Kemari: conheça o antigo futebol do Japão praticado pela corte imperial há mais de 1.300 anos

O Kemari (蹴鞠) é considerado um dos esportes mais antigos do mundo, com mais de 1.300 anos de história e representa a forma tradicional de futebol do Japão
Muito antes de o futebol moderno conquistar milhões de torcedores no Japão, os japoneses já praticavam um elegante jogo com bola conhecido como Kemari (蹴鞠).
Surgido há mais de 1.300 anos, esse esporte tradicional não tinha como objetivo derrotar um adversário, marcar gols ou conquistar um campeonato. Pelo contrário, o verdadeiro desafio era cooperar para manter a bola no ar o maior tempo possível.
Com movimentos graciosos, roupas inspiradas na corte imperial e forte influência das tradições xintoístas, o Kemari continua sendo praticado em cerimônias e festivais em diferentes regiões do Japão.
Hoje, ele é considerado um importante patrimônio cultural, preservando uma parte significativa da história esportiva do país.
O que é o Kemari?
Kemari significa literalmente “bola chutada”.
A prática consiste em um grupo de jogadores posicionados em círculo que trabalham juntos para impedir que a bola toque o chão.
Ao contrário do futebol moderno, não existem:
● equipes adversárias;
● placar;
● vencedores ou perdedores;
● contato físico entre jogadores.
O objetivo principal é a harmonia, a cooperação e a beleza dos movimentos.
Cada participante procura devolver a bola aos demais com chutes suaves, utilizando principalmente a parte interna do pé.
A origem do Kemari
Desenho “Kemari” de Akisato Ritoh (秋里籬島) 1799
Os historiadores acreditam que o Kemari tenha chegado ao Japão vindo da China por volta dos séculos VI e VII, durante o período Asuka (538–710).
Ele foi inspirado em um antigo jogo chinês chamado Cuju (蹴鞠), considerado por muitos pesquisadores uma das formas mais antigas de futebol do mundo.
Entretanto, ao chegar ao Japão, o jogo sofreu profundas transformações.
Enquanto o Cuju era competitivo e militar, o Kemari tornou-se uma atividade cerimonial voltada para a elegância, a etiqueta e o espírito coletivo.
Durante o período Heian (794–1185), passou a ser um dos passatempos favoritos da aristocracia japonesa.
Um esporte da corte imperial
Na antiga capital Kyoto, nobres, membros da família imperial e sacerdotes praticavam Kemari nos jardins dos palácios e templos.
Mais do que entretenimento, o jogo simbolizava refinamento cultural.
A habilidade de manter a bola no ar demonstrava:
● coordenação;
● disciplina;
● equilíbrio;
● elegância;
● respeito pelos demais participantes.
Participar de uma partida de Kemari era considerado um sinal de boa educação e prestígio social.
Como é uma partida?

Tradicionalmente, participam entre seis e oito jogadores que jogam em um espaço quadrado conhecido como kemariba, cercado por quatro árvores simbólicas.
Essas árvores são: cerejeira, bordo (momiji), pinheiro e salgueiro. Essas árvores representam as quatro estações do ano e reforçam a ligação do esporte com a natureza.
A bola circula continuamente entre os participantes. Cada jogador pode chutar a bola quantas vezes quiser antes de passá-la para seu parceiro, mas não pode ser tocada com outras partes do corpo que não seja os pés.
Cada chute deve ser delicado, permitindo que outro jogador dê sequência ao movimento.
Quando a bola cai, simplesmente reinicia-se a atividade, sem punições.
A bola do Kemari
A bola tradicional chama-se mari.
Ela é confeccionada artesanalmente com couro de veado cuidadosamente costurado.
Seu interior permanece praticamente oco, tornando-a extremamente leve.
Após ser moldada, a bola passa por um processo de secagem que lhe confere formato quase perfeitamente esférico.
O peso reduzido facilita longas sequências de passes sem grande impacto.
As roupas chamam tanta atenção quanto o jogo
Evento de Kemari realiado no Santuário Shimogamo, em Kyoto (Foto: VCG)
Um dos aspectos mais marcantes do Kemari é o vestuário.
Os jogadores utilizam trajes tradicionais da corte Heian, compostos por:
● Kariginu (狩衣), túnica ampla originalmente usada pela nobreza;
● Hakama (袴), calças largas e plissadas;
● chapéu preto chamado eboshi;
● calçados especiais de couro chamados kutsu, desenvolvidos para facilitar os chutes.
