Sano Toemon: O Guardião das Cerejeiras do Japão

Aos 97 anos, Sano Tōemon faz parte da 16ª geração de uma distinta linhagem de jardineiros no Japão e tem o título de Sakuramori (Guardião das Cerejeiras)
No Japão, as cerejeiras em flor — sakura — não são apenas árvores ornamentais. Elas representam a efemeridade da vida, a renovação e a ligação profunda entre natureza e cultura.
Poucas pessoas personificam esse respeito ancestral pelas cerejeiras como Sano Tōemon, um veterano paisagista japonês de 97 anos de idade, amplamente reverenciado por seu conhecimento extraordinário sobre essas árvores. Seu saber e dedicação lhe rendeu o honroso título de sakuramori (桜守), ou “guardião das cerejeiras”.
O que é um Sakuramori?
Historicamente, o termo sakuramori designa especialistas responsáveis por cuidar, preservar e transmitir o conhecimento sobre cerejeiras.
Mais do que jardineiros, esses guardiões atuam como mediadores entre o homem e a árvore, respeitando o ritmo natural de crescimento, floração e envelhecimento das sakura.
Segundo Asada Nobuyuki, secretário-geral da Associação Japonesa de Sakura, existem cerca de 100 sakuramori no Japão atualmente. Muitos lugares famosos por suas sakuras como o Monte Yoshino em Nara e o Parque Matsumae em Hokkaido, tem um sakuramori dedicado.
Mas dentre todos os sakuramori, Nobuyuki afirma que Tōemon Sano é o mais merecedor do título, reconhecendo a amplitude da longa e produtiva carreira de Sano e a sabedoria transmitida de geração em geração em sua família.
Sano Tōemon é considerado um dos últimos representantes vivos dessa tradição, acumulando décadas de observação direta, prática e estudo empírico das cerejeiras japonesas.
Uma Vida Dedicada às Cerejeiras
Flores de Cerejeira no Templo Ninnaji, em Kyoto. Imagem: Depositphotos
Ao longo de quase 80 anos de dedicação, Sano Tōemon trabalhou no manejo e na preservação de cerejeiras em templos, santuários, parques históricos e paisagens tradicionais do Japão.
Ele é a 16ª geração de uma distinta linhagem de agricultores e jardineiros que começou a tradição em meados de 1600. Seus ancestrais cuidaram dos jardins imperiais do complexo do templo Ninnaji, em Kyoto.
O avô de Tōemon tornou-se uma espécie de pioneiro no cultivo de sakuras, levando enxertos e cultivando mudas, aventurando-se em lugares remotos como as Ilhas Curilas e Sacalina antes de falecer em 1934. O pai de Tōemon então assumiu o legado, treinando o filho para dar continuidade à tradição familiar.
A imponente cerejeira-chorona do Parque Maruyama de 40 anos de idade foi cultivada a partir das sementes da sakura mais icônica de Kyoto e originalmente crescia no jardim da família Sano. Ela foi replantada em seu local público atual pelo pai de Tōemon.
A icônica cerejeira chorona no Parque Maruyama em Kyoto. Imagem: photo-AC
Quando seu pai faleceu em 1981, ele assumiu o nome Tōemon, conforme a tradição familiar, e assumiu o comando da Uetō Zōen, a empresa de paisagismo que sua família fundou em 1832 em Yamagoe, no distrito de Ukyo, em Kyoto.
Ao longo de sua carreira Sano utilizou seu conhecimento especializado para zelar pela sobrevivência das cerejeiras em jardins por todo o Japão e o mundo – incluindo o jardim japonês projetado por Isamu Noguchi na sede da Unesco em Paris.
Alguns dos seus feitos foram plantar com sucesso cerejeiras no solo devastado pela bomba atômica de Hiroshima e salvar uma cerejeira Oshima de 150 anos em Yokohama, que estava destinada a ser cortada.
Nessa ocasião, quando a comunidade local o convidou para realocar a célebre sakura a 100 metros de distância, a fim de preservar uma vista icônica do Monte Fuji, ele avaliou cuidadosamente as três camadas de solo ao redor da árvore.
Antes de cavar, Tōemon colocou cerimonialmente saquê e biscoitos de arroz na terra como um pedido de desculpas pela perturbação. Também conhecido por abraçar árvores, Tōemon abraçou o tronco com força após o replantio bem-sucedido.
Castelo de Himeji e sakura. Imagem: Depositphotos
Mesmo aos 97 anos, Tōemon ainda coleta informações sobre diferentes tipos de sakura e faz desenhos detalhados da anatomia das flores, desde os estames e pistilos até as brácteas e pedúnculos – tudo para entender melhor como ajudar as sakuras a florescerem.
“Meus sentimentos em relação às flores de cerejeira estão enraizados em meu cotidiano“, disse Tōemon. “Minha vida diária segue o antigo costume japonês seikō-udoku (晴耕雨読), ‘trabalhar no campo quando faz sol e ler quando chove’… Se me pedem para preservar flores de cerejeira raras, respondo enxertando ou semeando sementes.”
As flores de cerejeira conectam a família Sano aos seus antepassados e representam a natureza efêmera de cada geração. Em meio a essa beleza transitória, o conceito japonês de ” mono no aware “ (o reconhecimento melancólico da efemeridade da vida e da beleza nessa impermanência) se faz presente de forma singular.
