Lágrimas de Niji


Lágrimas de Niji

A dor de uma mãe transformada pelas águas da chuva

Por Mara Vanessa Torres & Rafaela Torres

A chuva despencava do céu ruidosamente, enchendo o rio Koyoshi e provocando homens e animais a buscar proteção. Apenas Niji era devorada pela chuva enquanto observava as águas fluviais ganharem volume. De dentro de suas casas, os habitantes do vilarejo olhavam com desaprovação para a mulher.

— Eu sei que Niji ainda sofre pela perda de seu único filho, mas não acho saudável que ela siga criando histórias fantasiosas para justificar a morte dele — disse a senhora Yazawa, balançando a cabeça para os demais.

— Talvez o honorável senhor Tanabe possa falar com ela. Um pouco de lucidez não faz mal — acrescentou uma das vizinhas da senhora Yazawa.

Da porta de sua casa, o honorável senhor Tanabe fitava Niji perto do rio e o seu coração se preenchia de compaixão pela pobre mulher. Niji costumava ser alegre.

A flor da beleza enchia de cor a sua face. Os olhos eram como duas estrelas cadentes e os lábios estavam sempre sorrindo, espalhando doçura e pureza por onde quer que passasse. Depois da morte de seu amado marido, o pequeno Nobu era a sua razão de viver.

Nobu era esperto e brincalhão. Todas as manhãs, sentava nas raízes das árvores centenárias e conversava com pássaros, besouros e coelhos que passeavam pelas redondezas.

Mas, assim como as pétalas das flores caem e morrem, uma manhã nublada e fria levou Nobu embora para sempre. Brincando nas margens do rio Koyoshi, o menino se desequilibrou e caiu na correnteza. Niji correu em desespero, mas não conseguiu salvá-lo.

Um minuto ou dois? Apenas um minuto antes, teria ela alcançado uma de suas minúsculas mãozinhas? Pensar sobre isso aniquilava a fragilizada alma de Niji.

Depois de dias ardendo em febre, delirando e repetindo palavras desconexas, Niji acordou de um sono intranquilo convencida de que os peixes levaram seu filho para uma viagem, mas logo o devolveriam.

Os moradores do vilarejo tentaram dissuadir Niji de suas afirmações fantasiosas, mas ela não se deixava convencer. Ao procurarem o honorável senhor Tanabe para que algo fosse feito, ele apenas sussurrou:

— Deixem que a mulher lamente a perda de seu único filho da forma que achar melhor. Não seremos responsáveis pela abreviação de seus dias provocada por suas próprias mãos.

No entanto, os moradores da vila se queixavam dessa conduta e achavam que a fuga da realidade não era um bom exemplo a ser dado aos mais jovens.

Todas as vezes que o céu ficava nublado e as nuvens se tornavam mordazes como lobos famintos, Niji saía em direção ao rio e ficava parada em suas margens. Ela nutria esperanças de que os peixes devolvessem o seu adorado Nobu.

Os dias, meses e anos foram passando. Até que uma chuva ruidosa despencou das alturas mais uma vez. Como sempre, Niji estava nas margens do rio, indiferente aos olhares, comentários e pensamentos maldosos. De repente, ela viu uma borboleta voando através das gotas pesadas. Espantada com a cena, Niji decidiu seguir o inseto.

Para a sua surpresa, ao atravessar as árvores frondosas, ela adentrou no que parecia ser uma floresta de bonsais. Em todos aqueles anos, Niji jamais ouvira falar de tal coisa nas proximidades de seu vilarejo.

Um barulho a assustou. Ao olhar para o lado esquerdo, a mulher viu uma garotinha ferida. Seus joelhos sangravam e ela trazia um grande arranhão no rosto. Imediatamente, Niji rasgou pedaços de seu quimono e cobriu as feridas da criança. Tirando o excesso de água da chuva, ela limpou o machucado do frágil rosto com um pedaço do pano.

A garotinha riu para Niji. Por um instante sagrado, ela achou ter ouvido a risada do próprio filho Nobu. Feliz, a menina levantou-se e correu por entre os bonsais, desaparecendo na tempestade.

Lágrimas de Niji

Fonte da imagem: rainbow_trees_by_annmariebone

Niji ainda observava a criança quando foi surpreendida pelo choro de um tanuki. Uma de suas patas estava machucada. Pedindo permissão a um dos bonsais, Niji arrancou um pequeno galho e, novamente, rasgando um pedaço de seu quimono, improvisou uma tala para o tanuki. O animal olhou profundamente para Niji e ela imaginou ter visto os olhos de Nobu no lugar dos olhos do tanuki.