As cores vivas tornam cada apresentação ainda mais elegante.
Um jogo baseado na cooperação
Diferentemente da maioria dos esportes atuais, o Kemari valoriza a colaboração acima da competição.
Os jogadores procuram:
● ajudar os companheiros;
● manter um ritmo harmonioso;
● evitar movimentos bruscos;
● preservar a continuidade da partida.
Essa filosofia reflete valores profundamente presentes na cultura japonesa, como:
● wa (和) – harmonia;
● respeito mútuo;
● autocontrole;
● cooperação.
Por isso, muitos estudiosos consideram o Kemari uma manifestação cultural tanto quanto esportiva.
A relação com o xintoísmo
O Kemari possui forte ligação com a religião xintoísta.
Diversos santuários realizam apresentações como forma de preservar antigas tradições. Em algumas ocasiões, o jogo integra cerimônias dedicadas à boa colheita, prosperidade e agradecimento aos deuses (kami).
Assim, assistir a uma partida de Kemari é também uma oportunidade de conhecer um importante aspecto da espiritualidade japonesa.
O famoso Kemari Hajime
Todos os anos, no início de janeiro, acontece uma das apresentações mais conhecidas do Japão: o Kemari Hajime (“Primeiro Kemari do Ano”).
A cerimônia é realizada no Santuário Shimogamo (下鴨神社), um dos mais antigos e importantes santuários xintoístas de Kyoto.
Já o “Kemari Matsuri” é celebrado no Santuário Tanzan (談山神社) na cidade de Sakurai, Província de Nara e ocorre duas vezes por ano, na primavera (29 de abril) e no outono.
Vestidos com trajes tradicionais, os participantes executam partidas seguindo técnicas transmitidas por gerações.
O evento atrai turistas, fotógrafos e estudiosos interessados em vivenciar uma tradição preservada há séculos.
A família que preservou o Kemari
Durante séculos, a prática foi mantida por famílias aristocráticas especializadas.
A mais conhecida foi a Casa Asukai, responsável por transmitir técnicas, regras e cerimônias relacionadas ao esporte desde o período medieval.
Graças a esse esforço, o Kemari sobreviveu mesmo após o declínio da aristocracia japonesa.
Hoje, associações culturais continuam ensinando a modalidade para novas gerações.
Curiosidades sobre o Kemari
A prática existe no Japão há mais de 1.300 anos.
O objetivo não é vencer, mas cooperar.
A bola tradicional é feita de couro de veado.
O esporte era praticado por imperadores e nobres durante o período Heian.
O Kemari influenciou a forma como o esporte e a etiqueta eram vistos na corte japonesa.
Ainda hoje é apresentado em festivais e cerimônias religiosas.
O termo “mari” também aparece em brinquedos tradicionais japoneses, sempre associado a bolas artesanais.
Kemari e o futebol moderno
Embora sejam muito diferentes, o Kemari e o futebol compartilham um elemento essencial: o uso dos pés para controlar uma bola.
No futebol moderno, criado na Inglaterra no século XIX, o foco está na competição, na estratégia e na conquista de gols.
Já no Kemari, o sucesso é medido pela capacidade de manter a bola em movimento com elegância e cooperação.
Essa diferença revela duas formas distintas de compreender o esporte: uma baseada na disputa e outra na harmonia.
Curiosamente, quando o futebol começou a se popularizar no Japão no final do século XIX, muitos intelectuais estabeleceram paralelos entre as duas práticas, vendo no Kemari uma expressão histórica da habilidade japonesa com jogos de bola.
Um legado que continua vivo
Embora hoje seja praticado principalmente em cerimônias culturais, o Kemari permanece como um símbolo da história esportiva do Japão.
Ele representa um tempo em que o jogo era visto como uma forma de cultivar disciplina, respeito e equilíbrio, valores que ainda ocupam lugar central na cultura japonesa.
Assistir a uma apresentação de Kemari é como viajar ao período Heian e testemunhar uma tradição que atravessou mais de um milênio.
Em um mundo esportivo frequentemente marcado pela rivalidade, esse antigo jogo japonês continua lembrando que, às vezes, a maior vitória é manter a bola — e o espírito de cooperação — sempre em movimento.
Imagem do topo: Wikimedia Commons
* Artigo publicado originalmente em 19 de dezembro de 2020
Última atualização em 12 de julho de 2026
Na minha rua (quando eu era pequeno) agente chamava isso de altinho rsrsrsrs