Kaigo Satsujin: o drama silencioso dos “assassinatos causados por cuidadores” no Japão

Care killings: entenda o fenômeno dos “assassinatos causados por cuidadores” (Kaigo Satsujin), casos recentes e por que o apoio às famílias é urgente.
Uma pesquisa do Ministério da Saúde, Trabalho e Bem-Estar do Japão revelou que ao menos 129 idosos morreram nos últimos 10 anos em casos chamados de Kaigo Satsujin (介護殺人) — ou “assassinatos por cuidadores”, também conhecidos como “Care killings”.
Esses crimes ocorrem quando familiares, exaustos pela responsabilidade do cuidado contínuo, acabam cometendo homicídio ou suicídio duplo.
Apenas no último ano, 13 idosos morreram nesses contextos, incluindo assassinatos diretos, mortes decorrentes de abuso e casos de suicídio duplo envolvendo cuidadores.
25 anos do sistema de cuidados e um problema que persiste
O levantamento foi divulgado justamente no ano em que o sistema de seguro de cuidados de longa duração do Japão completa 25 anos.
Criado para distribuir socialmente a responsabilidade pelo cuidado de idosos, o sistema tinha como objetivo aliviar o peso que tradicionalmente recaía sobre as famílias.
No entanto, os dados mostram que, na prática, o cuidado ainda é fortemente sustentado dentro do núcleo familiar, muitas vezes sem apoio suficiente, especialmente em casos de dependência severa, demência ou cuidados noturnos constantes.
O peso cultural do “cuidar em silêncio”
Especialistas alertam que a cultura japonesa, que valoriza o cuidado familiar como algo “natural”, “nobre” ou até “belo”, acaba dificultando que cuidadores expressem sofrimento, exaustão ou desespero.
Para o professor Mao Saito, da Universidade Ritsumeikan, esses casos revelam os limites de um modelo baseado exclusivamente na família.
Segundo ele, é urgente fortalecer políticas públicas, apoio institucional e legislação específica voltada também aos cuidadores, e não apenas às pessoas que recebem cuidados.
Um caso em Tóquio: exaustão, medo e desespero
Em dezembro de 2025, um caso chocou o país. Watanabe Masato, de 79 anos, foi preso sob suspeita de assassinato após matar sua mãe, Masako, de 100 anos. Os dois moravam juntos em uma área residencial tranquila da cidade de Machida, no sudoeste de Tóquio.
Segundo a polícia, Watanabe permaneceu imóvel, com olhar vago, enquanto equipes de emergência atuavam na casa. Foi ele próprio quem ligou para o 110, número de emergência japonês, e confessou:
“Eu a matei porque estava cansado de cuidar dela.”
Ele também afirmou estar preocupado com o futuro da mãe caso ele próprio morresse, revelando um sentimento comum entre cuidadores idosos: o medo de não haver ninguém para continuar os cuidados.
O caso Komine: pedidos de ajuda ignorados
Outro episódio emblemático envolve Yoko Komine, de 71 anos, acusada de assassinar sua mãe de 102 anos, que sofria de demência. As duas moravam sozinhas.
Durante o julgamento, foi revelado que Komine havia procurado um gestor de cuidados, afirmando que queria colocar sua mãe em uma instituição de idosos pois a mãe frequentemente pedia para ir ao banheiro e era uma situação muito difícil pra ela.
Na madrugada seguinte, após uma queda da mãe da cama e sucessivas ligações para os serviços de emergência, Komine ouviu da equipe da ambulância que aquela seria a última vez que poderiam ajudar naquela situação. Horas depois, dominada pelo desespero, ela cometeu o crime e ligou novamente para o 110, dizendo que havia “perdido o controle”.
Uma série de “Care Killings” em Kanagawa
A província de Kanagawa tem registrado uma sequência de casos relacionados ao Kaigo Satsujin. Em outubro de 2025, o Tribunal Distrital de Yokohama concedeu sentença suspensa a um homem de 84 anos que matou a esposa de 80 anos em Sagamihara.
Poucas semanas antes, uma mulher de 86 anos havia sido presa em Kawasaki por matar o marido de 91 anos, afirmando estar “cansada de cuidar dele”.
Julho de 2025: em Yokosuka, um homem de 85 anos foi julgado por assassinar a esposa de 81 anos enquanto prestava cuidados em casa.
Todos os casos têm em comum isolamento, sobrecarga e ausência de apoio contínuo.
O aumento dos cuidadores homens e um novo desafio social

Especialistas apontam que um fator-chave na prevenção desses crimes é compreender o crescimento do cuidado prestado por homens. Culturalmente, homens tendem a não pedir ajuda, não demonstrar fragilidade e assumir sozinhos responsabilidades extremas.
Segundo o Inquérito Abrangente sobre as Condições de Vida de 2022, cerca de 30% dos lares japoneses — aproximadamente 17 milhões — são compostos por uma ou mais pessoas com 65 anos ou mais.
Além disso, mais de 60% dos idosos que necessitam de cuidados são assistidos por outros idosos, prática conhecida como Rōrō Kaigo (老老介護), ou “idosos cuidando de idosos”.
Dados da Agência Nacional de Polícia mostram que, em 2024, foram registrados 30 casos de homicídio ou tentativa de homicídio atribuídos à exaustão do cuidador, sendo 17 dos suspeitos homens.
Um alerta para o futuro do envelhecimento no Japão
O fenômeno do Kaigo Satsujin expõe uma realidade dura por trás do envelhecimento acelerado da sociedade japonesa.
Mais do que crimes isolados, esses casos refletem falhas estruturais no apoio aos cuidadores, que muitas vezes enfrentam a velhice, a doença e a solidão sem amparo suficiente.
Especialistas defendem que prevenir novas tragédias exige escutar quem cuida, criar redes de apoio acessíveis e romper o silêncio que ainda cerca o sofrimento dentro das famílias.
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