Um trovão reverberou em toda a floresta e o tanuki correu em disparada. Niji estava com as duas mãos sobre o peito quando avistou uma senhora muito idosa caminhando em sua direção. Nas costas, galhos pontudos estavam amontoados, formando um peso inacreditável.

Sem pensar, Niji se aproximou da senhora e pediu para levar os galhos em seus ombros. A mulher entregou os pedaços de madeira para Niji e falou:

— Obrigada, criatura de gestos doces! Apesar de carregar um coração sofrido, você não é indiferente à dor alheia.

Após a idosa falar a última palavra, a chuva cessou. Um imenso arco-íris iluminou o horizonte. Magicamente, um portal se abriu e Niji viu inúmeras crianças sorrindo. Dentre elas, o seu pequeno Nobu.

Os galhos levados por Niji se transformaram em pétalas de flores e ela conseguiu abraçar o filho mais uma vez.

— Mamãe, amada mamãe — cantou o menino —, não fique triste com a minha ausência. Não há culpa em mim ou na senhora. A vida tem os seus ciclos e o meu encerrou. Nós voltaremos a nos encontrar no futuro, novamente como mãe e filho. Não chore, mãezinha.

Niji estava banhada em lágrimas.

— Meu filhinho… Meu menino… Eu sinto tantas saudades!

— Eu sei, mamãe. Eu estou bem. Veja, há muitas outras crianças aqui. Não sofra mais. A floresta de bonsais agora é o meu lar. Moro do outro lado do arco-íris.

Uma voz ecoou por toda a floresta:

— Niji, filha de Yume e Hideki, mulher de Jun e mãe de Nobu! Tudo o que a água leva, o vento traz. Transforme a sua dor em amor. Guarde em seu espírito os ensinamentos de seus ancestrais: “Shiawase ka dou ka wa, jibun shidai de aru” (A felicidade depende de nós). Agora vá! Volte para a sua vila, para a sua vida e para o mundo dos vivos.

Niji deu um último e apertado abraço em Nobu. O menino retribuiu. Em seguida, correu em direção ao arco-íris. Acompanhado de outras crianças, ele desapareceu no horizonte.

Ao abrir os olhos, Niji estava deitada às margens do grande rio Koyoshi. Não havia mais chuva. O honorável senhor Tanabe a observava. Ele esticou a mão direita e ofereceu ajuda para que ela pudesse levantar. Niji aceitou. Quando o honorável ancião fitou o seu rosto, viu que uma mudança importante acontecera. Sem questionamentos,
acompanhou Niji até sua casa.

— Honorável senhor Tanabe — falou a mulher, a voz alta e cheia de vida —, peço desculpas pelo meu comportamento e pelas preocupações causadas ao longo desses anos. Eu estava envolvida no lodo impuro, mas agora respiro a pureza novamente. Peço permissão para deixar a vila e me mudar para o Lar dos Pessegueiros, onde vivem os abandonados, rejeitados e excluídos. Quero ser a mãe possível para todos eles.

O senhor Tanabe fitou Niji e sorriu.

No dia seguinte, a mulher foi embora do vilarejo e se tornou a mais bondosa mãe e protetora das crianças do Lar dos Pessegueiros. No lugar de órfãos, eles passaram a ser conhecidos como os filhos das lágrimas de Niji ou os filhos do arco-íris.


Mara Vanessa Torres é escritora, jornalista, revisora e crítica cultural. Tem profunda admiração e crescente interesse pelo universo artístico e cultural asiático. @abyssal_waters

Rafaela Torres é escritora, psicóloga, ilustradora e gamer. Apaixonada pela cultura asiática. @rosenightshade

Créditos da imagem do topo: Mihokokuddy

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2 Comentários

  1. Fátima

    Que lindo! Como eu precisava ler isso! Fiquei encantada! Parabéns!!! Adorei!!

  2. Augusto de Faria

    Uma história muito tocante! Consegui adentrar a narrativa e me solidarizar com os sentimentos de todos os envolvidos. Palmas para as autoras, que conseguiram unir elementos da mitologia, contos infantis e sensibilidades japonesas! Gostei muito e lembrei da história do casamento da raposa!

    Muito bom! Vou compartilhar.

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