Ningyo: conheça as misteriosas sereias do folclore japonês

Descubra a história das Ningyo, as misteriosas sereias do Japão, suas lendas, poderes, Yao Bikuni e as famosas sereias mumificadas.
Quando se fala em sereias, a imagem mais comum no imaginário ocidental é a de uma bela mulher com cabelos longos e cauda de peixe, associada ao mar, ao canto e ao romance.
No Japão, porém, as sereias são muito diferentes.
Conhecidas como Ningyo (人魚), literalmente “pessoa-peixe”, essas criaturas aparecem no folclore japonês como seres misteriosos, sobrenaturais e muitas vezes assustadores.
Em vez de serem necessariamente belas, as ningyo tradicionais podiam possuir características estranhas, como dentes afiados, aparência monstruosa, rosto humano combinado com corpo de peixe ou até elementos de outros animais.
E algumas histórias associam essas criaturas não ao amor, mas a profecias, longevidade, desastres e morte.
Entre as narrativas mais famosas está a história da Yao Bikuni (八百比丘尼), a “freira de 800 anos”, que teria comido a carne de uma ningyo e recebido uma vida extraordinariamente longa.
Mas existe uma questão ainda mais intrigante: de onde surgiu a ideia japonesa de uma sereia?
A resposta envolve antigas lendas japonesas, criaturas aquáticas, influências chinesas e uma tradição de relatos sobre seres estranhos encontrados no mar.
O que significa Ningyo?
Imagem do período Edo, Sankyo Toden, em sua obra “Hako-iri Musume-ya Mermaid”
Em japonês, 人魚 (ningyo) é formado por dois caracteres:
人 (nin/jin) — pessoa ou ser humano;
魚 (gyo) — peixe.
Portanto, o significado literal é “pessoa-peixe”.
A palavra pode ser traduzida como “sereia” dependendo do contexto.
Entretanto, a ningyo tradicional japonesa não corresponde exatamente à sereia ocidental quase sempre representada como uma bela mulher com cauda de peixe.
A palavra passou a ser usada para representar criaturas aquáticas humanoides, mas as descrições variavam muito.
Algumas tinham aparência relativamente humana. Outras eram grotescas. Algumas eram consideradas criaturas sobrenaturais.
Outras eram tratadas em relatos como animais misteriosos encontrados no mar.
As origens antigas das criaturas semelhantes às Ningyo

A ideia de seres humanoides vivendo no mar é muito antiga no Leste Asiático.
O Japão recebeu influências culturais e literárias da China e da Península Coreana ao longo de muitos séculos. Textos chineses antigos já mencionavam criaturas aquáticas com características humanas.
Um exemplo importante é o Shan Hai Jing (山海経), o clássico chinês conhecido como Clássico das Montanhas e dos Mares, que reúne descrições de animais extraordinários, povos misteriosos e criaturas sobrenaturais.
Essas tradições contribuíram para o imaginário japonês sobre seres estranhos encontrados além do mundo humano. Com o passar do tempo, essas imagens foram incorporadas e transformadas dentro do próprio folclore japonês.
A Lenda de Yao Bikuni
Talvez a história mais famosa relacionada às ningyo seja a de Yao Bikuni (八百比丘尼).
Seu nome significa literalmente “freira de 800 anos”.
Esse mito se originou na cidade de Obama, antiga província de Wakasa, atual província de Fukui, uma região rica em pesca. Existe muitas versões dessa lenda. A mais conhecida diz que um pescador capturou uma criatura extraordinária parecida com uma sereia.
Sem saber direito o que havia pescado, o pescador levou a estranha criatura para casa e sua filha acabou consumindo a carne da sereia secretamente.
Terraço das Sereias em Obama City, Fukui (Photo-ac)
Depois daquele acontecimento, ela teria parado de envelhecer. Décadas se passaram. Depois séculos. A mulher permanecia jovem. Ela teria visto seus familiares, amigos e sucessivas gerações morrerem enquanto continuava vivendo.
