Hiroko Saito: a japonesa que foi atraída pelo “paraíso na Terra” e passou 40 anos presa na Coreia do Norte

Hiroko Saito deixou o Japão em 1961, aos 19 anos, rumo à Coreia do Norte. Prometeram três anos; ela passou 40 enfrentando fome, perdas e separação.
Aos 19 anos, Hiroko Saito deixou o Japão acreditando que começaria uma vida melhor na Coreia do Norte. Era junho de 1961. Ao lado do marido coreano e da filha de apenas um ano, embarcou em Niigata convencida por promessas de emprego, moradia e comida abundante — e pela garantia de que poderia voltar ao Japão após três anos.
Ela só retornaria quatro décadas depois.
A história de Saito, hoje com 85 anos e vivendo na província de Osaka, revela o drama humano por trás do programa de repatriação que levou cerca de 93 mil pessoas do Japão para a Coreia do Norte entre 1959 e 1984, incluindo aproximadamente 1.800 esposas japonesas.
A promessa de um “paraíso na Terra”
Nascida em 1941, na atual província de Fukui, Hiroko Saito começou a trabalhar em uma fábrica têxtil após concluir o ensino fundamental. Aos 18 anos, casou-se com Shoji, um coreano residente no Japão, e o casal formou uma família que ela descrevia como pacífica e feliz.
Tudo mudou quando os parentes do marido decidiram aderir ao programa de repatriação para a Coreia do Norte. Os promotores da iniciativa descreviam o país como um lugar onde haveria comida em abundância, empregos e moradias.
Saito não queria partir, mas o marido afirmou que levaria a filha mesmo sem ela. A jovem mãe não suportava a ideia de ser separada da criança. A garantia de que poderia voltar ao Japão depois de três anos acabou convencendo-a a embarcar.
As primeiras dúvidas surgiram antes do desembarque

Quando o navio se aproximou do porto norte-coreano, a cena que Hiroko encontrou começou a destruir a imagem do país próspero que lhe haviam apresentado.
Ela viu multidões acenando bandeiras, mas uma criança chamou sua atenção: um menino de cerca de cinco ou seis anos vestia roupas apenas na parte superior do corpo.
Pouco depois, os passageiros receberam um alerta para não entregarem suas bagagens a pessoas sem identificação, devido ao risco de roubo.
O entusiasmo da viagem rapidamente deu lugar ao medo.
Alguns passageiros chegaram a dizer que não queriam desembarcar.
Para Saito, o lugar que havia sido apresentado como um “paraíso na Terra” parecia, desde o primeiro momento, um inferno.
A fome passou a dominar a vida da família
A família foi enviada para uma cidade próxima à fronteira com a China. O marido encontrou trabalho em uma fábrica de óculos, mas a vida confortável prometida nunca existiu.
Arroz, farinha e outros produtos eram distribuídos duas vezes por mês. Segundo Saito, os alimentos geralmente acabavam em cerca de uma semana.
A família começou a trocar roupas e utensílios que havia levado do Japão por comida.
Em aproximadamente um ano, não restava mais nada para trocar.
Com o passar do tempo, fazer três refeições por dia tornou-se impossível. A sobrevivência passou a dominar cada decisão da família.
A prometida oportunidade de retornar ao Japão após três anos jamais chegou.
Uma família cada vez maior e um futuro sem saída

A Coreia do Norte incentivava as famílias a terem muitos filhos. Depois de chegar ao país, Hiroko deu à luz mais cinco crianças, tornando-se mãe de seis filhos.
Seu marido também teria se arrependido profundamente da mudança, mas, segundo Saito, não podia expressar livremente suas críticas. O medo de denúncias e punições fazia parte da vida cotidiana e a frustração dele, às vezes, se transformava em violência contra a esposa.
Em meados dos anos 1980, sua saúde começou a piorar. Ele contraiu tuberculose, mas os medicamentos eram difíceis de obter. Saito precisou trabalhar em seu lugar.
Mesmo assim, a situação continuou se deteriorando.
Um pedido de socorro enviado ao Japão
Por volta de 1990, Hiroko escreveu para os pais, em Fukui, implorando por ajuda.
Ela pediu desculpas repetidamente e solicitou que sua mãe enviasse 100 mil ienes.
O dinheiro enviado pela família japonesa ajudou os parentes por algum tempo, mas o apoio terminou após a morte de seu pai, em 1993.
No ano seguinte, o marido morreu de tuberculose, aos 57 anos. Hiroko tinha 53. E o pior ainda estava por vir.
A fome devastadora da “Marcha Árdua”

