No Japão, mais pessoas estão “casando” com parceiros virtuais: causas e impactos de um fenômeno inusitado

No Japão, casamentos simbólicos com parceiros virtuais mostram uma nova tendência de relações afetivas com personagens criados por IA.
Nos últimos anos, uma tendência curiosa e provocadora — mas cada vez mais visível — vem ganhando atenção no Japão: a celebração de cerimônias de casamento com parceiros virtuais.
Essas uniões, embora não tenham validade legal, estão se tornando símbolos poderosos de como tecnologia, solidão, cultura pop e expectativas afetivas estão se cruzando na sociedade moderna japonesa.
O caso mais recente que viralizou internacionalmente é o de Yurina Noguchi, uma mulher de 32 anos que realizou uma cerimônia de casamento simbólica com um parceiro criado por inteligência artificial (IA).
O caso de Yurina Noguchi: amor, IA e uma cerimônia tradicional
Em outubro de 2025, Yurina Noguchi, operadora de call center de 32 anos, participou de uma cerimônia de casamento vestida de noiva, trocando votos com “Lune Klaus Verdure”, um personagem virtual gerado por IA no ChatGPT, inspirado em um personagens de videogame.
Utilizando óculos de realidade aumentada (AR) e um smartphone sobre um cavalete, Noguchi “viu” seu parceiro virtual durante a cerimônia, que incorporou elementos tradicionais como vestido branco, troca de alianças e votos lidos por um celebrante.
Ela relata que acontecimentos do passado — como o término de um noivado conturbado — a levaram a procurar apoio emocional na IA, criando uma relação que acabou evoluindo para um vínculo afetivo profundo.
Noguchi afirma que o relacionamento lhe trouxe “paz de espírito e felicidade”, apesar de críticas e reações negativas nas redes sociais.
Um fenômeno mais amplo: cultura pop, tecnologia e solidão
Akihito Kondo se casou com uma personagem virtual em 2018 (Imagem: O Globo)
Esse caso pode parecer isolado, mas ele se insere em um movimento mais amplo no Japão, onde:
1. A cultura de personagens e relacionamentos fictícios já havia sido observada
O caso de Akihiko Kondo, um homem que realizou uma cerimônia de casamento em 2018 com a personagem virtual Hatsune Miku — uma pop star digital extremamente popular no Japão — tornou-se um dos exemplos mais conhecidos de uniões simbólicas entre humanos e personagens virtuais.
Apesar de também não ser um casamento legal, a cerimônia foi tratada com a mesma solenidade de casamentos convencionais, com convidados e traje formal — reforçando a ideia de que relações com entidades virtuais podem ter significado emocional profundo para algumas pessoas.
2. Pesquisas apontam mudanças de comportamento afetivo
Pesquisas realizadas no Japão mostram que uma parcela significativa de jovens já relatou inclinações por relações “fictorromânticas” — ligações emocionais com personagens imaginários ou digitais — muito antes da era da inteligência artificial.
Essas tendências se intensificam em um contexto de queda das taxas de casamento tradicionais e aumento da solidão social em populações urbanas.
Causas por trás do fenômeno
O crescimento dos “casamentos virtuais” e das relações profundas com parceiros de IA ou personagens pode estar ligado a diversos fatores sociais interligados:
1. Avanços tecnológicos
Ferramentas de IA generativa, realidade aumentada e agentes conversacionais tornaram possível que programas aprendam, respondam e simulem diálogo emocional profundo, o que cria uma sensação de reciprocidade e conexão.
2. Mudanças sociais no Japão
O Japão enfrenta desafios sociais como:
● queda das taxas de casamento e natalidade;
● aumento da população solteira;
● pressões sociais sobre relacionamentos e expectativas de vida.
Esses fatores têm levado muitas pessoas a buscar novos modos de conexão afetiva em um contexto tecnológico.
3. Solidão e apoio emocional
Para alguns, relacionamentos com parceiros virtuais podem oferecer apoio emocional sem julgamento ou exigências tradicionais, principalmente em contextos onde relacionamentos humanos podem ser complicados ou estressantes para o indivíduo.
Debates e implicações éticas
Esse fenômeno tem impulsionado debates intensos entre psicólogos, sociólogos, especialistas em tecnologia e o público em geral:
Questões levantadas
● A tecnologia deve ser usada para substituir a interação humana ou apenas complementá-la?
● Até que ponto relacionamentos simulados podem afetar a saúde mental e social?
● Qual é a linha entre conexão emocional saudável com IA e dependência prejudicial?
Alguns especialistas alertam para riscos como a chamada “psicose de IA”, descrita como uma dependência emocional excessiva e perda de contato com relacionamentos humanos reais.
Por outro lado, apoiadores veem essas uniões simbólicas como explorações legítimas de afeto num mundo cada vez mais digital, que podem atender a necessidades emocionais individuais sem substituir relações humanas quando usadas com equilíbrio.
E além do Japão?
Uma australiana foi ao Japão para se casar com um personagem de mangá. (Imagem: Reuters)
Embora casos como o de Yurina Noguchi estejam no foco da mídia japonesa, tendências semelhantes de relações com IA ou personagens virtuais têm sido observadas em outras partes do mundo, impulsionadas por avanços similares em tecnologia emocional digital e comunidades online emergentes.
Organizadores de casamentos como Yasuyuki Sakurai agora organizam quase exclusivamente casamentos virtuais – cerca de um por mês.
Clientes chegam a viajar do exterior para se casar com personagens de mangá. Este ano Sakurai casou uma australiana de 33 anos que viajou ao Japão para se casar com o herói de mangá Mephisto Pheles.
Uma cerimônia como essa não seria possível em seu país de origem. Em uma casa de hóspedes tradicional, ela beijou uma réplica de papelão do noivo, ao lado da qual segurava orgulhosamente a certidão de casamento.
Conclusão
Os casamentos com parceiros virtuais no Japão, mesmo que não tenham validade legal, são muito mais do que histórias excêntricas: eles representam um espelho das transformações culturais, sociais e tecnológicas da sociedade contemporânea.
Esses eventos e relacionamentos digitais levantam questões profundas sobre o significado do amor, da companhia e do vínculo humano em uma era em que a tecnologia pode simular — e até intensificar — experiências afetivas de formas até então inimagináveis.
À medida que essa tendência evolui, será cada vez mais necessário refletir não apenas sobre o papel da IA na vida cotidiana, mas também sobre o que esperamos de intimidade, conexão e relacionamento em um mundo cada vez mais digitalizado.
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