Sunehara: o “assédio por pelos nas pernas” que reacendeu o debate sobre padrões de aparência no trabalho

Sunehara, o assédio por pelos nas pernas que ganhou força no Japão

Sunehara ganhou destaque no Japão após empresas liberarem o uso de bermudas. Conheça outros tipos de assédio relacionados à aparência no trabalho.

Nos últimos anos, empresas japonesas têm flexibilizado antigos códigos de vestimenta para enfrentar as ondas de calor cada vez mais intensas. Em muitas delas, funcionários passaram a poder usar bermudas durante o verão, substituindo as tradicionais calças sociais.

A mudança, que parecia apenas uma medida de conforto e prevenção contra o calor, acabou revelando um fenômeno curioso. Com as pernas mais expostas, alguns trabalhadores passaram a relatar comentários depreciativos sobre seus pelos, dando origem a um debate que rapidamente se espalhou pelas redes sociais japonesas.

O assunto ficou conhecido como Sunehara (すねハラ), expressão usada para descrever situações em que homens são constrangidos, ridicularizados ou pressionados por causa dos pelos das pernas.

Embora o termo seja relativamente novo, ele faz parte de uma discussão muito maior sobre os padrões de aparência impostos pela sociedade japonesa — tema que já havia ganhado destaque anos antes com o movimento #KuToo, criado por mulheres contra a obrigatoriedade do uso de salto alto no ambiente de trabalho.

O que significa Sunehara?

A palavra Sunehara (すねハラ) combina:

Sune (すね) = canela ou parte inferior da perna;
Hara (ハラ) = abreviação de harassment (assédio), bastante utilizada no Japão para criar termos relacionados a diferentes formas de constrangimento.

Assim, Sunehara pode ser traduzido como:

“assédio relacionado aos pelos das pernas”.

Na prática, o termo descreve situações em que uma pessoa recebe comentários insistentes ou depreciativos como:

“Você deveria depilar as pernas.”
“Pelos assim parecem anti-higiênicos.”
“Se vai usar bermuda, pelo menos depile.”
“Isso não combina com um ambiente profissional.”

Embora muitas dessas observações sejam feitas em tom de brincadeira, quem critica o comportamento argumenta que comentários repetitivos sobre o corpo de colegas podem gerar constrangimento e pressão psicológica.

Como as bermudas ajudaram a revelar o problema

Durante décadas, a maior parte dos homens japoneses trabalhava usando calças compridas durante todo o ano.

Com a intensificação das ondas de calor e das campanhas de economia de energia, diversas empresas passaram a flexibilizar seus códigos de vestimenta.

Algumas permitiram:

● bermudas;
● polos;
● tênis discretos;
● roupas mais leves.

Ao expor as pernas, muitos funcionários passaram a ouvir comentários que antes simplesmente não existiam.

Foi justamente essa mudança que fez surgir relatos compartilhados nas redes sociais, onde diversos homens afirmaram sentir pressão para depilar ou aparar os pelos das pernas para evitar julgamentos.

A estética masculina também está mudando

A sociedade japonesa valoriza muito a harmonia do grupo e o respeito às regras, o que faz com que comportamentos fora do comum chamem a atenção.

Há um ditado famoso no país que resume isso: “o prego que se destaca acaba sendo martelado”.

O bem-estar do grupo é colocado acima da vontade de uma só pessoa e com isso muitos homens e mulheres precisaram se adequar aos padrões impostos.

Atletas, modelos e influenciadores digitais ajudaram a popularizar pernas depiladas entre parte do público masculino e com isso a indústria japonesa de cosméticos para homens cresceu rapidamente nos últimos anos.

Hoje é comum encontrar clínicas oferecendo:

● depilação a laser;
● depilação com cera;
● tratamentos para barba;
● design de sobrancelhas;
● cuidados com a pele.

No entanto, muitos homens preferem manter seus pelos naturais e defendem que essa decisão deve ser pessoal.

O debate em torno do Sunehara mostra justamente o conflito entre novas tendências de beleza e o respeito à autonomia individual.

O paralelo com o movimento #KuToo

O caso do Sunehara me trouxe a lembrança do famoso movimento #KuToo, iniciado em 2019 pela atriz e escritora Yumi Ishikawa.

Ela criticou empresas que obrigavam funcionárias a trabalhar usando sapatos de salto alto.

Muitas mulheres aderiram ao movimento, compartilhando imagens mostrando:

● pés inchados;
● bolhas;
● unhas machucadas;
● dores após longas jornadas de trabalho.

A hashtag #KuToo surgiu da união de:

kutsu (靴) = sapato;
kutsū (苦痛) = dor.

O nome também fazia referência ao movimento #MeToo, tornando a campanha conhecida internacionalmente.

Isso fez com que algumas empresas também flexibilizasse o uso de salto alto no ambiente de trabalho, mas assim como Sunehara, também houve pessoas contra essa flexibilização já que no Japão tudo que foge do padrão causa estranhamento e muitas vezes oposição.

Isso mostra que tanto a pressão social quanto comentários sobre a aparência, levantam uma questão semelhante: até que ponto padrões estéticos podem ser impostos no ambiente de trabalho, levando ao assédio por parte de chefes ou colegas de trabalho?

