Yoshie Shiratori: o “rei das fugas” que desafiou o sistema prisional japonês

Yoshie Shiratori - O homem que conseguiu escapar 4 vezes da prisão no Japão

Yoshie Shiratori se tornou uma lenda urbana no Japão por ter escapado de quatro prisões de segurança máxima em um período de 11 anos.

Poucos nomes na história criminal do Japão despertam tanta curiosidade quanto o de Yoshie Shiratori. Conhecido como o “rei das fugas” do Período Showa, ele protagonizou uma série impressionante de evasões carcerárias nas décadas de 1930 e 1940, tornando-se uma figura quase lendária no imaginário popular japonês.

Sua trajetória mistura crime, sobrevivência extrema, engenhosidade e as duras condições do sistema prisional do Japão no período pré e pós-Segunda Guerra Mundial.

Quem foi Yoshie Shiratori?

Yoshie Shiratori - O homem que conseguiu escapar 4 vezes da prisão no Japão

Nascido em 1907, em Aomori, região norte do Japão, Shiratori Yoshie teve uma infância humilde. Seu pai morreu quando ele tinha 2 anos de idade, e ele foi abandonado ainda jovem por sua mãe.

Inicialmente, trabalhou em uma loja de tofu e mais tarde como pescador, capturando caranguejos na Rússia. Depois de trocar de emprego várias vezes e obter pouco sucesso, ele envolveu-se em pequenos delitos como jogo e roubo para sobreviver.

Condenado e enviado à prisão, começou ali a história que o tornaria famoso: suas sucessivas fugas espetaculares. As quatro fugas inacreditáveis que chocaram o Japão:

Primeira fuga — 1936 (Prisão de Aomori)

Shiratori abriu a fechadura de sua cela usando um arame metálico que encontrou no balde de limpeza. Ele memorizou o som das passagens dos guardas e escapou em um intervalo de apenas 15 minutos, aproveitando falhas estruturais da cela. Foi capturado pouco depois.

Segunda fuga — 1942 (Prisão de Akita)

Transferido para a prisão de Akita, Shiratori escapou novamente. Nesta fuga, ele escalou as paredes lisas de sua cela solitária até o teto. Ele usou a força dos braços e pernas para se apoiar nos cantos e saiu por uma claraboia no topo. Foi recapturado após alguns meses.

Terceira fuga — 1944 (Prisão de Abashiri)

Enviado para a temida prisão de Abashiri, em Hokkaido — conhecida por seu rigor extremo — Shiratori realizou a fuga mais famosa.

Shiratori estava algemado com ferros pesados, mas ele despejou sopa de missô diariamente nos rebites das algemas e na fresta da porta da cela. O sal da sopa corroeu o metal, permitindo que ele se libertasse e escapasse pelo duto de inspeção.

Sobreviveu escondido nas montanhas geladas da região por dois anos. No entanto, ele foi capturado novamente depois de esfaquear fatalmente um agricultor que o atacou após ser apanhado roubando um tomate da sua plantação.

Quarta fuga — 1947 (Prisão de Sapporo)

Após ser capturado novamente e condenado à pena de morte, foi enviado para outra prisão de segurança máxima. Incrivelmente, conseguiu escapar mais uma vez, mesmo sob vigilância constante.

Ele cavou um túnel sob o piso da cela usando pedaços de metal e tigelas de sopa. Ele enganou os guardas colocando seus sapatos sob o cobertor para fingir que estava dormindo.

O Fim da Saga

Shiratori finalmente se rendeu em 1948, após um policial lhe oferecer um cigarro — um gesto de bondade que o comoveu após anos de maus-tratos no sistema prisional.

Durante o julgamento, Shiratori explicou seu motivo para escapar da prisão: ele não suportava os abusos dos guardas contra os detentos.

O tribunal aceitou seu depoimento e decidiu que a morte do agricultor foi acidental e resultado de legítima defesa e revogou sua sentença de morte, condenando-o a 20 anos por suas fugas, tendo observado que Shiratori nunca feriu nenhum guarda durante suas fugas.

O pedido de Shiratori para ser preso em Tóquio também foi concedido, e ele passou 14 anos na Prisão de Fuchu, onde os guardas o trataram bem pela primeira vez, até dezembro de 1961, quando ele finalmente foi libertado em liberdade condicional.

Livre, ele retornou a Aomori para se reunir com sua filha, embora não fossem próximos. Sua esposa havia falecido enquanto ele estava na prisão.

Shiratori viveu por quase duas décadas trabalhando em empregos ocasionais para sobreviver. Ele morreu após sofrer um ataque cardíaco em 1979, aos 71 anos.

Por que ele se tornou uma lenda?

Suas fugas chamaram a atenção para as condições horríveis nas prisões japonesas. Como Shiratori explicou: “O motivo pelo qual tentei fugir da prisão foi porque estava com raiva do guarda que não tratava os prisioneiros como seres humanos.”

Suas fugas geniais lhe trouxeram notoriedade e a Prisão de Abashiri, que hoje é um museu, tem até uma exposição permanente dedicada aos seus feitos.

Sua história ganhou notoriedade por vários motivos:

● Criatividade e paciência extraordinárias nas fugas
● Sobrevivência em condições extremas
● Questionamentos sobre brutalidade no sistema prisional da época
● Transformação em personagem de livros e mangás

Sua história ajudou a expor falhas estruturais nas penitenciárias japonesas e contribuiu para debates sobre direitos dos presos.

Sua trajetória lembra muito o personagem Michael Scofield da série Prison Break, porém em uma época sem tecnologia e em condições muito mais brutais.

Como não seria diferente, Shiratori inspirou diversos personagens. Um exemplo é o filme The Rapacious Jailbreaker, de Sadao Nakajima em 1974. O romance Hagoku, de Akira Yoshimura, publicado em 1983, também é baseado na vida de Shiratori.

Ele também serviu de inspiração para o personagem Yoshitake Shiraishi no popular mangá e anime Golden Kamuy.

Entre criminoso e símbolo de resistência?

Hoje, Yoshie Shiratori é lembrado como uma das figuras mais extraordinárias da história criminal japonesa — não apenas pelo número de fugas, mas pela engenhosidade com que desafiou um sistema rígido e punitivo.

Embora tenha sido condenado por crimes graves, parte da opinião pública passou a vê-lo como um símbolo de resistência contra abusos institucionais. Sua história foi romantizada ao longo dos anos, especialmente em obras de ficção.

Sua trajetória continua sendo estudada como um caso emblemático de falhas estruturais, resiliência humana e os limites entre lenda e realidade.

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Sou apaixonada pelo Japão e sua cultura. Resolvi criar esse blog com o intuito de fazer com que mais e mais pessoas conheçam essa cultura tão rica, incrível e fascinante!

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