Sōhei: Os Monges-Guerreiros que Marcaram a História do Japão

Quem eram os Sōhei (僧兵)? Conheça a história dos monges-guerreiros do Japão, seu poder militar, templos famosos, armas e o confronto com Oda Nobunaga.
Quando se pensa em monges budistas, a imagem comum é a de serenidade, meditação e afastamento da violência. No Japão medieval, porém, essa ideia não se aplica completamente.
Durante séculos, monges armados conhecidos como Sōhei (僧兵) desempenharam um papel decisivo na política, na guerra e no equilíbrio de poder do Japão feudal.
Quem eram os Sōhei?
Os monges guerreiros apareceram pela primeira vez durante o período Heian, quando amargas rixas políticas começaram entre diferentes templos, diferentes subseitas do budismo, por causa de nomeações imperiais para as posições de topo do templo (abade ou zasu).
Grande parte das lutas ao longo dos próximos quatro séculos foi sobre esses tipos de feudos políticos e centrou-se em torno dos templos de Kyoto, Nara e Ōmi, ou seja, o Tōdai-ji , Kōfuku-ji, Enryaku-ji e Mii-dera, o quatro maiores templos do país
Os Sōhei eram monges-guerreiros que diferente dos samurais tradicionais, eles combinavam práticas religiosas com treinamento militar, defendendo os interesses de seus templos — muitas vezes com extrema violência.
Esses monges armados surgiram em um período em que templos acumulavam terras, riquezas e influência política, tornando-se alvos de disputas entre clãs e do próprio governo imperial.
Eram similares aos Yamabushi, ascéticos da montanha, mas, ao contrário dos solitários yamabushi, eram normalmente organizados em grandes exércitos.
Por que os templos precisavam de exércitos?

À medida que o budismo se fortalecia no Japão, grandes complexos religiosos passaram a controlar vastas propriedades. Para proteger essas posses e garantir privilégios políticos, muitos templos organizaram seus próprios exércitos.
Eles também intimidavam escolas rivais de budismo, tornando-se um fator significativo na disseminação do budismo e no desenvolvimento de diferentes escolas durante o período Kamakura.
Os Sōhei eram usados para:
● Defender territórios e rotas comerciais
● Pressionar decisões políticas em Quioto
● Enfrentar clãs rivais e outros templos
● Proteger líderes religiosos
Em alguns momentos, os monges marchavam até a capital carregando mikoshi (santuários portáteis) como forma de intimidação espiritual e política, pois praticar violência na presença de tal item sagrado era considerado blasfêmia ao extremo.
Os templos mais poderosos dos Sōhei
Entre os principais centros dos monges-guerreiros, destacam-se:
Enryaku-ji (Monte Hiei)
Talvez o mais famoso templo ligado aos Sōhei. Seus monges influenciaram diretamente a política imperial por séculos e eram temidos por sua força militar.
Kōfuku-ji (Nara)
Associado ao poderoso clã Fujiwara, o Kōfuku-ji mantinha um exército próprio de monges armados para proteger seus interesses.
Mii-dera (Onjō-ji)
Rival direto do Enryaku-ji, protagonizou violentos confrontos entre templos — verdadeiras “guerras religiosas” japonesas.
Armas e aparência dos monges-guerreiros
Imagem Wikimedia Commons
Apesar das vestes monásticas, os Sōhei eram guerreiros temíveis.
Suas armas mais comuns incluíam:
● Naginata (lança com lâmina curva)
● Espadas curtas
● Arcos e flechas
Visualmente, costumavam usar quimono usual e calças largas, com longas ‘saias’ protegendo a parte superior das pernas. Usavam uma armadura leve sobre o quimono e sobre ela, uma jaqueta escura, criando uma imagem única que misturava espiritualidade e guerra.
Outras características marcantes, que tornavam sua identificação fácil e rápida, eram a cabeça raspada, o uso de um rosário de madeira em volta do pescoço e um capuz branco, deixando somente seus olhos à mostra. Alguns utilizavam capacetes, mas não eram todos.
Muitos monges guerreiros usavam geta (sandálias de madeira), embora isso não fosse prático em uma luta, então se eles as usavam na batalha é discutível.
Sōhei e o Período Sengoku
Durante o Período Sengoku (séculos XV–XVI), marcado por guerras constantes, os Sōhei se tornaram ainda mais influentes.
Alguns templos funcionavam praticamente como estados militares independentes, negociando alianças com daimyōs e desafiando autoridades seculares.
Esse poder, porém, começou a ser visto como uma ameaça direta à unificação do Japão.
O confronto com Oda Nobunaga

O declínio dos Sōhei está diretamente ligado a Oda Nobunaga, o grande unificador do Japão. Nobunaga detestava os Sōhei por terem se tornado aliados das famílias Asai e Asakura, alguns dos seus maiores rivais e montou uma série de campanhas contra eles.
Nobunaga os derrotou na batalha em 1570, mas eles contra-atacaram no final daquele ano. Derrotados pelo general de Nobunaga, Toyotomi Hideyoshi, eles fugiram para as montanhas e foram salvos pelo sohei do Enryaku-ji, no Monte Hiei.
Cansado de sua interferência, Nobunaga lançou uma campanha contra os monges em setembro de 1571, destruindo completamente o complexo do templo do Monte Hiei, o Enryaku-ji, massacrando milhares de monges, mulheres e crianças – ao todo, mais de vinte mil pessoas.
Esse episódio marcou simbolicamente o fim da era dos monges-guerreiros como força política dominante.
O legado dos Sōhei
Embora tenham desaparecido como classe militar, os Sōhei deixaram um legado profundo:
● Influenciaram a relação entre religião e poder no Japão
● Inspiraram personagens de mangás, animes e jogos
● Permanecem como símbolo da complexidade do budismo japonês
● Eles representam um período em que fé, espada e política estavam profundamente entrelaçadas.
Sōhei na cultura popular
Até hoje, os monges-guerreiros aparecem em:
● Animes históricos e de fantasia
● Jogos como Total War: Shogun e Nioh
● Dramas históricos japoneses (taiga dramas)
Essas representações mantêm viva a memória de um dos grupos mais fascinantes do Japão medieval.
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