Os “Órfãos da China” (Zanryu-koji): uma ferida humana deixada pela guerra

Os “Órfãos da China” (Zanryu-koji): uma ferida humana deixada pela guerra

Conheça a história dos Órfãos da China (Zanryu-koji), crianças japonesas deixadas na China após a Segunda Guerra e marcadas pela perda de identidade.

Os chamados “Órfãos da China”, conhecidos em japonês como zanryu-hojin (残留邦人), Zanryu-koji (残留孤児), ou Chugoku zanryu koji (中国残留孤児), representam um dos capítulos mais dolorosos e menos conhecidos do pós-guerra no Leste Asiático.

O termo refere-se às crianças japonesas deixadas para trás na China ao fim da Segunda Guerra Mundial, que cresceram muitas vezes sem conhecer sua verdadeira origem, muitas vezes acreditando ser chinesas.

A história dos Zanryu-koji envolve guerra, abandono forçado, perda de identidade e longos processos de reconciliação, marcando profundamente tanto o Japão quanto a China.

Contexto histórico: japoneses na China antes de 1945

Em 1936, o gabinete de Hirota Koki formulou o “Plano de Colonização da Manchúria”, com o objetivo de realocar 5 milhões de japoneses no nordeste da China entre 1936 e 1956.

Simultaneamente, foi lançado um plano para construir 1 milhão de unidades habitacionais para imigrantes japoneses que em sua maioria trabalhariam como colonos.

Antes do fim da guerra, o Japão já mantinha uma presença significativa no nordeste da China, especialmente na região da Manchúria, então ocupada pelo Império Japonês.

Centenas de milhares de civis japoneses — agricultores, funcionários públicos e suas famílias — foram incentivados a se estabelecer na região como parte de um projeto de colonização. Estima-se que aproximadamente 300.000 japoneses emigraram para a Manchúria.

Quando o Japão se rendeu em agosto de 1945, essa população civil ficou repentinamente vulnerável, cercada por instabilidade, fome, violência e colapso da administração japonesa.

Como surgiram os “Órfãos da China”

Órfãos japoneses deixados na China
No caos do pós-guerra:

● Muitos pais japoneses morreram de fome, doenças ou violência
● Outros foram forçados a fugir e acabaram se separando dos filhos
● Algumas crianças foram abandonadas na esperança de sobreviverem
● Outras foram entregues a famílias chinesas por desespero

Essas crianças cresceram em vilarejos chineses, adotadas informalmente por famílias locais, aprendendo a língua chinesa, adotando costumes locais e perdendo completamente o contato com o Japão.

Perda de identidade e silêncio forçado

Para a maioria dos Zanryu-koji, a infância foi marcada por:

● Desconhecimento total da própria origem
● Discriminação por serem “diferentes”
● Silêncio sobre o passado japonês, especialmente durante períodos de forte nacionalismo chinês

Muitos só descobriram que eram japoneses já adultos ou idosos, às vezes por relatos tardios de parentes adotivos, documentos antigos ou características físicas que levantavam dúvidas.

Além disso, muitos deles foram declarados “mortos de guerra” em 1959 pelo governo japonês, que removeu 30.000 nomes de “desaparecidos” dos registros familiares.

Ao mesmo tempo, o governo chinês estimou que o número de japoneses abandonados vivos era de cerca de 13.000. Muitas dessas pessoas ficaram efetivamente isoladas do Japão até a década de 1970, e a maioria sofreu dificuldades inimagináveis.

O retorno tardio ao Japão

A partir da década de 1970, o governo japonês passou a reconhecer oficialmente a existência dos Órfãos da China e iniciou programas de repatriação. Para solicitar apoio oficial para encontrar suas famílias, era necessário que os órfãos cumprissem alguns critérios como:

● Ter nascido de pais japoneses;
● Ter perdido ou ter sido separado(a) de seus pais biológicos após 9 de agosto de 1945 (primeiro dia da Guerra Soviético-Japonesa), no nordeste da China;
● Ter menos de 13 anos quando a Segunda Guerra Mundial terminou;

Milhares decidiram retornar em busca de suas raízes, enquanto outros optaram por permanecer na China, país que consideravam seu verdadeiro lar.