A morte do marido coincidiu com um dos períodos mais dramáticos da história recente da Coreia do Norte.
Após a morte de Kim Il Sung, em 1994, o país mergulhou em uma crise profunda.
Problemas econômicos e desastres naturais contribuíram para uma fome devastadora que ficou conhecida como “Marcha Árdua”.
Segundo relatos mencionados no testemunho, milhões de pessoas morreram.
Hiroko disse ter visto pessoas morrendo de fome nas estradas.
Também se lembrava de crianças esperando em estações ferroviárias pelos pais que haviam saído para procurar comida ou trabalho e nunca mais voltaram.
Algumas famílias deixavam alimento suficiente para os filhos durante alguns dias e prometiam retornar. Nem sempre conseguiam.
Segundo Saito, algumas crianças permaneceram esperando até morrer.
Ela também relatou caminhões que percorriam as cidades recolhendo corpos para levá-los a locais de sepultamento.
O mercado negro como última alternativa
Com a fome se agravando, Hiroko passou a negociar ilegalmente fios de cobre.
Era uma atividade perigosa. Se fosse descoberta, poderia ser punida, mas ela não via outra forma de conseguir comida.
Saito escondia os fios sob as roupas e dentro de panos enrolados nas pernas para tentar escapar das inspeções policiais.
Uma experiência durante uma viagem de trem, porém, mudou sua vida. Ela encontrou uma jovem mãe carregando um bebê que permanecia completamente imóvel.
Quando a polícia entrou no vagão e começou uma inspeção, descobriu que o bebê estava morto. Segundo o relato de Saito, havia um fio de cobre escondido no corpo da criança.
A mãe explicou que não conseguia mais produzir leite e que o bebê havia morrido, mas ainda precisava conseguir algo para trocar por comida para seus familiares.
Saito foi libertada após seu cobre ter sido confiscado.
Ela nunca soube o que aconteceu com a mulher, porém o episódio deixou Hiroko profundamente traumatizada e ela abandonou o contrabando de cobre.
A morte dos filhos

Mas a fome e a repressão continuaram a atingir sua família.
A filha mais velha, Yayoi, e outra filha foram presas enquanto tentavam negociar cobre ilegalmente para sobreviver.
Uma delas acabou sendo libertada.
Yayoi morreu na prisão.
Saito disse que nunca foi informada sobre a causa da morte e que o corpo da filha jamais foi devolvido. Pouco tempo depois, outra filha morreu de desnutrição.
Para Hiroko, o maior arrependimento continuou sendo o sofrimento enfrentado por seus filhos depois da decisão de acompanhar o marido para o suposto “paraíso”.
A fuga para a China
Em 2001, quase 40 anos depois de sua chegada à Coreia do Norte, surgiu uma oportunidade inesperada. Um homem chinês sugeriu que Hiroko cruzasse a fronteira para a China, entrasse em contato com a família no Japão e pedisse dinheiro.
Ela sabia que seria uma decisão extremamente perigosa. Se fosse capturada, poderia nunca mais ver os filhos mas mesmo assim, decidiu arriscar.
Em pleno inverno, atravessou um rio congelado na fronteira entre a Coreia do Norte e a China. Depois de cerca de meio mês de viagem, chegou à província chinesa de Jilin.
Ela tentou ligar para a mãe em Fukui, mas o telefone já não funcionava.
Então surgiu uma nova possibilidade: retornar ao Japão, trabalhar durante alguns anos e enviar dinheiro para os filhos. Hiroko aceitou.
O retorno ao Japão após 40 anos
Com a ajuda de intermediários, documentos foram obtidos e a Embaixada do Japão em Pequim foi contatada.
Cerca de cinco meses depois de entrar na China, Hiroko conseguiu retornar, desembarcando no Aeroporto de Narita em agosto de 2001.
Era a primeira vez que pisava no Japão em 40 anos.
Ela seguiu para Fukui para encontrar a mãe, que já estava hospitalizada e sofria de demência.
Hiroko se aproximou e disse: “Mãe, sou eu, Hiroko. Mãe, voltei para casa.”
O reencontro marcou o fim de quatro décadas de separação.
Mais tarde, Saito trabalhou em um supermercado em Tóquio e continuou enviando dinheiro para os filhos e netos que haviam permanecido na Coreia do Norte.
Ela também conseguiu ajudar uma filha e dois netos a fugir e chegar ao Japão.
As perdas continuaram
Mesmo depois de voltar para casa, Hiroko continuou enfrentando tragédias. Seu segundo filho morreu de doença em 2011. O filho mais velho morreu no ano seguinte.
Uma filha e um neto continuam na Coreia do Norte. Após o início da pandemia de coronavírus, Saito perdeu o contato com eles e não sabe se ainda estão seguros.
Mesmo aos 85 anos, ela continua rezando pelo marido e pelos filhos que perdeu.
A ação judicial contra a Coreia do Norte

Em 2018, Hiroko juntou-se a outros desertores ligados ao programa de repatriação para entrar com uma ação judicial por danos contra o governo norte-coreano.
Os autores alegaram que foram atraídos por informações falsas, impedidos de deixar o país depois de sua chegada e obrigados a viver durante décadas sob graves restrições de liberdade e condições extremas de sobrevivência.
Após oito anos de processo, o Tribunal Distrital de Tóquio decidiu, em janeiro de 2026, que a Coreia do Norte deveria pagar um total de 88 milhões de ienes em indenizações.
Segundo a decisão descrita no caso, os demandantes sofreram enormes danos físicos e psicológicos, e grande parte de suas vidas foi, na prática, perdida.
Para Hiroko, no entanto, a questão nunca foi apenas financeira.
Sua preocupação continua sendo com aqueles que permaneceram para trás.
“Se eles ainda estiverem morando lá, quero fazer tudo o que estiver ao meu alcance para que suas vidas se tornem um pouco mais fáceis.”
A esperança de Hiroko Saito é que outras pessoas ligadas ao programa de repatriação — incluindo familiares que ainda vivem na Coreia do Norte — possam um dia retornar ao Japão e reencontrar suas famílias.
Sua história é o retrato de uma promessa de três anos que se transformou em quatro décadas de fome, perdas e separação, mas também de uma sobrevivente que, mesmo depois de perder quase tudo, nunca deixou de tentar salvar aqueles que amava.
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