Outros tipos de “hara” no Japão

Sunehara, o assédio por pelos nas pernas que ganhou força no JapãoImagem: Pakutaso

A palavra usada para assédio no Japão é “Harasumento” (ハラスメント), do inglês harasasment. Uma característica curiosa da sociedade japonesa é a criação de dezenas de expressões relacionadas a vários tipos de assédio terminadas em -hara.

Algumas delas já fazem parte do vocabulário cotidiano.

Power Harassment (パワハラ)

Conhecido como Pawahara, refere-se ao abuso de autoridade no ambiente de trabalho.

Inclui:

● humilhações públicas;
● ameaças;
● excesso de cobranças;
● intimidação por superiores.

Sexual Harassment (セクハラ)

O tradicional Sekuhara envolve comentários, insinuações ou comportamentos de natureza sexual considerados inadequados.

Foi um dos primeiros termos desse tipo a ganhar notoriedade no Japão.

Maternity Harassment (マタハラ)

Chamado de Matahara, refere-se à discriminação contra mulheres grávidas ou que retornam da licença-maternidade.

Pode incluir:

● pressão para pedir demissão;
● perda de oportunidades de promoção;
● tratamento desigual.

Paternity Harassment (パタハラ)

Conhecido como Patahara, ocorre quando homens sofrem críticas ou prejuízos profissionais por desejarem usufruir da licença-paternidade.

Smell Harassment (スメハラ)

O Sumehara trata de odores considerados incômodos no ambiente de trabalho.

Pode envolver:

● perfume excessivo;
● cheiro de cigarro;
● suor;
● odor corporal.

O tema ganhou destaque principalmente após o aumento da preocupação com ambientes compartilhados.

Appearance Harassment (ルッキズム)

Embora não utilize exatamente o sufixo “-hara”, também cresce o debate sobre o chamado lookism, relacionado à discriminação baseada na aparência física.

Ele pode envolver críticas sobre:

● peso;
● altura;
● cabelo;
● barba;
● tatuagens;
● maquiagem;
● roupas.

O Sunehara é frequentemente associado a essa discussão mais ampla.

A influência das mudanças climáticas

Especialistas observam que o aumento das temperaturas pode acelerar mudanças nos códigos de vestimenta corporativos.

À medida que empresas adotam roupas mais leves para proteger funcionários do calor, características do corpo antes escondidas tornam-se mais visíveis.

Isso pode ampliar debates sobre aparência, higiene e respeito à diversidade, reforçando a necessidade de ambientes de trabalho livres de comentários constrangedores.

Entre a higiene e a liberdade de escolha

Nem todos enxergam o Sunehara da mesma forma.

Há quem defenda que aparar ou remover pelos melhora a aparência ou transmite maior sensação de limpeza.

Outros argumentam que essas preferências são subjetivas e que ninguém deveria sofrer pressão para modificar seu corpo apenas para atender expectativas estéticas.

O debate evidencia como normas sociais mudam com o tempo e variam conforme o contexto cultural.

Uma sociedade em transformação

Harasumento, o assédio no ambiente de trabalho no JapãoImagem: Pakutaso

Nos últimos anos, muitas empresas japonesas passaram a rever políticas relacionadas à aparência de seus funcionários.

Algumas flexibilizaram regras sobre:

● uso de salto alto;
● maquiagem obrigatória;
● cor do cabelo;
● gravatas durante o verão;
● vestimentas mais leves.

Essas mudanças refletem transformações graduais na cultura corporativa, impulsionadas por debates sobre bem-estar, igualdade e diversidade.

Ainda assim, relatos ligados ao Sunehara mostram que, mesmo quando regras formais são flexibilizadas, expectativas sociais podem continuar exercendo influência sobre o comportamento das pessoas.

Curiosidades

O Japão criou dezenas de expressões terminadas em -hara para descrever diferentes formas de assédio ou constrangimento social.

O programa governamental Cool Biz, lançado em 2005, incentivou empresas a adotarem roupas mais leves no verão para reduzir o uso de ar-condicionado e economizar energia.

O mercado japonês de estética masculina movimenta bilhões de ienes por ano, impulsionado pela procura por produtos de cuidados pessoais e depilação.

Discussões sobre aparência no ambiente de trabalho tornaram-se mais frequentes nas redes sociais, onde trabalhadores compartilham experiências e questionam normas tradicionais.

Conclusão

O surgimento do termo Sunehara mostra como mudanças aparentemente simples — como a permissão para usar bermudas no escritório durante o verão — podem revelar questões mais profundas sobre padrões estéticos e convivência no ambiente de trabalho.

Embora o fenômeno não tenha o mesmo alcance ou impacto institucional do movimento #KuToo, ambos refletem uma sociedade que vem reavaliando expectativas relacionadas à aparência física.

À medida que empresas flexibilizam códigos de vestimenta e novas gerações defendem maior liberdade de expressão individual, cresce também a discussão sobre o limite entre uma opinião pessoal e um comentário que constrange ou pressiona alguém a modificar seu corpo.

O desafio para o Japão, como para muitos outros países, é equilibrar normas de apresentação profissional com o respeito às escolhas e à diversidade de cada indivíduo.

Imagem do topo: Pakutaso

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Sou apaixonada pelo Japão e sua cultura. Resolvi criar esse blog com o intuito de fazer com que mais e mais pessoas conheçam essa cultura tão rica, incrível e fascinante!

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