Aos 120 anos, lamentando a impermanência da vida, ela se tornou freira budista, viajando para vários países, curando os doentes, ajudando os pobres e plantando camélias pelo caminho.
Aos 800 anos, ela retornou à sua cidade natal, Obama, e viveu em uma caverna onde plantou uma camélia em frente, profetizando: “Quando os galhos murcharem, provavelmente será o momento em que terminarei minha vida”.
Ela nunca mais saiu de lá. Dizem que a camélia viveu por gerações e ainda está viva. E essa caverna está localizado no Templo Kūin-ji, na cidade de Obama, Fukui.
A poucos metros do templo, à beira-mar, encontra-se também um local chamado “Terraço das Sereias” (マーメイドテラス). Este terraço abriga duas estátuas de sereias em homenagem à lenda de Yao Bikuni.
Os três cedros do santuário Togakushi-jinja
Imagem: photo-ac
A lenda de Yao Bikuni se espalhou por várias partes do país, ganhando novas variações da lenda. É o caso, por exemplo, da lenda do santuário Togakushi-jinja, em Nagano.
Segundo a lenda do santuário Togakushi, um dia um pescador da província de Wakasa capturou uma sereia em suas redes. Ela implorou para que ele não a matasse, mas o pescador estava tão contente por ter pescado uma sereia que não lhe deu ouvidos.
Ele trouxe a carne de sereia para casa, e quando saiu para pescar no dia seguinte, seus três filhos famintos encontraram a carne e a comeram. Quando o pai voltou para casa, escamas começaram a cobrir repentinamente os corpos de seus filhos.
Ele os vigiava dia e noite para garantir que nada lhes acontecesse, mas acabou adormecendo. Ao acordar, encontrou seus filhos mortos.
Durante o sono, sonhou que precisava ir ao santuário Togakushi para plantar três cedros a fim de salvar as almas de seus filhos e se redimir de seus atos.
O pescador então caminhou os 400 km até o santuário para plantar os três cedros, chamados de sanbonsugi (三本杉). Eles ainda podem ser admirados dentro do santuário.
Ningyo também poderia ser um mau presságio
Dizem que sempre que essa criatura aparecia algo ruim acontecia como epidemias, fome, guerras ou desastres naturais.
Uma lenda diz também que a aparição de uma criatura parecida com uma sereia supostamente precedeu a derrota do clã Miura pelo clã Hojo durante o Período Sengoku (1516).
Amabie, a sereia que combate epidemias
Imagem: Coleção da Biblioteca da Universidade de Kyoto
Por outro lado, existe a lenda que surgiu em 1846 de uma criatura que surgiu no mar diante da costa da província de Higo e afirmou que uma grande epidemia ocorreria.
Segundo a lenda, moradores locais viram uma luz brilhante misteriosa no mar. Um oficial da cidade foi até a praia investigar e se deparou com a Amabie (アマビエ).
A criatura se identificou e disse ao homem: “Uma boa colheita continuará por seis anos a partir deste ano; se uma doença se espalhar, faça um desenho de mim e mostre-o aos doentes para que sejam curados”.
O oficial desenhou o ser, descrevendo-o com cabelos longos, corpo coberto de escamas, um bico de pássaro e três pernas. O desenho foi impresso em blocos de madeira nos boletins informativos da época (kawaraban), espalhando o mito por todo o país.
A lenda permaneceu esquecida pela maior parte do público até a pandemia de COVID-19. Internautas e artistas japoneses resgataram a imagem histórica do arquivo digital da Universidade de Kyoto e criaram a hashtag #amabiechallenge.
O movimento transformou o antigo yōkai em um mascote de esperança, ilustrado em cartazes, estátuas e até mesmo em campanhas oficiais do Ministério da Saúde do Japão.
As famosas “sereias mumificadas” do Japão
Sereia mumificada no Templo Enjuin em Asakuchi, Okayama
Durante séculos, algumas pessoas acreditaram que determinados restos mumificados eram de ningyo.
