Mokusatsu: A arte japonesa do silêncio e da ambiguidade


Foto antiga

Mokusatsu: A arte japonesa do silêncio e da ambiguidade

Conhece a expressão Mokusatsu (黙殺)? Trata-se de substantivo cujo significado é ambíguo e pode causar uma má interpretação. A palavra é composta por dois kanji: 黙 ( moku “silêncio”) e 殺 ( satsu “matar”), portanto seu sentido literal, significa “matar” com “silêncio”. Mas também pode significar “ignorar”, “não tomar conhecimento” ou “tratar com desprezo silencioso”.

Os japoneses são conhecidos por serem os mestre na arte dos “sinais“, ao passo que os ocidentais têm uma “fixação com palavras”. No entanto, o silêncio em certas situações pode dar brecha para grandes e desastrosos mal-entendidos. Assim como existe o ditado, quem cala consente, o silêncio também pode ser interpretado como desprezo e rejeição.

Quem viveu no Japão ou conviveu com os nativos japoneses deve ter percebido que a “ambiguidade” é um traço cultural, muito presente nas artes e na literatura japonesa tais como poemas e romances, e como consequência acaba por refletir nas relações sociais.

Declaração Potsdam e a destruição de Hiroshima e Nagasaki

Gabinete de Kantaro Suzuki (9 de junho de 1945)

Mas voltando à palavra Mokusatsu, eu gostaria de relatar um fato em que relaciona esta palavra com a Declaração Potsdam e consequentemente com os trágicos eventos das bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki durante a Segunda Guerra Mundial.

A Declaração de Potsdam, publicada em 26 de julho de 1945 por Harry S. Truman, Winston Churchill e Chiang Kai-shek, traçava os termos da rendição do Japão, conforme acordado na Conferência de Potsdam. A declaração estipulava que se o Japão não aceitasse os termos propostos e se rendesse, encararia uma “destruição inevitável e completa das forças armadas japonesas e na igualmente inevitável devastação da pátria japonesa“.

Os líderes japoneses perceberam que a Segunda Guerra Mundial estava perdida para eles. A questão, agora, era como negociar a paz, mas precisavam de tempo para planejar sua resposta. Ao mesmo tempo, a imprensa japonesa estava pressionando, exigindo rapidamente uma declaração. Assim, no dia 28 de julho, o Primeiro-ministro Kantaro Suzuki falou à imprensa, declarando que o governo estava adotando uma política de “mokusatsu”.

Como dissemos no início desse artigo, “mokusatsu” não tem uma tradução exata em inglês ou qualquer outra língua. Seu sentido é vago até mesmo em japonês. Podia tanto significar que o governo japonês decidira “não fazer comentários” (que era o sentido pretendido pelo Primeiro-ministro), ou que o governo decidira “ignorar com desprezo a Declaração”.

Infelizmente, porém, sua declaração foi ambígua aos jornalistas presentes. E a Agência de Notícias Japonesa irradiou, em inglês, que o Governo Japonês decidira ignorar a Declaração Potsdam. De acordo com o escritor John Toland, o termo usado por Suzuki foi mais para apaziguar os militares, que eram hostis à ideia de “rendição incondicional.”

Na verdade, seria uma tentativa de ganhar tempo, já que o Imperador Hirohito esperava por uma resposta soviética e por este motivo não fez nenhum movimento para mudar a posição do governo. Havia uma clara resistência do governo aos termos de rendição. Alguns dias mais tarde explodiram as duas bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki.

Pode ser que a palavra mokusatsu não tinha a intenção naquele momento de exprimir uma recusa à rendição, mas será que a vida de 200 mil pessoas teriam sido poupadas se Kantaro Suzuki tivesse dado uma resposta diferente, com mais clareza como algo do tipo “Não chegamos a nenhuma decisão ainda”? Talvez não mudasse os rumos dessa história.

Afinal, a única resposta aceitável era a rendição incondicional e nenhuma outra resposta poderia evitar o “inevitável”. Fica essa dúvida no ar… Mas, depois de toda essa história, podemos tirar uma lição. Nem sempre o silêncio para ganhar tempo é o melhor caminho. E que uma frase ambígua, vaga, pode definitivamente selar o destino de uma nação.

Quer Aprender Japonês?

1 Comentário

  1. Juliana Sales

    Provavelmente não teria feito diferença. Sabemos que a base de uma guerra é a demonstração de supremacia de uma nação sobre a outra, o que significa que apenas a bandeira branca poderia salvar os japoneses. Uma pena.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *