de uma batalha decisiva no Pacífico. Mas, para as famílias dos militares que nunca retornaram, a história permanece incompleta.
Sob a areia vulcânica e o terreno continuamente transformado, milhares de soldados ainda aguardam identificação e repatriação. O trabalho das equipes de recuperação é lento, difícil e frequentemente interrompido pelas condições naturais.
Cada descoberta, porém, aproxima uma família da possibilidade de encerrar décadas de incerteza.
Mais de 80 anos depois dos combates, a busca em Iwo Jima lembra que o fim de uma guerra não significa necessariamente o fim de suas consequências. Para aqueles que ainda esperam pelos desaparecidos, a missão continua sendo trazer os mortos de volta para casa.
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