Porém, na maioria dos casos eram na verdade feitos com partes de diferentes animais como macacos, peixes, papel, madeira, tecido e outros materiais.
A intenção podia ser religiosa, artística, comercial ou simplesmente produzir um objeto considerado extraordinário. Essas peças ajudaram a perpetuar a crença nas sereias.
As Ningyo usadas em espetáculos misenomo
Misemono (見世物) era o nome dado aos shows, feiras e espetáculos populares que viraram febre no Japão durante o Período Edo (1603–1867).
As barracas eram montadas temporariamente em áreas movimentadas de cidades como Tóquio (antiga Edo) e Kyoto. Eram uma mistura de circo com “show de bizarrices”.
Cadáveres ou partes de animais eram usados para confeccionar as “sereias mumificadas” que ocasionalmente apresentados como seres misteriosos. Algumas dessas peças ainda podem ser encontradas hoje em templos ou em coleções.
Poderia uma Ningyo ser um dugongo?

Uma hipótese frequentemente discutida em estudos sobre sereias é a possibilidade de que animais como dugongos (vaca marinha) tenham contribuído para algumas histórias de criaturas humanoides aquáticas.
Quando vistos de longe, especialmente por marinheiros cansados ou em condições de baixa visibilidade, esses animais podem apresentar silhuetas que lembram uma figura humana, incluindo glândulas mamárias torácicas e uma cauda bifurcada semelhante à de um peixe.
Além disso, quando sobem à superfície para respirar, os dugongos às vezes emergem com algas presas à cabeça, o que marinheiros distantes de suas casas poderiam associar com cabelos humanos.
Entretanto, isso não significa que todas as histórias japonesas de ningyo tenham surgido de dugongos. O mais provável é seja um misto de várias coisas, incluindo mitologia, relatos de animais, imaginação popular e tradições estrangeiras.
Ningyo em pergaminhos e arte japonesa

As criaturas semelhantes às sereias aparecem em diferentes formas na arte japonesa.
Durante o período Edo, artistas produziram ilustrações de criaturas extraordinárias em livros, enciclopédias populares e coleções de seres fantásticos.
Essas obras misturavam:
● animais reais;
● animais exóticos;
● monstros;
● yōkai;
● criaturas de textos antigos;
● seres imaginários.
A representação visual ajudava a transformar descrições literárias em imagens.
Uma pessoa que nunca tivesse visto uma ningyo podia conhecer sua aparência através de uma ilustração. Assim, a imagem da criatura continuava perpetuando.
A Ningyo na cultura japonesa moderna
Imagem: Wikimedia Commons
A imagem da sereia mudou bastante no Japão contemporâneo. Mangás, animes, jogos e filmes incorporaram a figura tradicional, mas também receberam forte influência da cultura ocidental.
Hoje é comum encontrar personagens japonesas semelhantes à sereia clássica: uma jovem bonita com cabelos longos e cauda de peixe. Essas representações são muito diferentes das antigas histórias de ningyo.
Mesmo assim, as sereias japonesas continuam sendo criaturas misteriosas, associadas a poderes sobrenaturais, longevidade e maldições.
Conclusão
As Ningyo (人魚) estão entre as criaturas mais fascinantes do folclore japonês. Mas, ao contrário da sereia romântica popularizada pela cultura ocidental, a sereia japonesa tradicional é muito mais ambígua.
Ela pode ser bela ou monstruosa. Pode trazer sorte ou desgraça. Pode conceder longevidade ou transformar uma pessoa em testemunha solitária da passagem dos séculos.
E pode até ser representada por uma criatura artificial feita de partes de animais e materiais comuns. Talvez seja justamente essa ambiguidade que torne as ningyo tão interessantes.
São criaturas que vivem na fronteira entre o ser humano e o animal, a realidade e a fantasia, a vida e a morte. E sua história mostra como o povo japonês transformou o desconhecido do oceano em uma das mais fascinantes criaturas de seu imaginário.
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