O inglês que ajudou a salvar as cerejeiras do Japão
Monte Fuji e cerejeiras. Imagem: Depositphotos
Apesar de toda a dedicação às cerejeiras pela família Tōemon, talvez nada disso seria possível se não fosse por um botânico britânico chamado Collingwood Ingram.
Em 1902, Ingram ficou fascinado pela grande variedade de cerejeiras japonesas durante sua primeira visita ao país, mas em outra viagem ao Japão, lamentou como a industrialização e a clonagem haviam levado ao declínio de sua diversidade.
Em um esforço para protegê-las, ele enviou 50 variedades ameaçadas de extinção para a Inglaterra e as plantou em seu jardim. Quando finalmente tentou propagar as variedades de volta ao Japão na década de 1930, incluindo a rara cerejeira Taihaku, que havia deixado de ser cultivada no Japão, as árvores não sobreviveram por muito tempo.
Graças à experiência transmitida de geração em geração pela família Sano, Ingram procurou o avô de Tōemon, que desenvolveu um método para transportar as árvores com sucesso, evitando que brotassem antes de chegarem ao Japão.
Acredita-se que, a partir desse pequeno carregamento de cerejeiras Taihaku, dezenas de milhares delas florescem hoje em todo o Japão e foram salvas da extinção nacional.
Mais do que apenas árvores
As flores de cerejeira são parte integrante da psique e da alma japonesa. No Japão antigo, acreditava-se que os kami (divindades) residiam nessas árvores.
A partir do século IX, o Imperador Saga (cuja antiga residência fica próxima ao jardim da família Sano em Daikaku-ji) inaugurou a prática do hanami com festas oficiais para contemplação das flores de cerejeira.
Para os samurais durante o período Kamakura (1185-1333), a sakura tornou-se um símbolo militar unificador, representando a luta dos guerreiros com dignidade e graça – uma mensagem que ecoou durante a Segunda Guerra Mundial para os pilotos kamikaze.
Diante dessa importância nacional, a proteção das sakuras e a garantia de sua sustentabilidade se tornaram prioridades no Japão.
Por que as cerejeiras são tão especiais no Japão
O motivo pelo qual os japoneses apreciam tanto as flores de cerejeira é que, após suportarem um inverno rigoroso, as flores vibrantes desabrocham na paisagem monocromática como se anunciassem a tão esperada chegada da primavera.
“Essa presença silenciosa é o que atrai as pessoas e ressoa profundamente em nossos corações“, disse-me Tōemon. “De 365 dias por ano, as flores de cerejeira resistem ao vento e à neve por 360 dias, para então florescerem gloriosamente por cinco dias antes de se dispersarem graciosamente.”
“Acredito que esse ciclo fugaz, porém digno, reflete a perspectiva japonesa sobre a vida. Pode haver um certo grau de personificação na forma como vemos a flor de cerejeira, como se ela incorporasse uma crença espiritual ou moral de que, por meio da paciência e da perseverança, eventualmente floresceremos.“
Hoje, os viajantes que apreciam a fascinante cerejeira-chorona no Parque Maruyama devem agradecer a Tōemon, já que a cidade lhe pede para cuidar da árvore durante todo o ano.
Os visitantes também podem admirar o trabalho de Tōemon na propriedade Ruriko-in, onde as sakuras se erguem em impressionante harmonia, próximas ao Pavilhão Dourado de Kinkakuji; à Vila Imperial de Katsura; à Vila Imperial de Shukaguin; ao jardim do Templo Ninna-ji; e, claro, no Uetō Zōen e nas proximidades da propriedade da família Sano.
A continuação do legado de Sano Toemon
Flores de cerejeira na Vila Imperial de Katsura. Imagem: photo-AC
O filho de Sano Tōemon, Shinichi Sano começou a assumir as responsabilidades diárias nos negócios da família mas diz que “Enquanto meu pai estiver saudável, ele será o responsável por cuidar das sakuras“.
Ao ser perguntado se sentia pronto para assumir o papel de seu pai como um sakuramori ele diz: “Só vou saber mesmo quando me tornar a 17ª geração. Acho que só vou sentir a verdadeira responsabilidade quando herdar o nome… Farei o que me pedirem.”
Shinichi Sano tem uma filha, Tomoaki, de 38 anos, que se seguir a tradição familiar será a primeira sakuramori mulher desta linhagem.
“Vai depender da decisão dela”, disse Shinichi. Por enquanto, porém, a família está permitindo que o 16º Tōemon Sano concentre sua atenção naquilo que faz de melhor.
Um perigo ronda as flores de cerejeiras no Japão
Imagem: Depositphotos
Embora as sakuras atraiam os amantes do hanami há gerações, Shinichi afirmou que uma grande ameaça paira sobre elas: as mudanças climáticas.
De acordo com a Agência Meteorológica do Japão, as cerejeiras começaram a florescer 1,2 dias mais cedo por década desde 1953. Um estudo recente constatou que o pico da floração das cerejeiras de Kyoto em 2020, 2021 e 2023 foi o mais precoce em mais de 1.200 anos.
“Se o aquecimento global continuar nesse ritmo, acredito que eventualmente haverá regiões no Japão onde as cerejeiras não florescerão mais“, disse Shinichi, observando que invernos com temperaturas elevadas podem impedir completamente o florescimento, já que as árvores precisam de um frio prolongado para iniciar o processo de floração.
Se isso acontecer, uma parte importante do apelo turístico da primavera japonesa estará em risco, assim como uma parte essencial da identidade cultural do país.
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