A despedida da mulher serpente


A despedida da mulher serpente

Conheça a história de um presente sagrado que despertou o desejo de um demônio

Por Rafaela Torres e Mara Vanessa Torres

O peixe fresco e o chá estavam em cima da mesa. Havia também um pouco de arroz dentro da tigela. A casa permanecia no mais completo silêncio. Vovó Yasu estava no templo fazendo suas orações. Os pequenos “Ohashis”, como eram chamados os gêmeos, brincavam com origamis. Papai estava na lavoura de arroz e mamãe lavava algumas peças de roupas.

Sayuri, o pequeno lírio da família, estava sentada nas margens do Lago Saiko escrevendo alguns poemas. O dia estava muito bonito e tranquilo. As árvores balançavam seus galhos verdes com a ternura da mão que embala o sono das crianças.

O vilarejo exibia a mesma busca pela perfeição e devoção ao trabalho que tinha encorajado durante os séculos todos os ancestrais. Ali, a vida era boa.

A despedida da mulher serpente

Nure Onna in the water: Imagem por Alyssa Cubero

Os longos cabelos pretos de Sayuri estavam ornamentados com flores e um kanzashi. Sayuri ganhou de mamãe ao completar quinze luas. Jamais poderia ser exposto na varanda, pois poderia atrair demônios e calamidades. Sayuri não poderia ser descuidada com ele e nem poderia perdê-lo. Era um presente sagrado.

Enquanto escrevia os seus poemas, a jovem sentiu que a temperatura do ambiente estava caindo rapidamente. Os pássaros já não cantavam e as árvores estavam agitadas. Sayuri observou que algo se remexia dentro do lago.

Temerosa, levantou-se rapidamente. Quando estava de pé, viu seu caderno de poemas cair. Ao se abaixar para pegar, notou que algo se aproximava. Então Sayuri viu.

A despedida da mulher serpente

Nure Onna: Imagem por Mary Helen

Nure Onna, a mulher serpente, estava quase nas margens do Lago Saiko, próximo aos pés do pequeno lírio. A poderosa yokai das águas, com seu rosto feminino tão lindo quanto vitórias-régias e seu corpo de serpente, maior que o de uma píton-real. Seus olhos venenosos eram dourados, maliciosos; a boca continha dentes pontudos e as escamas de sua pele eram afiadas. Seus enormes e longos cabelos negros circulavam grande extensão das águas.

Nure Onna retirou a cabeça da água e dirigiu a palavra à Sayuri:

– Ser da terra, desejo algo que é teu.

Gaguejando, a jovem respondeu:

– Em… em que posso ser útil, Grande Ser das Águas?

– Eu quero o kanzashi que você carrega nos cabelos.

Com profundas lágrimas nos olhos, Sayuri se ajoelhou diante das águas e implorou:

– Misterioso Ser das Águas, permita-me ficar com o meu adereço. A ausência dele trará má sorte para a minha família.

Enfurecida, a mulher serpente levantou seu imenso corpo das águas. O rosto humano desapareceu na monstruosidade daquele yokai.

– Vou drenar todo o sangue de teu corpo, sua insolente!

Sayuri tentou correr, mas foi golpeada pelo imenso rabo da Nure Onna e arrastada para as águas. O lago sereno ficou turvo e agitado. Sayuri tentou resistir cravando os dedos na terra, mas afundou no lago.

No fundo das águas, a grande serpente começou a executar o “abraço da morte” na jovem integrante da família Iyashi. Quase dando os últimos suspiros, Sayuri sentiu quando o kanzashi caiu de seus cabelos. O demônio aquático levantou Sayuri e estava prestes a mordê-la, mas uma luz muito forte feriu sua visão.

Nure Onna soltou a jovem e, petrificada, viu um espírito de luz se aproximando.

– Eu sou Kaguya-hime, a princesa da Lua. Fui invocada por Iyashi Yasu, avó de Iyashi Sayuri. Ordeno que você volte para o fundo do lago e nunca mais apareça. Despeça-se deste mundo, Nure Onna, yokai das águas. Eu ordeno!

Lançando para o ar um grito lancinante, a mulher serpente afundou nas águas do Lago Saiko e nunca mais foi vista.

Raios de luz brotaram dos dedos de Kaguya-hime e o sol, os pássaros, as árvores e o frescor da manhã retornaram para aquela região. A princesa da lua desapareceu no meio de um foco luminoso, intenso e brilhante.

Agradecida, Sayuri levantou-se da água e, na margem, encontrou o seu kanzashi e o caderno de poemas. Graças às orações da avó, uma mulher que resistiu às guerras e invasões, ela estava viva.

De joelhos, Sayuri reverenciou seus ancestrais e a poderosa Kaguya-hime. Ela dedicou-lhe poemas e histórias. Ainda hoje, os sucessores da família Iyashi guardam o kanzashi de Sayuri. Dizem que um lindíssimo lírio brota a cada lua cheia bem no centro do kanzashi.


Rafaela Torres é escritora, psicóloga, ilustradora e gamer. Apaixonada pela cultura asiática. @rosenightshade

Mara Vanessa Torres é escritora, jornalista, revisora e crítica cultural. Tem profunda admiração e crescente interesse pelo universo artístico e cultural asiático. @abyssal_waters

Créditos da imagem do topo: Alyssa Cubero

Quer Aprender Japonês?

1 Comentário

  1. Maria

    Que história fantástica! Fiquei arrepiada!! Adorei!!!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *