O ritual Iyomante e a relação sagrada entre o povo Ainu e os ursos

Descubra a relação sagrada entre o povo Ainu e os ursos e o controverso ritual Iyomante, onde um filhote era sacrificado para enviar sua alma para o céu.
A relação entre o povo Ainu, indígena do norte do Japão, e os ursos é uma das mais profundas e simbólicas conexões entre seres humanos e a natureza na história da humanidade.
Para os Ainu, o urso pardo não é apenas um animal selvagem: ele é um kamuy (カムイ) — uma divindade que visita o mundo dos homens.
Essa visão espiritual moldou rituais, crenças, práticas sociais e até a organização econômica desse povo ao longo de séculos, especialmente na região de Hokkaido, Sakhalin e Ilhas Curilas.
Quem são os Ainu?
Os Ainu são considerados os habitantes originários do norte do arquipélago japonês. Antes da expansão do Estado japonês para Hokkaido, eles viviam da caça, pesca e coleta, mantendo uma relação profundamente equilibrada com o ambiente natural.
Sua cosmovisão é animista: tudo possui espírito — rios, montanhas, plantas e animais. Entre todos esses espíritos, o urso ocupa um lugar central e sagrado.
O urso como kamuy (divindade)

Na crença Ainu, os deuses (kamuy) vivem em um mundo espiritual, mas ocasionalmente descem ao mundo humano disfarçados de animais. O urso-pardo é visto como um dos mais importantes desses visitantes divinos, sendo referido como Kimun Kamuy.
Ele é considerado o deus da montanha de mais alta hierarquia reverenciado pelo povo Ainu. Ao oferecer seu corpo aos humanos — por meio da caça — o urso estaria realizando um ato de generosidade espiritual, permitindo que os Ainu sobrevivam.
Em troca, os humanos devem demonstrar respeito, gratidão e rituais adequados, garantindo que o espírito do urso retorne satisfeito ao mundo dos deuses.
O ritual Iyomante: o envio do espírito do urso
O mais conhecido e controverso ritual Ainu é o Iyomante (イオマンテ), frequentemente traduzido como “a cerimônia de envio do urso”.
Esse ritual era realizado com filhotes de urso, diferente do ritual “Kamuy Hopunire“ (カムイホプニレ) que era realizado com ursos provenientes da caça.
Como funcionava o ritual:
● Um filhote de urso era capturado e criado pela comunidade, muitas vezes tratado como uma criança, às vezes sendo amamentado por mulheres da tribo.
● Recebia alimento, cuidado e respeito durante meses ou anos.
● Quando atingia determinada idade, geralmente 1 ou 2 anos, era realizado um ritual solene, com cânticos, danças, oferendas e orações.
● O urso era sacrificado cerimonialmente, e seu espírito era “enviado” de volta ao mundo divino.
Para os Ainu, não se tratava de crueldade, mas de um ato sagrado de reciprocidade, garantindo prosperidade, proteção e equilíbrio espiritual.
Ao contrário da caça predatória moderna, a relação dos Ainu com os ursos era regida por regras espirituais e envolvia toda a comunidade. A carne, a pele e os ossos do urso eram usados integralmente, refletindo um profundo respeito pela vida concedida.
Imagem: Wikimedia Commons
Repressão cultural e incompreensão histórica
Durante o período Meiji, o governo japonês passou a reprimir práticas Ainu, considerando-as “primitivas” ou “bárbaras”. A caça aos ursos e o ritual Iyomante foram proibidos, e os Ainu sofreram assimilação forçada, perda de terras e apagamento cultural.
Somente nas últimas décadas houve um reconhecimento mais amplo dos Ainu como povo indígena do Japão, com esforços para preservar sua língua, cultura e espiritualidade.
A relação Ainu–urso na atualidade
Atualmente o ritual Iyomante não é mais praticado em sua forma tradicional, no entanto, em maio de 2025, o povo ainu teve a oportunidade de reviver outra tradição semelhante na cidade de Shinhidaka, Hokkaido, que não era praticada há pelo menos 80 anos.
Após um urso ser capturado e morto em uma armadilha para cervos, foi realizado uma cerimônia chamada “Kamuy Hopunire” (カムイホプニレ).
Diferentemente de “Iomante”, que é realizado com filhotes, “Kamuy Hopunire” é um ritual realizado com ursos capturados durante uma caça.
O local onde foi capturado ficava em uma floresta pertencente à Tsukasa Horomura, presidente da Associação Ainu de Mitsuishi.
Tsugio Kuzuno, um dos maiores representantes da cultura Ainu na cidade de Shinhidaka convenceu o Horomura a fazerem o ritual que durou três dias.
“Sentimos pena dele, mas o consideramos um Kamuy Imoka, um presente dos céus, e realizamos um serviço memorial e um ritual.“, disse Kizuno.
No último dia, um altar foi montado em uma casa chamada “chise”, oferendas e comida foram preparadas. O povo Ainu possui uma visão de mundo na qual os Kamuy assumem a forma de animais e trazem “lembranças” como “carne” e “pele” para os humanos.
Durante a cerimônia, os participantes expressam sua gratidão ao Kamuy, que assumiu a forma de um urso, e oferecem orações para enviar sua alma de volta ao céu. Após a cerimônia, a carne do urso foi assada na fogueira e depois repartida entre os participantes ainu.
Conclusão
Como podemos ver, o urso permanece como símbolo de identidade, resistência cultural e espiritualidade Ainu. Atualmente rituais completos com o sacrifício de animais são extremamente raros devido a leis de proteção animal e mudanças na sensibilidade social.
No entanto, cerimônias simbólicas (sem o abate) como aconteceu recentemente na cidade de Shinhidaka são realizadas como forma de preservar a memória e a espiritualidade da tradição.
Para o povo Ainu, o urso não é um inimigo nem apenas um animal selvagem — é um mensageiro divino, um símbolo de vida, sacrifício e reciprocidade.
Compreender essa relação é essencial não apenas para entender a cultura Ainu, mas também para repensar a forma como a humanidade se relaciona com a natureza.
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