O retorno trouxe outros desafios:

● A maioria não falava japonês
● Culturalmente, sentiam-se chineses
● Porém eram alvos de discriminação na China
● Sofreram discriminação e isolamento no Japão
● Enfrentaram dificuldades econômicas e burocráticas

Entre os 2.557 órfãos que retornaram e agora residem permanentemente no Japão, 1.104 tiveram a sorte de encontrar seus pais biológicos ou outros parentes. Por outro lado, 1.453 órfãos não conseguiram encontrar suas famílias biológicas.

Estes foram distribuídos por diferentes províncias, especialmente Tóquio, Osaka, Nagoya ou Nagano onde conseguiram formar uma comunidade.

Outros foram para regiões mais afastadas ou cidades menores e precisaram se misturar com os japoneses locais. No entanto, o fato de não conseguirem dominar o japonês os impediam de comunicar-se livremente com os habitantes locais, dificultando a adaptação.

Reconhecimento, pedidos de desculpas e indenizações

Os Órfãos da China (Chugoku zanryu koji)Imagem: readyfor.jp

Nas últimas décadas, os Zanryu-koji e seus descendentes moveram ações judiciais contra o governo japonês, exigindo reconhecimento oficial, pedidos formais de desculpas e compensações financeiras.

Somente em 2002 foram 2.025 ações. Em Osaka, 111 órfãos entraram com uma ação perante o tribunal distrital em 2003. Em 6 de julho de 2005, o tribunal proferiu a sentença dos primeiros 32 demandantes.

A idade média deles na época era de 65 anos. Com o passar dos anos, tornam-se cada vez mais dependentes da assistência social. Eles alegaram que, devido à negligência do Estado japonês, sofreram danos materiais e emocionais.

O Estado japonês reconheceu responsabilidade moral, mas os debates sobre indenizações seguem sendo sensíveis e politicamente complexos, pois envolvem memórias da guerra, colonialismo e responsabilidades históricas.

Entre dois países, duas identidades

Os Órfãos japoneses da China vivem em uma condição singular:
não pertencem completamente nem ao Japão nem à China.

● No Japão, são vistos como “estrangeiros”
● Na China, como “japoneses”
● Culturalmente, carregam uma identidade híbrida

Ainda assim, muitos transformaram sua experiência em pontes de diálogo, atuando como mediadores culturais, educadores e testemunhas vivas da história.

Importância histórica e humana

A história dos Zanryu-koji não é apenas japonesa ou chinesa — é universal. Ela revela:

● O impacto da guerra sobre civis indefesos
● As consequências de decisões políticas sobre gerações inteiras
● A força da memória, da identidade e da dignidade humana

Ao ouvir essas histórias, somos lembrados de que os verdadeiros custos da guerra continuam por décadas, muito além dos campos de batalha.

Um filme que aborda esse assunto é Sakai no Nara (再会の奈良), ou Reencontro em Nara, uma coprodução Japão-China fruto do projeto cinematográfico “NARAtive2020”.

O filme conta a história de uma avó chinesa que viajou milhares de quilômetros até o Japão para encontrar sua filha adotiva japonesa que retornou ao Japão.

Conclusão

Os Órfãos da China (Zanryu-koji) são testemunhas silenciosas de um passado traumático que ainda ecoa no presente. Suas vidas revelam a complexidade da identidade, o peso da história e a necessidade contínua de reconhecimento, empatia e reconciliação.

Contar suas histórias é um passo essencial para que essas experiências não sejam esquecidas — e para que tragédias semelhantes jamais se repitam.

Fontes: apjjf.org, www.tc.u-tokyo.ac.jp, japansociety.org.uk

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Sou apaixonada pelo Japão e sua cultura. Resolvi criar esse blog com o intuito de fazer com que mais e mais pessoas conheçam essa cultura tão rica, incrível e fascinante!

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