Miyuki Ishikawa: a história da “Parteira Demoníaca” do Japão

Miyuki Ishikawa: a história da “Parteira Demoníaca” do Japão

Miyuki Ishikawa, a parteira japonesa conhecida como “Parteira Demoníaca”, responsável pela morte de mais de 100 de bebês no Japão do pós-guerra.

Poucos casos criminais são tão perturbadores quanto o de Miyuki Ishikawa, uma parteira que ficou conhecida como a “Parteira Demoníaca” (Oni-sanba) após a morte de dezenas — possivelmente centenas — de bebês sob seus cuidados no final da década de 1940.

Entre 1944 e 1948, ela foi responsável pela morte de um número estimado entre 103 e 169 bebês no Hospital de Maternidade Kotobuki (Kotobuki San’in), em Tóquio.

O caso chocou o país e revelou problemas sociais profundos do Japão no período logo após a Segunda Guerra Mundial, quando pobreza extrema e crise econômica afetavam milhões de famílias.

Quem foi Miyuki Ishikawa

Miyuki Ishikawa nasceu em 1897 e trabalhou como parteira em Tóquio, no hospital Kotobuki Maternity Hospital (Kotobuki San’in).

Ela era responsável por auxiliar mulheres durante o parto e cuidar dos recém-nascidos. Na época, hospitais e clínicas de maternidade tinham papel essencial, pois muitas famílias não possuíam condições de criar seus filhos.

Durante o período pós-guerra, o Japão enfrentava escassez de alimentos, moradia e empregos, o que levou muitas famílias a abandonar crianças recém-nascidas.

O início das mortes

bebês encontrados no Hospital de Maternidade Kotobuki (Kotobuki San'in), em TóquioBebês encontrados na Maternidade Kotobuki San’in

Segundo as investigações, Ishikawa teria começado a negligenciar deliberadamente o cuidado de bebês cujos pais afirmavam não ter condições de criá-los.

Em vez de buscar alternativas para essas crianças, ela simplesmente deixava que morressem por falta de alimentação e cuidados médicos.

Ishikawa deixava os recém-nascidos morrerem de fome, sede ou frio. Ela justificava suas ações alegando que as crianças teriam uma vida de miséria e pobreza devido à crise econômica e falta de recursos no Japão pós-Segunda Guerra Mundial.

Em muitos casos, os pais eram convencidos de que a morte seria inevitável ou até mesmo uma solução menos custosa para a família.

Com o tempo, esse comportamento se tornou um sistema.

Quase todas as outras parteiras empregadas por Ishikawa ficaram enojadas com essa prática e renunciaram aos seus cargos assim que descobriram.

A descoberta do caso

Hospital de Maternidade Kotobuki (Kotobuki San'in), em TóquioMaternidade Kotobuki San’in

O escândalo veio à tona em 1948, quando autoridades encontraram vários corpos de bebês abandonados em Tóquio.

As investigações levaram à clínica onde Ishikawa trabalhava.

Durante a apuração, a polícia encontrou as cinzas de mais de quarenta crianças na casa de um agente funerário e as de mais trinta num templo.

Alguns relatos indicam que o número pode ter ultrapassado 100 vítimas, embora seja difícil determinar um total exato.

O caso ficou conhecido como um dos maiores escândalos envolvendo negligência infantil da história japonesa.

Um esquema envolvendo outras pessoas

As autoridades também descobriram que Ishikawa não agia sozinha.

Seu marido, Takeo Ishikawa, e o médico Shiro Nakayama estavam envolvidos no esquema. Eles recebiam dinheiro de famílias desesperadas que não tinham condições de cuidar dos filhos, alegando que seria mais barato do que criar um filho indesejado.

O médico Shiro Nakayama facilitava o crime emitindo atestados de óbito falsos, indicando que as crianças haviam morrido de causas naturais.

O pagamento funcionava como uma espécie de “taxa” para que a clínica assumisse a responsabilidade pelos bebês.

Na prática, porém, as crianças eram abandonadas à própria sorte.

Foi revelado mais tarde que outras onze maternidades em Tóquio também cometeram crimes semelhantes ao caso Kotobuki San’in até o final de 1948.

O julgamento

Durante o julgamento, Miyuki Ishikawa argumentou que não havia cometido assassinato, pois os bebês já haviam sido rejeitados pelos próprios pais e não teriam chances de sobrevivência.

Ela alegou que as verdadeiras responsáveis pelas mortes eram as famílias que abandonaram as crianças e o governo que falhou em oferecer assistência social adequada e parte da opinião pública da época chegou a apoiar essa visão, dada a escassez extrema de comida e recursos.

O tribunal considerou o argumento controverso, mas também reconheceu o contexto social extremamente difícil do Japão na época.

Uma sentença surpreendentemente leve

Apesar da gravidade do caso, a punição aplicada foi relativamente branda.

Em 1948, Ishikawa foi inicialmente condenada a apenas oito anos de prisão, enquanto seu marido e o médico receberam quatro anos cada.

Após um recurso em 1952, sua pena foi reduzida para quatro anos, uma sentença considerada extremamente leve para o número de vítimas.

Muitos historiadores acreditam que a sentença leve refletiu a situação social do Japão no pós-guerra, quando milhares de crianças eram abandonadas e o sistema de assistência social ainda era extremamente limitado.

Legalização do aborto no Japão em 1948

A tragédia de Miyuki Ishikawa foi o principal catalisador para que o governo japonês revisasse suas leis.

Em 1948, o Japão aprovou a Lei de Proteção Eugênica, que legalizou o aborto por razões econômicas, visando evitar que situações semelhantes de infanticídio e negligência voltassem a ocorrer.

A lei não foi criada para promover direitos reprodutivos ou autonomia feminina, mas sim por razões de controle populacional e saúde pública em um momento de crise extrema.

Em 1996, a lei foi renomeada para Lei de Proteção à Saúde Materna, removendo os termos eugênicos.

Um caso que marcou a história criminal japonesa

O episódio envolvendo Miyuki Ishikawa continua sendo um dos casos mais controversos da história criminal do Japão.

Mais do que um crime chocante, ele expôs problemas profundos da sociedade japonesa da época:

● pobreza extrema após a guerra
● falta de políticas de proteção à infância
● abandono de recém-nascidos
● fragilidade do sistema de saúde e assistência social

Até hoje, o caso é frequentemente citado em estudos sobre ética médica, história criminal e políticas sociais no Japão.

Fonte: Wikipedia
Imagens: Wikimedia Commons

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Sou apaixonada pelo Japão e sua cultura. Resolvi criar esse blog com o intuito de fazer com que mais e mais pessoas conheçam essa cultura tão rica, incrível e fascinante!

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