No Japão, número de pets é superior ao de crianças e expõe crise demográfica profunda

Desde 2003, o número de animais de estimação tem superado a de crianças, refletindo o envelhecimento populacional e a crise da natalidade.
Segundo a Japan Pet Food Association (JPFA), o número de animais de estimação (cães e gatos) no Japão supera o de crianças com menos de 15/16 anos, com estimativas de 19 a 23 milhões de pets contra aproximadamente 17 milhões de crianças.
Esse fenômeno não é recente. O marco foi atingido pela primeira vez em 2003, e desde então a diferença só aumentou. Em 2020, o total de cães e gatos havia alcançado 18,13 milhões, superando os 15,3 milhões de crianças na época, conforme levantamento do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), baseado em dados japoneses.
A comparação tornou-se um dos retratos mais claros do envelhecimento acelerado da população japonesa e do colapso prolongado da taxa de natalidade, que o governo tenta conter há mais de três décadas sem sucesso.
Pets em alta, crianças em queda
O Japão possui uma das menores taxas de fecundidade do mundo, hoje em torno de 1,2 filho por mulher, muito abaixo do nível necessário para a reposição populacional.
Ao mesmo tempo, mais de 29% da população japonesa já tem 65 anos ou mais, o que torna o país o mais envelhecido do planeta. Uma prova disso são as vendas de fraldas geriátricas que já superam as vendas de fraldas para bebês há alguns anos.
Especialistas apontam que os pets passaram a ocupar um papel central na vida emocional de casais sem filhos, idosos que vivem sozinhos e jovens que adiam — ou abandonam — a ideia de formar família. Muitos citam pressões econômicas, falta de tempo e desinteresse por relacionamentos como motivos centrais para essa escolha.
“Animais de estimação oferecem companhia, rotina e afeto, sem os custos sociais e econômicos associados à criação de filhos”, observa um relatório sociológico recente sobre a relação entre japoneses e seus animais domésticos.
Impactos econômicos e sociais

O crescimento da população pet impulsionou um mercado bilionário. O setor de alimentos, produtos e serviços veterinários movimenta bilhões de ienes por ano e continua em expansão, mesmo em um país cuja população total encolhe.
Por outro lado, a queda no número de crianças pressiona escolas, municípios e o sistema de seguridade social. Em muitas regiões, escolas primárias estão sendo fechadas, enquanto creches para idosos e serviços voltados à terceira idade se multiplicam.
Mais que uma curiosidade estatística
O fenômeno reflete mudanças nos padrões de trabalho, no custo de vida, na participação feminina no mercado de trabalho e nas expectativas sobre casamento e maternidade.
“O fato de o Japão ter mais cães e gatos do que crianças não é a causa da crise demográfica, mas uma consequência direta dela”, resume um analista ouvido pela imprensa japonesa.
Enquanto o governo tenta incentivar nascimentos com subsídios e políticas familiares, os dados mostram que, ao menos por enquanto, o miado e o latido continuam mais numerosos que o choro de bebês no arquipélago.
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